SEJA FEITA A VOSSA VONTADE…

Estamos no ano de mil, novecentos e sessenta e três, da era cristã. O mês é fevereiro e o dia, dezessete. Domingo.

À chuva calma, tranquila, de sonoridade melodiosa, caída na madrugada fria, segue-se um começo de manhã de clima ameno, deleitante, convidativo à preguiça, em nada pecaminosa, que a todos empurra para o fundo das aconchegantes redes ou sobre os macios colchões das camas e sob lençóis a oferecer proteção contra o frio penetrante, relaxante, soporífero. A bem dizer, a naturalidade do momento dá ao adormecimento das pessoas as devidas salvaguardas.

Antes que aconteça – sei lá o quê! – qualquer coisa a indicar que a humanidade acordou para a vida que lá fora corre, ela, a dona Ane Dine, professora das primeiras letras e prenda do lar, católica praticante, filha de Maria e fiel seguidora do Sagrado Coração de Jesus, um coração imenso e magnânimo, mulher jovem – em maio próximo completará apenas trinta e oito anos de vida bem vivida –, afável, proficiente, benquista, mãe amorosa e dedicada, embora esteja prestes a dar à luz mais um filho, o décimo, todos nascidos em parto natural, alguns em leitos de maternidade, sob os cuidados de profissionais da saúde, outros na sua cama de dormir, no quarto de casal, sob o amparo de experientes parteiras, não dá ouvidos aos conselhos do marido, insistindo em assistir à missa na capela de Cristo Rei, a poucos metros de sua modesta moradia, cujo sino na singular torre abobadada ora anuncia, em badaladas firmes e bem sequenciadas, que, dentro de uma hora, o culto religioso se iniciará.

Nada a demove da ideia. Às sete, sentada em cadeira de braços, assento e espaldar alto almofadados, na cor de vinho tinto, destinada a servir distinção e comodidade a autoridades clericais em eventuais e festivas visitas àquela igrejinha, sempre posta em local privilegiado, bem próximo ao altar, a gestante – o corpo frágil, o olhar de enfado, o bucho pelas goelas, as pernas roliças, tornozelos e pés com visíveis inchaços – não consegue, apesar do esforço, levantar-se à entrada do celebrante que, com um gesto de cabeça, gentilmente assente naquela aparente irreverência. Toda mulher grávida, afinal, simboliza o desprendimento e a coragem de Maria; todo parto consiste na humana e esperançosa encenação do Natal. Desígnios divinos. Quem se lhes oporá?!

Cumprida a devoção cristã, vêm as obrigações domésticas. Uma delas, gerenciar o café da manhã, entre o sempre respeitável proceder do austero chefe da família e o quase incontrolável jeito irrequieto de ser das três crianças e dos dois pré-adolescentes. Tem de ter arte, manha e, principalmente, habilidade e amor. Outra delas, orientar a cozinha quanto ao que deve ser servido no almoço dominical, diferente, mais farto e com mais opções, obviamente, do que se ofereceu nos outros dias da semana.

Na sequência, já bem acomodada na poltrona de sua preferência, na sala de visitas, no canto oposto ao da porta de entrada, chama os filhos para perto de si e dá-lhes graciosamente os brindes por que tanto reclamavam. Aos três meninos, a bola, aprisionada pelo pai há alguns meses, após uma desobedienciazinha de nada, no inocente entender deles, e a liberação para jogo no pátio lateral da casa. Às duas meninas, a autorização para convidar as amiguinhas para as sempre divertidas brincadeiras de bonecas no quintal, sob a sombra de árvores frutíferas: ateiras, cajueiros, goiabeiras e até uma jovem mangueira espada; bem ao fundo, usado como mourão para a cerca de seis fileiras de arame farpado, no limite com terreno declivoso de verde várzea, um gigantesco pé de jenipapo, cujos frutos de polpa aromática e sabor ácido tornam-se deliciosos licores nas talentosas mãos da dona da casa. Alegria geral.

Ela, então, recolhe-se ao quarto do casal, deita-se longamente na rede de varandas e, sob o olhar zeloso e vigilante do marido, tira um bom e reconfortante cochilo.

Ao meio-dia, levanta-se. Um acanhado e incontido sorriso move-lhe os lábios descoloridos, tão logo ouve o barulho vindo do improvisado campo de futebol, onde os filhos e amiguinhos disputam aquilo que costumam chamar de pelada. Caminha lentamente até a cozinha e pela porta de acesso ao quintal avista as meninas envolvidas com as tarefas comuns de donas de casa e mães de família. A realidade transmutada em fantasia. E o sorriso maternal adquire força e abertura, leveza e encantamento. Os olhos brilham e o coração suporta, com suave alteração de batimentos, a forte emoção que lhe invade a alma. Como é dadivoso ser mãe! Deixa-se, então, inebriar-se pela felicidade pueril dos saudáveis desdobramentos do seu inesgotável amor. Fecha os olhos, respira longa e profundamente, e uma leve sensação de que se eleva ao reino da plena paz a faz sentir arrepios. Numa questão de segundos, retorna dessa curta, inesperada e estranha viagem.

