Será coincidência o que une Dilma a Collor? por Osvaldo Euclides

Os governos de Dilma Roussef e de Fernando Collor de Melo têm pelo menos uma coisa em comum: enfrentaram e confrontaram o sistema bancário, no que eles mais prezam, seus interesses diretos. Collor tomou medidas drásticas contra esses interesses: decretou um feriado bancário de quatro dias, congelou aplicações e contas correntes e acabou com transações ao portador (o maior golpe que alguém já deu na corrupção, ou sonegação, como queiram). Dilma baixou os juros reais da dívida pública e jogou os bancos públicos na competição de mercado.

Foram as únicas vezes que alguém, neste país, teve a ousadia de colocar em prática, sem consulta, sem negociação e sem aprovação prévia (do sistema bancário) este tipo de decisão. É bem verdade que não demorou muito para que ambos recuassem. Collor aquietou-se e depois entregou o Ministério da Fazenda a um banqueiro, Dilma fez mais ou menos a mesma coisa, no fim do primeiro mandato, início do segundo, nomeando outro “banqueiro”, voltando os juros a níveis ainda escandalosos e acalmando a concorrência. Não adiantou recuar, o fim dos dois encaminha-se para a mesma saída. Afinal, como no velho filme, “Ringo não perdoa”.

Semana passada, um respeitado intelectual, o economista Ladislau Dowbor fez uma continha simples para mostrar o peso do sistema bancário na economia brasileira. Com números redondos, ele fez a conta: pessoas e empresas tomam emprestado dos bancos atualmente três trilhões de reais; considerando um custo médio modestamente estimado em trinta por cento ao ano, todos nós, particulares, pessoas e empresas, pagamos novecentos bilhões de reais de juros por ano. O valor da dívida não é alto (proporcionalmente ao PIB, em padrões mundiais), mas o valor dos juros é imenso.

As contas públicas do governo federal relativas ao ano de 2015 mostraram que o Banco Central gastou quinhentos e um bilhões para rolar a dívida de mais ou menos 2,6 trilhões de reais. De novo: a dívida não é alta (proporcionalmente ao PIB, em padrões mundiais, considere-se em números redondos um PIB brasileiro de seis trilhões de reais), mas o custo é imenso.

Releiam e reflitam sobre as duas contas acima para perceber seu mais profundo significado. A carga é muito pesada, mais ou menos um quarto do PIB. O juro total a ser pago ao sistema bancário pelas pessoas, pelas empresas e pelo governo avança e aproxima-se de representar algo parecido com a carga tributária (no governo FHC a carga tributária começou em 24% do PIB, hoje mais ou menos 36%). Isso não é normal, está longe dos padrões mundiais.

Em termos de crescimento da economia brasileira, é como andar no carro com o freio de mão puxado e querer que ele corra. O financiamento da dívida pública e dos negócios privados não tem nem custo, nem prazo, nem condições gerais satisfatórias. É assunto delicado, complexo, mas que precisa ser tratado.

A crise é sempre oportunidade e parteira do novo. Todavia, convém esperar sentado.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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