Sebastião menino

P. No que você ainda acredita, Sebastião?

S. Como assim?

P. Sebastião menino que foi brigar num flanco do Marrocos contra mouros e nunca voltou.

(Risos)
S. Revolução; nunca deixei de acreditar e lutar por ela. Só fiz autocríticas de como estava conduzindo isso.

P. E o que essa palavra significa na sua boca, que mal pergunte. Pedras e paus de um Davi expropriado contra um aparato de guerra montado por uma besta figurada em Jó, o Leviatã…

S. Revolução? Um compromisso de vida. Ela não é um objetivo em si (durante muito tempo eu a compreendi como fosse); mas uma dialética. Fazemos revolução todo dia, com gestos que provocam contradições. Davi, Jó, Leviatã… figura de linguagem quase bíblica.

P. O Behemoth terrestre da guerra civil retroalimentando a besta marinha do Estado, Leviatã.

S. A ruptura sempre é violenta. Mas o processo… O processo é que é importante. A construção do processo.

P. Diz-se pela boca dum tal de João que depois da peste fome guerra morte o último cavalo é branco e vindo do céu com um cavaleiro de manto sangrado, esse sim o redentor.

(Silêncio)
P. O processo é violento. No Processo a gente nem sabe do que é acusado. Nem sabe por que deve, mas deve; e paga. Paga esperando…

S. Processo que digo é o decorrer…

P. Benjamin, nas Teses sobre o conceito de história, diz que a revolução, a dita cuja que você mencionou, não se experimenta como processo, mas como interrupção; quase messiânico, quase paulino, quase um guru do aqui e agora.

S. O ponto de ruptura. Mas não é só isso. A ruptura é o ápice, somente.

P. Ruptura com o que, amigo.

S. Ruptura com a ordem natural das coisas, que alguns chamam de stablishment.

P. Retórica! Pura retórica!

S. Mas que nos incutem na cabeça como se fosse…

S. E o que é revolução, então?

P. Você acha que ainda pode encontrar a precária síntese nessa Babel?

P. Eu não sei, eu sinceramente não sei.

S. Eu mesmo posso não encontrar, mas é possível sair coisa dessa Babel.

P. Diz-se que o Reino de Deus é uma singela dobra. Uma leve e sutil mudança. Jesus ou Barrabás? Quem liberta do Império o povo oprimido?

S. Mas a realidade não é tão dicotômica. Não é um ente que liberta. São os próprios indivíduos.

P. Barrabás…

S. Que fazem a própria libertação.

P. Como a figura da luta armada. Do ódio de classe. Da disputa pela força. Não o indivíduo.

S. Mas Barrabás se apiedou de Jesus na condenação. Ajudou Cristo na via crucis.

P. O que você espera para os próximos anos?

S. O cenário mais caótico possível. Estamos na barbárie.

P. Justo.

S. O que temos que fazer primeiramente é se ajudar e se juntar para ninguém se afundar.

P. Se afundar já estou vendo vários.

S. Porque passar por esse processo sem se afundar, vai ser uma tarefa e tanto.

P. E muitos egos retóricos que desconhecem a fraternidade real.

S. Verdade.

S. Vaidade.

P. Autoengano.

P. Marketing. O mundo como vontade e design!

S. Eu tiro por mim; fiz autocrítica depois de penar muito.

P. Não entendo nada de autocrítica.

S. Autocrítica é reconhecer sinceramente que fez #!?$!.

P. Relaxe um pouco.

P. Eu acho tudo muito simples.

P. E ao mesmo tempo intocável.

P. Padecemos de escassez? Tempo de trabalho ainda mede alguma coisa real?

S. Eu me cobro muito, talvez por isso é que a depressão quando bate é tão violenta.

P. Representação política ainda traduz algo da realidade efetiva?

P. Se cobre não, você não é o Messias.

S. Com a automação o tempo de trabalho não mede nada real, só projeções do fictício.

P. É sabido.

P. Precisamos partir daí, não é mesmo?

S. Sim. Sem dúvidas. A crítica do valor.

P. Sem isso, nenhum passo será dado.

P. A Comuna de Paris instituiu salário proletário a todos; Lênin retoma isso n’O Estado e a Revolução. Aquele “bizu” da primeira etapa do comunismo, a cada um conforme seu trabalho, já passou; estamos na exigência da segunda etapa sem, no entanto, revolução nenhuma em vista.

