RETALHOS DO PASSADO – Nem faroeste, nem policial

A sequência sinuosa de quase meia centena de prédios contíguos, construções de idades, formas e cores variadas, de uso residencial – a maioria – e comercial, estendia-se – com apenas uma discreta abertura, ao lado da moradia e comércio do Zé Carneiro e seus saborosos tijolinhos de coco (apesar dos piolhos e lêndeas por ele catados na vasta cabeleira da menina-moça Teresa, sua filha, e logo abatidos entre as unhas dos dois polegares, a olhos vistos, ali mesmo na calçada, à sombra do final da tarde), abertura pela qual passavam os pedestres que precisavam subir o Alto do Bode – desde a imaginária linha limítrofe que separava o Putiú da então Feira do Gado, atual Duque de Caxias, até os trilhos da ferrovia, já nas proximidades da ponte sobre o rio de mesmo nome, e ladeava, à esquerda de quem adentrava o bairro, a via de acesso à cidade, com leito em calçamento de pedra tosca.

Entre a casa de fachada alta e três portas, duas delas com balaustradas em mármore, à frente frondosa castanhola – árvore também conhecida como amendoeira de sete copas ou chapéu de sol – com rústicos bancos de madeira ao redor do tronco, residência do auxiliar de mestre de linha, e a de platibanda vistosa, porta de duas folhas, superior e inferior, e apenas uma janela de duas bandas laterais, em que morava o agente de endemias rurais, destoava um velho imóvel, carente de reformas, duas portas simples, sem janelas, coberto de telhas escurecidas pela ação do tempo, de cumeeira alta, declive frontal e águas pluviais caindo na calçada, com dupla destinação. O primeiro ambiente com função comercial: balcão de madeira em “L”, a parte mais comprida servindo à bodega, no centro uma balança de dois pratos e pesos de ferro de vários tamanhos e no canto da parede uma pilha de papel de embrulho; a mais curta servindo ao boteco, copos de vidro de borco sobre porta-copos, alguidar com água, abridor de tampa de garrafa pendurado em prego na parte interna do tampo do balcão, encimando o espaço reservado a garrafas, já abertas e para venda em doses, de aguardentes (Triunfo e Estrela, principalmente), conhaque São João da Barra e “zinebra” (corruptela de “genebra”); além de prateleiras – tábuas dispostas sobre suportes fixados na parede de reboco e pintura a cal –, uma pequena mesa com gaveta e cadeira, e uma velha geladeira GE. Os demais ambientes eram cômodos para residência, todos vazios, por falta de inquilino.

Era a birosca do Américo do Henrique.

Ali nos encontrávamos – eu, Toinho, Sabará, Bibi, Corró, Zé Olavo do Paulão, Verçosa, Menezes e mais alguns jovens cujos nomes ora me fogem à lembrança –, numa noite fria de segunda-feira, o mês quase findando, o dinheiro tão curto quanto rabo de preá. O clima agradável, depois de uma tarde chuvosa, estimulou-nos a fazer a “resenha” na calçada, sentados em tamboretes cedidos pelo comerciante, tão jovem quanto nós, que, tão logo percebeu que naquela noite nada venderia, conosco enturmou-se. A conversa se espichou por longas horas.

Já eram quase onze. De repente, o Américo nos indagou com algum interesse:

Algum de vocês conhece alguém que queira comprar um revólver?

O Bibi, o mais espirituoso da turma, retrucou com ar de troça:

Agora virou vendedor de berro? Cuidado com a polícia…

Não, cara. É que eu recebi um trinta e dois por conta de uma dívida antiga. Preciso vender pra fazer dinheiro, entendeu? – Explicou-se o bodegueiro.

E onde está a preciosidade? – Interessou-se o Zé Olavo do Paulão.

Vou buscar. – Ao dizer isso, o Américo dirigiu-se ao interior do comércio, logo voltando com a arma em punho, em posição de tiro, para o assombro de alguns. – Calma, pessoal! ‘Stá sem munição.

O objeto passou de mão em mão, todos avaliando detidamente as suas qualidades – as da arma e as próprias, como eventuais atiradores. E o “brinquedo” retornou ao Zé Olavo do Paulão que, de imediato, enfiou-o no cós da calça, encobriu-o com a barra da camisa, gracejando:

Crianças, eu vou dar um susto naquela turma. – E apontou para o lado da pracinha.

Com efeito, na outra margem da via transitável, estendia-se a pracinha de três planos, com iluminação que mal dava para o gasto. No plano de maior movimento, ao lado do bar do Meu Santo, o generoso e paciente Miguel Pedrosa, e às margens da via de acesso ao Coió e adjacências, também de calçamento de pedra tosca, cerca de vinte pessoas, acomodadas em cadeiras, bancos e até no piso cimentado, assistiam, em completo silêncio e pela tela em preto e branco do único televisor público do bairro, a um filme transmitido pela TV Ceará, canal 2, afiliada à Rede Tupi de Televisão, dos Diários Associados.

E o Zé se encaminhou para lá. Atravessou a rua, passou pelo menor e mais aclivoso dos planos, seguiu naturalmente até o pedestal do televisor, aguardou pelo intervalo comercial e, ao perceber que todos se desligaram momentaneamente das imagens televisivas, postou-se diante daquela gente como se cowboy americano fosse, indagando em voz alta:

Vocês estão assistindo o quê?

Muitos responderam:

Um filme.

Alguém até complementou:

A fúria dos sete homens.

E o Zé quis saber:

É policial?

Alguns esclareceram:

É faroeste.

Então, o Zé Olavo sacou o revólver sem balas do cós da calça, apontou na direção de todos e ameaçou:

Faroeste vocês vão ter é agora.

Houve uma debandada geral. Um corre-corre. Era gente procurando abrigo atrás das árvores, dos bancos, dos postes, do obelisco. Até o Luizinho…

O Luizinho?! – Admirou-se o Verçosa.

… sim; o destemido Luizinho, acostumado a abater, sangrar, esfolar, estripar boi no Matadouro Público, até ele escapuliu-se. Talvez por saber-se bom de faca e o negócio ali era à base de bala. E, como diziam os mais velhos, naqueles tempos em que eu era mais novo, “Quem tem ânus, tem medo”. Logo, logo, o “cowboy desajeitado” tentou serenar, apaziguar os espíritos amedrontados:

É brincadeira, pessoal! O revólver nem bala tem…

E nós rimos, às gargalhadas, com mais uma presepada do Zé. Os telespectadores retornaram à realidade da situação, ou seja, às verossimilhanças do filme. E a tranquilidade voltou a reinar no coração do bairro.

Só que alguém acionou a polícia.

De repente, o jeep verde-oliva parou bem perto de nós. Um cabo e um soldado dele desceram, nos abordaram e ouviram a nossa versão do insólito fato. O cabo, depois de recolher a arma, fez-se incisivo na sua decisão:

Soldado, põe o Zé Olavo no carro!

Vocês vão prendê-lo? – A voz era do Américo. – A arma é minha e estava sem balas. Foi só um susto, uma brincadeira…

Por sinal, de muito mau gosto. – Concluiu o cabo. – Mas nós não vamos prendê-lo. Não há razão para tanto. Estamos indo para outra ocorrência na Feira do Gado e vamos deixá-lo na casa do pai dele. Quanto à arma, que o senhor diz ser sua, aconselho a ir à delegacia amanhã, fazer o registro, indicar a origem, assumir a posse e, com certeza, o delegado vai liberá-la.

Já no assento do carona, o Zé num dos bancos de trás sob os cuidados do soldado, o cabo advertiu-nos:

Meninos, já é hora de dormir. Vão pra casa.

E nós, como bons meninos, obedecemos à ordem dada.

O cabo chamava-se Bill, o hábil e veloz ponta direita do time do Putiú, de quem o Zé Olavo do Paulão era um dos reservas. O “padim” Ribamar, o outro. Este escriba enganava pela lateral esquerda e o Verçosa brilhava pela direita. O Menezes, na zaga, amedrontava atacantes com chuteiras 44. O Corró se vangloriava dos gols que marcava e se esquecia dos que perdia, como todo centroavante. O Bibi vestia a 10, sempre reservada aos mais habilidosos. Todos sob o comando do bom Ornilo, o treinador.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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