Terra, tronco, templo: A aura de um mito benévolo.

Quando o cronista de viagem, Pero Vaz de Caminha, estendeu os olhos fatigados de mar, para o continente, descansou-os numa exótica e exuberante floresta tropical. E não deixou de inserir na carta a Dom Manuel a célebre frase; “Nesta terra, em se plantando, tudo dá.”

Naquele momento em que o coração lusitano batia no ritmo urgente dos negócios do Oriente, com certeza, essa era uma informação supérflua para o rei… É bem capaz de o monarca ter balbuciado para os seus botões: “Oh, lunático, por que estás a me dar conta disto?… Quem há de cultivar nesses fins de mundo?

Na mesma missiva, ao lado da uberdade da terra, o diligente cronista não se esqueceu do bom estado físico e até da beleza dos nativos. E sugere à Coroa “salvar a “alma dessa gente”… E o rei deve ter recebido com igual enfaro… Ora, quem estava imbuído em consolidar um corredor marítimo, por onde pudesse correr especiarias, ouro e prata, não tinha ouvidos para esse negócio de salvar almas autóctones. Assim, o Brasil tornou-se, por um bom tempo, um achado esquecido.

Só anos após, quando o açúcar entrou a adoçar a vida, em larga escala, na Europa, tornando-se gênero de exportação, os portugueses se lembraram de que aquela úbere terra, descrita por Caminha, poderia ensejar uma bela oportunidade comercial. Estava então nascendo o avô do nosso agro, bem como a nossa vocação para o latifúndio.

A cana cumpria uma dupla função: produzir capital e ocupar o território. Paralelamente, a ocupação do espírito (com o catolicismo) entra também no combo da defesa do espaço. Era um estratagema para afastar a ameaça dos invasores protestantes… E assim enviaram-se cana e padres. Aquela para a terra; estes para as almas.
Padre Vieira foi explícito, no sermão “Pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda”, quando exorta os fiéis a lutarem contra as possíveis depredações dos templos pelos protestantes holandeses.

Fora alguns estranhamentos, em torno da escravização dos índios, sacerdotes, senhores e governantes sempre estiveram umbilicalmente ligados, acumpliciados… Nem mesmo a política pombalina desfez este liame.

Ressalte-se, portanto, que a fé no Brasil nunca se apoiou em bases espirituais sólidas e autônomas. A relação com Deus e os santos é quase um negócio terreno… Nesse sentido, a avalanche pentecostal apenas elidiu os santos, para travar negócio direto com Abraão, Moisés, Jesus e o próprio Deus…

Com efeito, mandava quem detinha o capital. A igreja dependia dele. Aos padres assim, como às doceiras e mucamas, era concedido o direito de resmungar, de ralhar…Elas até ameaçam, com certa bonomia, os meninos com colheres de pau… Os vigários, quando necessário, (como ironizou Ariano Suassuna), corriam a benzer as cachorras dos coronéis.

A cana trouxe o escravo africano. Daí uma estranha simbiose entre TRONCO e TEMPLO. Era possível que, do TEMPLO se ouvissem os ais do TRONCO… Como também era dado à mão que açoitava, no TRONCO, pedir a bênção no TEMPLO.

A tortura era tolerada. E nada é mais irreligioso e anticristão do que ela. É claro que tronco não é cruz, mas guardam muitas relações. E, se não havia uma relação direta com o sofrimento de Cristo, porque o negro era desumanizado. Isso amainava o sentimento de culpa e a ideia de pecado.

Criou-se a ideia de uma sociedade pacífica e cordial. Isso serviu e ainda serve para ocultar crimes contra as minorias étnicas.

Até outro dia, o católico Domingos Jorge Velho, o maior escravizador e matador de índios do Nordeste, era tido como um herói piauiense. Até que os movimentos sociais arrancaram-lhe o nome de uma escola e puseram no lugar o de Zumbi dos Palmares. Mas acho que ainda falta expurgar da letra do hino uma menção a ele. Ainda que mais não seja, porque é incoerente. O poeta Da Costa e Silva teve a infeliz ideia de escrever isto:
“Desbravando-te os campos distantes Na missão do trabalho e da paz
A aventura de dois bandeirantes
A semente da pátria nos traz.”

