SUSTOS: SONHO, PESADELO E REALIDADE, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Aprende que as circunstâncias e os ambientes possuem influência sobre nós, mas somente nós somos responsáveis por nós mesmos!”

(William Shakespeare, em UM DIA VOCÊ APRENDE… – Internet: https://www.recantodasletras.com.br. Acesso: 8.2.2019)

Que susto!

Aos meus cansados pés de andarilho errante, um lago de águas escuras – profundeza ou profundidade?! –, profundamente enigmáticas e tranquilas, serenamente atraentes – sedutoras até! –, parece adormecido: apenas quase imperceptíveis arrepios ao sabor de ventos que mais assoviam na copa das árvores, de onde emanam suaves gorjeios, e menos encrespam o manto aquoso que se amplia para além do relevo curvilíneo de tão paradisíaco rincão.

Entre mim, o mago, e ele, o lago, erige-se uma mureta de proteção já sem brilho, a caiação já gasta pela reação da Natureza, sutis marcas de um passado importante que resistem ao impiedoso tempo – insensível e inexorável.

Que susto!

Um arbusto, único, resiste à solidão em meio à vasta área de vegetação rasteira que não floresce, apenas se mantém vivamente verde.

De repente, ela surge. Poderosa. Deslumbrante. Provocante. Ruidosamente alegre, no farfalhar das sedas de seu longo e exuberante vestido, alvíssimo com apliques em ouro.

E ela corre: os longos cabelos, exageradamente negros, esvoaçam… parecem querer libertar-se do corpo que teimosamente os prende, retém-nos; o rosto ovalado, os olhos anilados, o colo comum, os seios fartos e firmes, os braços fortes, o todo corporal revelando o mais puro encanto; os pés descalços, singelos, suavemente plainam sobre a grama, sem sequer ameaçar tocá-la.

Na verdade, a linda moça enche-me os olhos estupefatos, pávidos, adejando como se borboleta fosse.

Que susto!

O vento, invejoso ou ciumento, agora sopra com violência. Ela perde o equilíbrio em pleno voo. E, sob um grito de desespero que ressoa interminavelmente para muito além da copa das muitas árvores que emolduram o vale, de onde até pouco emanavam suaves chilreios, nas águas escuras do lago mergulha. E, sob borbulhas que logo se desfazem, desaparece.

Nada consigo fazer a fim de evitar tão trágico desfecho. Grilhões invisíveis tolhem-me o agitado desejo de intervir.

Então, eu me questiono: afinal, quem sou?! Infelizmente, apenas um sonhador de sonhos improváveis que, não raramente, em pesadelo se transformam.

Que susto!

Na manhã de céu cinzento, de clima ameno, de vias públicas alagadas, a chuva intensa dá uma ligeira trégua.

Trafego pela larga avenida federal. Conduzo o carro pela faixa mais à direita, porquanto, mais adiante, para a direita mudarei o curso da viagem. Cruzo a linha de semáforo para pedestre, sob verdes luzes.

De repente, causa-me estranhamento a rápida ação de um cidadão de meia idade, estatura mediana, perfil de atleta, boné de aba frontal, óculos escuros, camisa de finas listras verticais – o branco e o amarelo alternando-se –, calça jeans desbotada e alpercatas de couro. Ligeiramente ele abandona o canteiro central da via, avança pelas faixas de rolamento em direção à que por onde me locomovo. Gesticula com ameaças. Nervosamente, retira do bolso da camisa um celular e fotografa, repetidas vezes, o carro que dirijo.

Assusto-me. E, numa atitude do mais puro reflexo, talvez até por temer uma abordagem de alto risco para mim, reduzo a velocidade do carro para menos de quarenta por hora. Percebo, então, que ninguém mais participou de tão insólita cena, até própria dos cruciais tempos de violência em que vivemos. O meu amado Ecosport era, sim, o protagonista único de tão inusitado enredo. Só um antagonista: o fotógrafo. Só um coadjuvante: eu. Sem figurantes.

No visor do relógio de pulso, os ponteiros indicam exatamente: 8 horas e 30 minutos.

Passado o susto, sigo viagem.

Já em casa, lembro-me de haver, já no fluente mês, pagado multa por excesso de velocidade – aplicada por radar móvel e sem direito à apelação, ante a nitidez da foto –, falta grave por mim cometida em movimentada avenida desta cidade que tanto de nós cobra e tão pouco nos oferece.

Cuido, então, de verificar a legitimidade do castigo. Acesso os sítios eletrônicos dos órgãos – estadual e municipal – competentes para tal fim. Em ambos, recolho mensagem que me aparvalha: “Não há registro de multas para este veículo”.

Que absurdo!

Alcançaram-me com um golpe certeiro. Já não se trata de pesadelo. Agora é, sim, a mais pura realidade.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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