O banho demorado. A lenta troca de roupa.

Enquanto isso, o marido cuida de encerrar as atividades lúdicas dos filhos, já os preparando – incluídas a necessária limpeza do corpo e a recomendável muda de roupa – para o almoço que logo será posto. Todos à mesa, compenetrados, à espera dela que, por costume, é quem os serve, numa sequência que vai do mais novo à mais velha, em pratos de ágata brancos. Acompanham, metodicamente, a oração de agradecimento a Deus pelos alimentos postos à mesa e que irão a todos satisfazer, ela no comando, como sói acontecer. Ao término do repasto, doces laranjas sem caroço, colhidas nos pomares do campo de experimentação do Posto Agropecuário, onde o cabeça do casal trabalha como técnico, descascadas à mesa pelos adultos, servem ao saboreio dos comensais.

A sesta pós-almoço faz o silêncio preencher os espaços da modesta casa. Às três horas, um gemido distenso e longo põe todos em alerta. As vozes vindas do quarto de casal causam apreensão.

– Minha velha, você acha…?

– É, meu velho. Eu acho que a brincadeira começou.

– Você não quer ir pra Maternidade?

– Não. Desta vez vai ser aqui, no meu quarto, na minha cama. – Ane Dine senta-se, com alguma dificuldade, na lateral da cama. – É uma questão minha. Não insista, por favor!

– Então…

– Vá buscar a parteira, homem de Deus! – Agora, já de pé, prossegue. – A minha experiência diz que o nosso filho está a caminho. Vamos agir na calma, sem pressa, naturalmente.

– Pois bem, nós não somos marinheiros de primeira viagem, embora…

– Embora sempre tenhamos algo a temer, não era isso que você ia dizer?

– Era, sim. – Ele vai falando, enquanto se arruma para o mister que, nessas horas, sempre lhe é reservado. – Deixo as crianças sob os cuidados da Isaurina e vou buscar a dona Alba. Ela já está de sobreaviso. Vou a pé, mas volto de jipe de praça. Não vá se apressar…

– Vá tranquilo. Pode ir tranquilo. Aqui eu administro os incômodos. Dessa arte, eu manjo muito bem. E você sabe disso.

– Sim, sei. – Beija a amada na testa. – Confie em mim. Volto já!

Passam uns vinte e poucos minutos das quatro, e um choro de recém-nascido, vindo do quarto, espalha-se pela casa, enchendo-a de alegria, de vida. Logo, dona Alba surge na porta com o mais novo integrante da família, informando com enlevo:

– É homem. É um meninão, grande e saudável.

Entrega a criança à Isaurina, sobrinha do dono da casa, acostumada a acompanhar “a madrinha” em situações do gênero. E ela, zelosa, trata de cuidar do chorão.

Às quatro e meia, mais ou menos, as coisas tomam um rumo inesperado, com jeito de tragédia. Hemorragia interna. A cruel sentença é dada. Os primeiros socorros não surtem o efeito desejado. Passados uns cinco minutos, que mais parecem uma eternidade, o marido, os filhos, a sobrinha, a convite dela, que lentamente ainda se esvai em sangue, postam-se em volta da cama e de mãos entrecruzadas, rezam com ela um Pai-Nosso arrastado, sofrido, dolorido. As crianças em soluços e com lágrimas que teimam em escorregar pelos rostinhos ingênuos. Após o “Seja feita a vossa vontade”, a já fragilizada puérpera emudece, cerra os olhos e perde os sentidos. Será o adeus? Ainda não.

Inicia-se, então, uma verdadeira luta contra a Morte. O médico plantonista do hospital público da cidade – é um domingo –, especializado em Pediatria, e a enfermeira mais bem conceituada, de reconhecida experiência, assumem o comando da sensível operação que visa reverter, com a devida urgência, a grave situação. O farmacêutico, proprietário da farmácia mais bem abastecida da região, prontifica-se a permanecer de prontidão. O prefeito põe à disposição a ambulância municipal, cujo motorista se oferece a ajudar no que estivesse ao seu alcance. Forma-se assim uma corrente de positividade em torno de um único objetivo: trazer a professorinha Ane Dine de volta à vida.

Logo a hemorragia é estancada. Até que enfim uma boa notícia. Um fio de esperança traz alívio a quem se envolveu, de uma forma ou de outra, com aquele crucial drama familiar. O problema a ser enfrentado agora é o estado de grave anemia que atingiu severamente a paciente. Soro e tratamento medicamentoso, com acompanhamento rigoroso dos sinais vitais, é o que deve ser feito… e é. Impõe-se, de imediato, a transfusão de sangue em quantidade que recompense a considerável perda pela hemorragia. Precisa-se de um doador compatível, classificado como raro o fator sanguíneo da enferma. O agrônomo, chefe da agência da Ancar, dado então com os requisitos exigidos, concorda em doar o que seja recomendável. A aplicação já se faz com alguma dificuldade, haja vista o contínuo e paulatino ressecamento dos vasos sanguíneos.

