Social para o espaço

Vocês levaram o social para o espaço, por Rui Daher

As imbecilidades que temos ouvido do presidente eleito Jair Bolsonaro e de sua mambembe trupe são café pequeno perto das repercussões ocorridas nos índices sociais do país.

O bullshit já se mostrava dantesco há anos. O despreparo evidente. A canalhice recôndita. Nada aí foi novidade. A isso se prestariam os impeachment de Dilma Rousseff, a perseguição até prisão sem provas de Lula, e os WhatsApp manada de votos.

Em editorial, o Valor alerta “Indicadores sociais acentuam desafios do futuro governo” (11/12/2018). A sucursal do Globo em São Paulo se vale da Síntese de Indicadores Sociais (SIS) 2018, produzida e publicada pelo IBGE.

“O que sobressai é a desigualdade perversa da renda, educação, habitação e mercado de trabalho”. Até aí, nada diferente do que a Oxfam Brasil mostrou em estudo que coloca a desigualdade de renda do Brasil como a nona maior entre 190 países.

Para o jornal, “dois anos de recessão [2015/16] e a fraca saída da crise em 2017 tiveram impacto bastante negativo na vida da população”.

Deixo Vera Brandimarte (Diretora de Redação) e sua equipe trabalharem, conforme pinçam do SIS/IBGE:

“Pobres, assim considerados pelo Banco Mundial os que ganham US$ 5,50 por dia (R$ 406/mês), aumentou em dois milhões de pessoas no período. São 55 milhões de pessoas, 27% do total da população brasileira, sendo 45% deles concentrados no Nordeste “Vermelho”;

Esses vão melhor. São os pobres privilegiados.  Já o número de pessoas em extrema pobreza, com renda inferior a R$ 140 por mês, foi a 15 milhões ou 7,4% da população total.

Com essa dinheirama vivem 35% dos aqui residentes. Depois vêm os remediados em graus de estratificação decrescentes, até atingirem o 1% rico da nação.

Nem precisam se dar ao trabalho de recorrer ao editorial completo ou ao SIS. Por óbvio, esse empobrecimento resultou no aumento do número de crianças com fome, causou desemprego e queda de renda, piora de qualidade nos aparelhos públicos de saúde, educação, saneamento básico, moradias e adensamento do número de pessoas dentro delas.

Dimensões e participações percentuais estão todas lá. Se duvidam, fucem.

Ainda no editorial: “O IBGE calculou que seria necessário investir (…) R$ 122,4 bilhões por ano para erradicar a pobreza (…) a crise mostrou que as políticas sociais funcionam e que têm limites. O ajuste fiscal tem de preservá-las”.

Há um fato indigno nesses alertas e constatações, cinicamente martelado nas recentes campanhas eleitorais e, ao final, no resultado das urnas. A crise foi toda jogada nos ombros dos governos do PT e às políticas sociais populistas da esquerda. Aliás, como se as práticas daqueles quase 13 anos fossem mesmo “de esquerda”.

De tão repetido o argumento, tão instrumentalizadas as decisões nos poderes Legislativo e Judiciário, apoiado em folhas e telas globais, a mentira colou, deu no que deu, e no que de pior virá.

Responsável, fui ao site do IBGE e fiz download do SIS 2013, referente a dados de 2012, quando a população residente no Brasil somava 194 milhões. Pois bem, entre 2002 e 2012 a vida melhorava e quem diz isso? O SIS-IBGE:

“Entre 2002 e 2012, a sociedade brasileira passou por mudanças que produziram impactos significativos sobre as condições de vida da população. Por um lado, o dinamismo do mercado de trabalho se traduziu no crescimento da população ocupada e na formalização das relações de trabalho, onde um contingente maior de trabalhadores passou a contar com uma série de direitos e benefícios vinculados à posse da carteira de trabalho. Da mesma forma, o crescimento real do rendimento do trabalho ampliou não apenas o acesso de mais trabalhadores ao mercado de consumo, como também reduziu os diferenciais de rendimento de trabalho. Cabe ressaltar o papel desempenhado pelo salário mínimo, cuja valorização neste período permitiu a ampliação do poder de compra dos trabalhadores com mais baixos rendimentos e dos beneficiários da Previdência Social, cujo piso equivale ao valor do mínimo vigente. Em paralelo, a criação, ampliação e consolidação de um conjunto de políticas de transferência de renda voltadas para segmentos da população historicamente excluídos de medidas protetivas por parte do Estado, contribuiu também para a redução nos indicadores de desigualdade de rendimento, acesso a programas e serviços de saúde na área de atenção básica e frequência escolar. A ampliação do ensino obrigatório para crianças de 4 a 17 anos de idade, prevista na legislação vigente, renova os desafios de superação dos gargalos reconhecidos, como o acesso à educação infantil e ao ensino médio. A multidimensionalidade da pobreza e da desigualdade leva, por sua vez, a premência de implementação de ações e políticas públicas que ampliem o acesso a áreas igualmente importantes na análise das condições de vida e bem-estar, muitas dessas refletidas nos indicadores propostos nessa publicação, relacionados a moradias com saneamento adequado; níveis de escolaridade e correção do fluxo escolar; incidência de doenças evitáveis diversas; condições de trabalho; entre outras”.

Pergunto: e quem fez isso? Como? Está na prisão? Não acredito.

(Texto originalmente publicado no Jornal GGN)

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