Sobre o mundo após a pandemia

Querem saber como ficará o mundo após o fim do mundo; querem saber como será o dia após o último dia. “Só rindo”, como O Cobrador de Rubem Fonseca. Acho que não ouviram falar que desde a morte do último trovador, em 1914, fomos obrigados a viver após o fim. Talvez não tenham escutado que após os bombardeiros em Hiroshima e Nagasaki a dita “humanidade” vive no interior do tempo como num prazo. Todo dia o relógio do mundo conta quanto tempo ainda resta antes do fim desse mundo, consumindo todo o tempo futuro a crédito, se endividando; consumindo todo dito recurso natural sem nenhum freio de emergência; descartando todo dito recurso humano em aterros sanitários de gente, consumando o que se pode chamar de tempo do fim.

Querem saber como ficará o mundo após… – “Só rindo”. Ainda não perceberam que o futuro estava no passado e se tornou presente agora? Nunca ouviram falar das frases messiânicas sobre o tempo do agora? Vivo naquilo a que chamam Brasil, e não sei bem em qual desses brasis faço morada, mas há bem pouco tempo chamavam-nos de país do futuro. E, bem, ele chegou. Chegou não com um estrondo, mas com um gemido, ou talvez com estrondo, gemido, choro, ranger de dentes. Querem saber como ficaremos após a corrida pandêmica, e penso: tal como agora estamos. Tal como sempre fomos. Tal como nunca, enquanto sociedade, deixamos de ser; tal como sempre, enquanto indivíduos em sociedade, fomos. “Ao vencedor as batatas” não era o principal axioma político do sistema de pensamento, humanitas, daquele dito filósofo, o Quincas Borba, de Machado de Assis? Pois então. Só que agora as batatas estão todas bichadas, contaminadas, transgênicas, intoxicadas pela indústria química.

Plantar e pensar organicamente já nos faria ver um outro futuro. Acho até que existem algumas formigas, operosas e silenciosas, laborando a vida futura que ainda não criamos. Uma vida futura que ainda não tornamos presente, uma vida futura centrada ao menos na ideia de vida boa, numa vida digna a todos, da vírus à ameba e desta ao homo sapiens sapiens (sapiens até demais). Existem umas formigas, quietas e ativas, laborando, por debaixo do espetáculo, a vida futura que foi roubada de nossos antepassados e nos foi dado como tarefa reconstruir, aliando sabedoria antiga e aparelhagem técnica moderna, mas sobretudo com novos paradigmas de relação entre a multitude de humanos e outros seres a habitar este planeta. Elas, sim, sabem que o prédio civilizatório já caiu, e faz tempo, e sem elas talvez nem as baratas suportem uma hecatombe nuclear.

Querem saber do mundo futuro. Só rindo… fui judeu e aprendi que judeu não mexe em caldeirão do futuro. Sou até um tanto cego, não vejo tantas imagens, apenas em sonho, e não sei jogar baralho, tarô – nada contra –, não sei ler mapa astral, planilhas de dados estatísticos geoquímicos ou populacionais; sou, no máximo, um poeta leitor de filosofia e teoria crítica e a única coisa que consigo dizer sobre o futuro é que já estamos nele. Porque, antes, sonhávamos, e a isso chamávamos utopia; até que, a certa altura, desaprendemos a sonhar e só tivemos pesadelos, e a isso chamamos distopia, e as distopias começaram a se tornar, todas elas, uma estética real-naturalista fantástica bem à frente dos olhos todos os dias quando se acorda pela manhã. Querem, insistentemente, saber do mundo futuro. Paulo Arantes, em seu livro O novo tempo do mundo (2014), diz que a medicina de urgência tornou-se o paradigma político dominante; não sei ir além disto.

Querem saber do futuro… Então talvez caiba alguma dica, pista, ou mesmo oráculo. Por que não perguntamos às formigas? Por que não perguntamos aos rios, às montanhas, ao encantados? Ao encantado, amado, teu vizinho, do teu lado. Tenho talvez uma dica. Por que não perguntamos à Terra, essa mesmo na qual habitamos? Que somos. Talvez assim possamos não falar do futuro, mas de onde estamos, do tempo em que estamos, e enxergar bem mais do que catástrofe e ruína. Acredito que sobre isso as formigas e os rios e as montanhas e os povos nativos podem nos ensinar um bocado.

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Lê, como uma esgrima; esceve, sempre que pode; sonha, toda noite, mas nem sempre se lembra pela manhã - às vezes sonha durante o dia, acordado; sente amor regularmente, mas existe uma espécie de raiva que às vezes retorna. Licenciado e Mestre em Filosofia pela UECE. Reikiano e massoterapeuta pelo espaço Ekobé. Perfil no instagram: @pedrenrique_insta. Encontra-se desempregado e qualquer contato pode ser feito também pelo e-mail: [email protected]

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