Terra em Transe: E uma releitura de um Brasil que é 2018 em 1967

Falar sobre um clássico é sempre uma tarefa difícil. A grande variedade de referências e signos que essas obras trazem em si remontam a desafios que só se equiparam à sua relevância para a memória artístico nacional. De trabalhos com esse escopo é que chegamos a filmes como “Terra em Transe” (1967). Lançado há 51 anos, o longa é uma das obras-primas do cineasta baiano Glauber Rocha. Mas para além disso, muito mais ele é.

No longa, o País fictício da América latina, Eldorado, é palco de uma convulsão interna desencadeada pela luta em busca do poder. De um lado, acompanhamos a ascensão de Felipe Vieira (José Lewgoy), um líder populista que se ancora nas massas para consolidar-se na corrida eleitoral e do outro, Porfírio Diaz (Paulo Autran) um candidato golpista e autoritário cuja proposta política se fortalece com base no fanatismo religioso e na paranoia impregnada sob o culto da nação.

Inicialmente é quase retórico afirmarmos a relevância de Terra em Transe para a história do cinema brasileiro e também mundial, porque apesar de realizado no Brasil, o filme desfrutou, assim como também desfruta nos dias de hoje de uma circulação bastante abrangente ao redor do mundo. Universal, portanto, o terceiro longa-metragem de Glauber Rocha tem no seu tom premonitório uma das suas marcas de maior de distinção. Apesar do seu traço atemporal, importante notarmos o vezo sequencial que a encarna.

Ou seja, a obra pode ser interpretada como uma sequência triunfante do seu antecessor, Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). E se este tem seu epílogo ou conclusão com uma imagem que remonta à metáfora de um sertão que virará mar, em Terra em Transe nós partimos, já na cena de abertura, desses mesmo mar. Saímos dessa imensidão oceânica para irmos em direção ao Continente. Em solo firme, desaguamos em Eldorado. Uma terra em construção e ainda por se construir.

Esse conceito é pragmaticamente utilizado por Glauber tanto em forma quanto em sentido fílmicos. A impressão que temos é a de que logo em sua primeira sequência, onde vemos o arregimento das forças que tomarão o governo de Eldorado, o filme nos dá conta de uma ação em curso. Ou seja, como se a narrativa ali apresentada já estivesse ocorrendo há um tempo antes mesmo do nosso “embarque” na obra. E aí o primeiro índice de grandiosidade do filme vem à tona: ele não nos subestima enquanto espectadores. E por isso não nos julga a capacidade de entendimento da estória mesmo ao sermos apresentados a um enredo em pleno desenvolvimento.

Esse é igualmente o cuidado que devemos tomar em relação às não raras interpretações que leem o filme como hermético e gratuitamente barroco. Obviamente que assistir Glauber Rocha requer algum repertório, seja das questões da arte como forma de expressão, seja do cinema como linguagem para a construção de sentido nesse mundo em que nos inserimos. Não se trata, logo, de um gratuito preciosismo. E sim, de uma honesta aposta autoral daquele de um realizador que usava a gramática cinematográfica para educar por meio de imagens em som e movimento.

Nesse ponto, e aqui tomando as reflexões trazidas pelo professor Ismail Xavier (2012) nos defrontamos com suas questões que são centrais na obra glauberiana. Uma, relacionada à noção do subdesenvolvimento como uma espécie de diagnóstico dessa sociedade latino-americana que parece figurar numa condição de perene incompletude e crises sem perspectiva de superação. A outra, ligada a uma ideia do diálogo “obra-público”, onde o debate centrava-se, assim como ainda se centra, sobre a sustentabilidade de adaptação da linguagem do cinema aos parâmetros do mercado.

Tópico delicado, ele exige uma leitura bastante contextual do fazer cinematográfico na contemporaneidade. Levando o trabalho de Glauber como parâmetro, afirmamos que toda sua obra, assim como Terra em Transe, vê-se uma decisão muito consciente no que diz respeito à figura do autor. As possíveis limitações de alcance com um grande público, portanto, não foram impeditivos para o contorno do conjunto de filmes realizados pelo artista baiano. Sua arte não se distanciou do público por ser política e autoral. Pelo contrário, esse é sem dúvidas uma de suas maiores marcas assim como o legado que ela deixa para o cinema brasileiro.

Chegando em 2018, entretanto, é quase premonitória a percepção que temos de Terra em Transe. Lançado em 1967, o filme fala de um contexto que antecede o Ato Institucional-5** para nos lançar direto numa espécie de epifania reversa na conjuntura de 2018. Observando figuras como Porfírio Diaz e Vieira, logo notamos as semelhanças com os personagens da nossa contemporaneidade brasileira.

Afinal, não seria o candidato lançado pelo Partido Social Liberal (PSL) às eleições de 2018 no Brasil uma espécie de representação tosca e referencial do que seria uma fusão entre as personalidades de Diaz e Vieira dentro de um pleito nacional? Logo, Terra em Transe pode ser tomada como uma releitura (im)provável de um Brasil que é 2018 em 1967.

O “sucesso” que a obra goza junto à história da nossa cinematografia não vem da sua interpretação ideológica de esquerda que os recém-descobertos conservadores brasileiros acusam por meio das suas retóricas vazias e inconsistentes. Seu valor se sobrepõe a isso. E se materializa na expressa assinatura de um realizador comprometido com as questões do seu tempo, assim como tantos outros nomes do cinema sessentista brasileiro como Carlos Reichenbach, Nelson Pereira dos Santos, e Júlio Bressane, todos fundamentais para a cinematografia contemporânea nacional. E quando falamos disso não nos referimos aos filmes ou séries sobre agentes de Polícia Federal e afins. A essas obras, só esta desserviço, nada mais.

* Assista a íntegra do filme no link: https://goo.gl/zzteGP

** De acordo com decreto presidencial publicado em 13 de dezembro de 1968, o Ato Institucional Nº 5, estabelecia ao presidente decretar a intervenção nos estados e municípios, sem as limitações previstas na Constituição, suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eleitorais federais, estaduais e municipais.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Terra em Transe

Tempo de Duração: 111 minutos

Ano de Lançamento: 1967

Gênero: Drama

Direção: Glauber Rocha

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *