A recente abertura da exposição “Uma Rua Chamada Cinema”, do fotógrafo Sérgio Poroger, em cartaz no Museu da Imagem e do Som do Ceará até o dia 19 de julho, me pareceu, desde logo, um programa imperdível. Não apenas pelo valor das imagens reunidas, mas porque a mostra toca num ponto cada vez mais sensível da experiência urbana: a relação entre o cinema e a cidade. E foi justamente ao recomendá-la a um amigo que ouvi dele uma pergunta aparentemente simples: “Afinal, quantos cinemas de rua ainda existem em Fortaleza?”
A pergunta, embora direta, exigia algum cuidado. Porque, quando se fala em cinema, muitas vezes se supõe que toda sala é igual à outra, como se bastasse haver uma tela, cadeiras e projeção para que tudo coubesse na mesma definição. Mas não é assim. Há diferentes formas de o cinema existir na cidade, e essas diferenças não são meramente arquitetônicas ou funcionais. Elas dizem respeito ao modo como cada sala se inscreve no espaço urbano, ao tipo de relação que estabelece com o entorno e, em última instância, à própria experiência de ir ao cinema.
Respondi então, a esse meu amigo, que, se a questão fosse estritamente voltada ao conceito de cinema de rua, a resposta era objetiva: hoje, em Fortaleza, o único em plena atividade é o Cineteatro São Luiz, na Rua Major Facundo, 500, no Centro.
Digo isso não por afeto apenas, embora o afeto também conte, mas por definição. Cinema de rua, historicamente, é a sala de cinema instalada diretamente na rua, com porta para a calçada, prédio próprio, fachada voltada para o espaço público, dessas em que se entra sem atravessar estacionamento, galeria comercial, corredores cobertos ou pátio climatizado.
Ao comentar sobre o tema com o fotógrafo Sérgio Poroger, recebi dele uma definição que me pareceu especialmente feliz e que reforça, com precisão e beleza, o ponto de vista que procuro sustentar. Disse ele: “Literalmente, cinema de rua é uma sala de cinema tradicional localizada diretamente na rua, diferente dos cinemas dentro de shopping centers. Mas, na realidade, o cinema de rua vai além: nunca foi só sobre filmes. É sobre a cidade, sobre as pessoas, sobre o tempo que passa e o que fica.”
A formulação é tão exata quanto sensível. Porque, de fato, o cinema de rua não se resume à exibição de um filme. Ele é também a fachada, o letreiro, o cartaz, a calçada, o entorno, o encontro entre a vida cotidiana e a promessa de uma sessão. Ele não apenas abriga o cinema; ele prolonga o cinema para fora da sala. Em certo sentido, o filme já começa antes da bilheteria. E, em outro, continua um pouco depois da saída, quando se volta à rua com algo ainda vibrando por dentro.
Isso não quer dizer, evidentemente, que os demais tipos de cinema sejam menores, menos legítimos ou menos importantes. Há salas instaladas em centros culturais, integradas a equipamentos maiores e a programações mais amplas; há salas situadas em shopping centers, organizadas segundo a lógica multiplex hoje predominante; há cinemas universitários, vinculados à formação, à reflexão e à difusão; há ainda experiências ligadas a instituições públicas, cineclubes, mostras temporárias e outros modos de circulação das imagens. Todos são cinema, independentemente se comerciais ou culturais, e todos têm seu valor. O que me parece importante é apenas chamar cada coisa pelo nome que lhe corresponde.
Porque, quando tudo se torna indistinto, perde-se a capacidade de perceber o que cada forma de cinema traz consigo, inclusive do ponto de vista histórico. O cinema de shopping, por exemplo, responde a uma lógica de conveniência, integração de serviços e circulação orientada pelo consumo. O cinema inserido em centro cultural participa de um ecossistema de artes e atividades que lhe dá outro tipo de visibilidade e vocação. O cinema universitário, por sua vez, se ancora fortemente em processos de formação e pensamento. Já o cinema de rua carrega, além da sala, uma relação frontal com a cidade. Ele está, literalmente, exposto a ela e é justamente isso que o torna ainda mais singular.
O cinema de rua é aquele que recebe o impacto da paisagem urbana e com ela interage cotidianamente. Não está apartado do movimento dos passantes, do comércio, do barulho, da pressa, dos pedintes, dos vendedores ambulantes, dos artistas de rua, dos ônibus, das buzinas, dos camelôs, dos anúncios, das vitrines, das esquinas congestionadas, dos cheiros que sobem das lanchonetes, bueiros e calçadas, do calor reverberando no asfalto, da luz crua do dia ou da noite povoada por vozes e ruídos. Sua existência, com seu letreiro a anunciar o próximo filme, é pública mesmo antes de a sessão começar; a experiência do cinema de rua não se dá em suspensão do mundo, mas em contato direto com ele.
Por isso, quando digo Rua Major Facundo, 500, não estou apenas indicando um endereço facilmente verificável no Google. Estou nomeando uma ideia de cinema. Uma ideia em que a sala não se fecha inteiramente sobre si, porque mantém com a cidade uma conversa íntima. Uma ideia em que o ato de ver um filme inclui também atravessar o Centro e suas vicissitudes, sentir a rua, o calor, perceber a fachada, ler o letreiro, reconhecer o edifício como presença histórica e viva. Uma ideia em que o cinema não está simplesmente situado na cidade, mas participa dela de maneira aberta e cotidiana.
Por isso é tão importante uma exposição como “Uma Rua Chamada Cinema”. Porque ela nos lembra que o cinema não é apenas linguagem e tela: é também arquitetura, memória, trabalho, ritual e espaço urbano. E nos lembra, sobretudo, que certas palavras ainda precisam ser ditas com exatidão, porque nem todo cinema é cinema de rua, mas todo cinema de rua, quando existe de verdade, nos devolve algo que os outros formatos nem sempre conseguem oferecer da mesma maneira: a sensação de que, antes mesmo de entrarmos na sala escura, a cidade já começou a projetar o seu próprio filme.
E, em Fortaleza, se a pergunta insistir em saber onde essa experiência ainda existe com plenitude, a resposta continua cabendo inteira num único endereço: Rua Major Facundo, 500.