Os tais bandeirantes, da estrofe acima, são os Domingos Jorge Velho e Afonso Mafrense. Duas figuras tão pacíficas, confiáveis e leais que não podiam se encontrar. Ficaram a centenas de quilômetros, um do outro, nesse imenso descampado que era o Piauí. Consta que o Mafrense tinha pavor do Jorge Velho.

E não era para menos. Esse mercenário era realmente um jagunço perigoso. Ele foi contratado pelo governador de Pernambuco, João da Cunha Souto Maior, para exterminar o Quilombo de Palmares. Incorporou índios piauienses ao seu exército. Como ele mesmo confessa, em carta de 15.07.1694, a Souto Maior:
“Sem os tais índios, da casta dos ourazes e cupinharoens, como são os meus, não se pode fazer a guerra dessa qualidade. São tão valentes, afoitos e constantes na batalha que nenhuma outra nação, no mundo, se os iguala, não os excede.”

Esse fervoroso católico pôs vítimas a lutar com vítimas.

Em 1897, espalhou-se, pelas províncias, a notícia de que a República estava por um triz, em função dos desideratos monarquistas do perigosíssimo Antônio Conselheiro (que, de fato, não passava de um pobre lunático, acometido de uma religiosidade confusa, fanatizante, sem nenhuma influência para além dos limites do seu arraial; entretanto urgia esmagá-lo.

Poucos piauienses sabem que, no dia 15 de maio de 1897, partiram do adro da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Teresina, 498 homens para lutarem contra os revoltosos de Canudos… Fora os 17 comandantes, os demais eram pobres que saíram a dar combate a brasileiros paupérrimos…

Desceram em barcaças pelas águas do Parnaíba, em direção à cidade homônima. De lá, para o Recife, de onde seguem, numa peregrinação de dimensões bíblicas, até os fundões da Bahia, para finalmente defrontarem-se com o inimigo, no arraial de Canudos.

Desse contingente, apenas 160 se fizeram presentes, em missa campal, no adro do mesmo templo, no dia 21 de outubro. Mas nem eram sombra daqueles jovens fagueiros que desceram nas águas do Velho Monge, como se fossem escoteiros em busca de piquenique…Ao contrário, mais pareciam cadáveres ambulantes… assustados, estropiados… muitos carcomidos pela pneumonia e tuberculose.

O último ato de que se tem notícia destes bravos foi no Teatro 04 de Setembro, onde assistiram ao espetáculo “O Guarani” de Carlos Gomes, uma peça romântica que ironicamente alegoriza a união entre índio e branco, neste país “abençoado por Deus e bonito por natureza” que, “em se plantando, tudo dá”. Inclusive mentiras e hipocrisia.

Aliás, há uma tentativa de oficializar a mentira, no país, com as bênçãos (pasme- se) da bancada evangélica, cujos parlamentares não podem se afastar do mito mitômano. Desse modo, precisam manter uma posição favorável à livre circulação de “fake news” nas redes sociais.

Para piorar o que historicamente já é ruim, a genial Michele Bolsonaro, “Micheque”, para os íntimos, propõe uma teocracia evangélica, com ela no comando. Claro, apoiada pelo agro.
Ah, meu clarividente Pero Vaz, gosto de você… Você escreveu o texto mais importante da história do Brasil. Recorreu à escrita e, ao fazê-lo, utilizou a forma de comunicação mais expressiva e perene, entre todas… Pena é que os belos nativos não dispunham desse recurso. Caso dispusessem, por certo, diriam mais do que disse a um padre este Tremembé: “Nicatui ibaca, ibinho icatu.”

“O céu não presta pra nada; só a terra, sim, esta é boa.”

São palavras que carregam uma imensa contrariedade!… Esse cidadão foi um dos poucos sobreviventes a uma emboscada em sua tribo, aprisionado no litoral do Piauí.

Professor Macedo

Francisco das Chagas Oliveira Macedo

Francisco das Chagas Oliveira Macedo (Prof. Macedo) nasceu em Picos, sertão do Piauí, em 1960. Graduado em Letras pela UFPI, leciona língua portuguesa e literatura, nas redes pública e privada, em Teresina.