TEXTÍCULOS INFRINGENTES 2

A infringência é uma prática antiga, comum no paleolítico, quando o homo faber mal suspeitava tornar-se, um dia, homo sapiens. Pois tornou-se, contra a própria vontade, que esta criatura, por aqueles tempos, já se revelara negacionista. Acreditava que a terra era plana e morria de medo do finisterium e de despejar-se pelo vazio do universo. A espécie herdaria de Eva a perspicácia sibilina e, de Adão, a ingenuidade; da serpente, a jovem senhora herdara a dissimulação. Nestes espaços ininterruptos de SEGUNDA OPINIÃO há-de cometer-se, com o assentimento inteligente dos leitores – e uma certa cumplicidade útil — muitas infringências de ideias preconcebidas, salvas dos preconceitos inomináveis que ameaçam com tanta mentira e tamanha realidade.”

Paulo Elpídio de Menezes Neto

LIÇÕES SOBRE AUTORIDADE E LEGITIMIDADE. PARA BOM ENTENDEDOR MEIA PALAVRA BASTA

Há várias formas e medidas para a construção da “autoridade”. A legitimidade; as leis; a força física, a institucionalização totalitária; e a monocracia da Justiça.

A autoridade, amplo espectro, reflete o reconhecimento e a aceitação dos cidadãos, em um ambiente garantido por instituições estáveis, baseado na representação política, na eleição e no mandato, formas democráticas de constituição dos instrumentos do poder em um Estado democrático.

Simples assim.

Puxei um fiozinho de lembranças adormecidas e me vi em meio a um turbilhão de pessoas que habitaram as terras da minha infância. Pegaram-me pela mão e me levaram ao encontro de ruas e becos, por estes jardins da saudade…

LIÇÕES DE POLÍTICA E DE DEMOCRACIA

No Parlamentarismo, a dissolução do Parlamento com novas eleições convocadas não é golpe. É mecanismo constitucional regular. É uma espécie de reajuste entre as forças políticas , uma forma de revisão ou conferência da vontade popular, por via eleitoral.

Golpe é quando os poderes constituídos são fragilizados por decisões autoritárias, à margem da Constituição e contra ela. Quando, por exemplo, um dos poderes sai da sua caixinha e quebra a caixinha de outro poder , em nome do que lhes parece ser próprio da “democracia”.

A VAIA, INSTRUMENTO REVOLUCIONÁRIO QUE GRAMSCI NÃO ESTUDOU NO CÁRCERE…

A vaia é o último recurso pacífico em uma democracia. Os outros estão fora de moda. Vai ver, daqui a pouco serão os governantes que vaiarão o povo. E os eleitores..

Pesquisadores descobriram a existência de 72 facções atuantes com negócios prósperos no narcotráfico no Brasil. Já de partidos, o Brasil, a maior democracia do mundo, está bem servido, igualmente. São 34, enquanto outros estão em formação.

Nestas trágicas circunstâncias em que vivemos, por omissão recorrente, o mais grave é adotar aquela saída ingênua do “pensamento positivo” do “vaidarcerto”. É preciso considerar a realidade que muitos não querem ver, com atenção, sem deixar-se enganar. Otimismo já não cabe como esperança de que as coisas se realizem como desejaríamos.

O MITO BÍBLICO DO DILÚVIO TRANSFORMADO EM TRAGÉDIA BRASILEIRA

O dilúvio é um mito bíblico. Registro persistente e repetitivo nas culturas do Oriente Médio, ganhou foros de uma metáfora, o aviso do desastre iminente que pode abater-se sobre humanidade. No Brasil, surge com o desmoronamento de barragens de depósitos minerais e, agora, virou tragédia real no Rio Grande do Sul.

Ganhou denominação autônoma de “desequilíbrio ecológico” situação e circunstância que não lidem ser atribuídas aos governos, aos prefeitos e aos partidos políticos.

A responsabilidade é do efeito estufa e das agressões perpetradas pelo capitalismo sobre a natureza indefesa…

A colonização europeia e a agroindústria, o desmatamento pelas mãos criminosas do capitalismo serão responsabilizados no devido tempo.

O CÔNCAVO DO CONVEXO

Na democracia, as criaturas acostumadas à liberdade banalizada por ser normal e corriqueiro os cidadãos viverem em liberdade, não percebem quando encosta um “condottieri” civil ou militar, político ou togado, gruncho ou intelectual. Mal se dão conta do que virá pela frente.

No começo alguns liberais tem dificuldade para acompanhar as mudanças em progressão. Com o tempo, se acostumam e começam a aceitar a ditadura desembarcada. E, pelo hábito, começam a racionalizar, em consonância com a “tese da relatividade” de Lula, que uma ditadura é cousa normal no governo dos países. Alguns deles, com ditadores, há ta to tempo, são ricos, potências reconhecidas e temidas.

A transição da ditadura, ou que nome lhe seja dado na navegação pelas correntes da semântica, para a democracia, traz incertezas para as criaturas de paz. Todos se olham e se perguntam se não é melhor ficar como as coisas estão.

Foi assim em 1930 e em 1945. Foi assim em 1964 e em 1985.

No Brasil, democracia e ditadura cumprem um ciclo de alternância quase rotineiro. Fecha e abre, abre e fecha. E tudo continua como sempre esteve. Tudo é tão comezinho e tão “do mesmo”, que, fora as caras novas que vão chegando, tudo parece igual. Neste nosso país, nada mais parecido com o privado do que o público. E nada mais semelhante à democracia do que um regime forte, “progressista” segundo o jargão da moda.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.