Já é noite. Amigos da família se postam em vigília, acomodados, como podem, nos compartimentos da casa. O marido de dona Ane Dine não mede esforços no sentido de oferecer as condições necessárias ao efetivo desempenho dos profissionais da saúde. Vê o seu quarto de dormir transformar-se em unidade hospitalar. Curiosos se mantêm em alerta, espalhados pelo pátio lateral, ali onde, algumas horas antes, os meninos improvisaram um campo de futebol.

O tempo avança normalmente no curso da noite. Às oito e alguns minutos, o clínico geral, dono de hospital particular, amigo do marido, mal chegado da fazenda em que passou o domingo de folga, substitui o pediatra, e a luta pela vida ganha um novo fôlego.

Uma nova transfusão torna-se impositiva. Agora o doador é um padre salesiano, por indicação do capelão da igrejinha. A dificuldade de aplicação se agudiza. A busca por vaso que ofereça curso normal ao novo sangue exige medianas incisões com bisturi na região dos cotovelos, o direito e o esquerdo, nos punhos, o direito e o esquerdo, na parte frontal e recurvada dos tornozelos, o direito e o esquerdo, com essas pequenas intervenções cirúrgicas somente se concluindo com o exitoso corte na lateral do pescoço. Alívio e esperança.

São umas onze da noite, quando a paciente demonstra alguma reação, como a abertura dos olhos. Apesar da morbidez, esse fato empolga o médico, a enfermeira, os familiares, os amigos. Ouve-se um Viva! Abafado. Surdo. Alguém sussurra: Graças a Deus! Será a Vida vencendo a Morte?! Que seja, sim!

Por volta da meia-noite, após conversa reservada com o amigo de muitas vivências, ele ainda anestesiado pelas exigências do drama pessoal que o obriga a manter-se firme, a reagir, sem hesitações e desesperanças, à célere prosternação de sua amada, parceira altiva, destemida, corajosa, na gratificante construção de uma família modesta e saudável, o clínico geral despede-se das poucas pessoas que ainda resistem ao cansaço, à melancolia do momento, com um respeitoso Boa noite!, e, acompanhado da dedicada e eficiente auxiliar, segue em direção ao seu hospital, para os lados do centro da cidade.

Verifica-se, então, um ligeiro processo de acomodação – das pessoas e das coisas. As filhas e filhos se recolhem no quarto contíguo ao do casal, agasalhando-se em camas e redes dispostas de forma a oferecer um certo conforto. Logo adormecem. O enfado concorre para isso. O recém-nascido permanece sob os cuidados da prestimosa Isaurina. O marido posiciona uma das poltronas ao lado da cama em que convalesce a sua amada. De sentinela, em consonância com as orientações do médico amigo. O olhar atento no soro, em recorrentes consultas ao relógio de pulso, pronto para o procedimento indicado e na hora certa. Impossível fugir à inevitável catarse, à purgação, aos questionamentos. Em plena solidão, chora um choro abafado, esforçando-se ao máximo para não se perder em meio àquele emaranhado de sentimentos. Vela quem, por amor, escolheu para ser sua dileta companheira em qualquer situação. Vela quem, por amor, o acolheu como dileto companheiro em qualquer situação, especialmente naquela. Os curativos espalhados pelos membros superiores e inferiores recuperam da memória a imagem do Senhor morto. A respiração, fraca e pausada, consiste no único sinal de que a vida ainda permanece nela. E a esperança resiste aos insistentes presságios adversos. E a madrugada flui, insensível e inflexível, pela ampulheta do tempo.

Segunda-feira, 18. Logo cedinho, cabe-lhe comparecer ao consultório do médico amigo, por recomendação dele, a fim de lhe apresentar um relato do que ocorreu nas últimas horas, e receber novas orientações. É perceptível a estabilidade do quadro. Ainda não se percebe a tão desejada reação. As filhas e filhos ainda dormem. Confia à Isaurina os cuidados com a mulher enferma. Embarca no jipe de um amigo e segue em direção ao hospital. Uma neblina renitente mantém as ruas vazias de gente.

Às sete, pontualmente, o acidente. O motorista de uma caminhonete perde o controle do veículo que abalroa a lateral do jipe, no lado do carona, na altura do banco traseiro. E toda colisão provoca transtornos, dissabores. E aquela não será diferente. E a neblina trata de piorar a situação.

De repente, a respiração da enferma sofre profunda alteração, parecendo que ela esteja sofrendo por afogamento. Isaurina solta um grito de desespero. As filhas e filhos invadem o quarto, atordoados. E vem o último suspiro. E a morte acaba de vencer a vida. Sob os olhares de desespero de seus desafortunados rebentos, dona Ane Dine dá início à sua travessia derradeira.

Um vento forte e sibilante agita janelas e portas; a do quarto bate ruidosamente. Às sete horas, pontualmente.

 

Nota do autor:

A personagem Ane Dine, criada exclusivamente para esta dramática narrativa, representou, com perfeição, a professorinha das primeiras letras, dona Enedina, a minha mãe.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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