S. Sim.

P. A cada um conforme sua necessidade.

P. Existiu, tem ‘direito’ – não formal, mas concreto – a comer, beber, morar. Todo o resto se desdobra daí. Mas como fazer isso?

S. Vemos muita gente “gorda”, não porque se alimenta bem, mas porque se alimenta de produtos processados que na verdade não é nem comida. É um tipo de escassez com uma falsa sensação de satisfação.

P. Mercadoria de novo.

P. Valor de troca, blá blá blá, determina o valor de uso, desqualificando-o.

P. Mas continue com o ‘programa’ de transição da barbárie. – Eu acho o Engels um bocó!

(Risos)

P. Quando tenta criticar os anarquistas pelo problema da técnica; não é nem esse o ponto das criaturas.

S. Você se identifica com o que?

P. Não sei.

P. Gosto dos profetas da Bíblia, gosto de alguns poetas, de alguns curtos verões de luta social.

S. Anarco-milenarista.

(Gargalhadas)

P. Por isso vim conversar com você, Sebastião menino.

P. Antônio Conselheiro adorava ele.

S. Eu gosto dessa turma. Acho que o caminho para criar o novo passa por olhar pra essas experiências.

P. Também acho.

P. Fala-se muito dos russos como paradigma, eu não sei não.

P. Entre Canudos e Petrogrado, eu ficava por aqui mesmo. Mas hoje está pior, quem aglutina gente?

S. São experiências que edificam e se complementam. Mas Canudos e Caldeirão devem ser vistos sobretudo por nós no Brasil e nordeste.

P. Pastor herege blasfemando contra Nossa Senhora e idolatrando dinheiro.

S. O povo tá desesperado, por isso ele se rebela contra ele mesmo… A barbárie… Autofagia.

P. Ceará contra Fortaleza.

S. Isso é o espetáculo. Não é real.

S. O real é a massa de gente que acorda cedo todo dia pra ir trabalhar, ou fazer qualquer coisa e se movimenta de alguma forma. Mas é o movimento no conceito da física. Está sem a “consciência em si”; ou, usando a expressão do Nietzsche, “a vontade de potência”.

S. Eu acho Nietzsche uma m*rda.

P. Lukacsiano!

P. O que ordena, dá racionalidade a esse real, o que sem o qual ele não tinha logos?

P. Tem o ensaio sobre a cegueira, num tem?

S. Tenho.

P. O povo fica tudo cego de uma luz branca.

P. Se retirassem a mediação do valor, do dinheiro; se, estourando não mais os EUA, mas a fábrica do mundo China, e esse pedaço de papel se tornasse o que é, fantasma, onde estaria esse real?

P. Essa gente toda que se movimenta.

P. Raul Seixas seria, assim, o último dos profetas. Estou delirando? Sendo adialético?

S. Calmaí, Pedro.

(Risos)

S. Primeira vez que vejo “adialético”.

(Gargalhadas)

S. A gente vai acabar tendo que subir a serra do Mulungu e viver isolado lá até passar o Apocalipse!

(Catarse: kkkkkkkkkk!)

P. Você não foi escolhido para habitar a Cidade Santa, seu ateu materialista!

P. Você não pode entrar na cidade dos filósofos, seu poeta!

S. Mas tenho ascendência judaica, mesmo que eu não acredite em Deus, sou do povo escolhido.

P. Dando carteirada, né, gaiatim?

S. Depois a gente continua.

P. Até, Sebastião menino!

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Terapeuta Holístico em formação pelo espaço Ekobé.

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