Retalhos de vida: em tempos e espaços distintos Tempo e espaço 2 – Bem melhor

Ela era católica, apostólica e caucaiense.

Devota fervorosa de Nossa Senhora dos Prazeres, integrava a Pastoral da Liturgia, com funções na igreja Matriz de sua cidade natal. Viúva, residia sozinha numa modesta casa, encravada à margem da rua asfaltada que dá acesso a um dos mais populosos bairros da antiga Soure. À tardinha, com a calçada em sombra, costumava sentar-se numa cadeira de balanço, presente do filho mais velho que, ainda novo, decidiu ganhar a vida em São Paulo. E, assim, de balanço em balanço, ia trocando pequenos diálogos com transeuntes já bastante conhecidos.

Ah! Há pouco tempo, decidiu ser rezadeira – ou benzedeira, como queiram. Assim, empunhando um galho de pião roxo ou pés de vassourinha, distribui cruzes, repetidas vezes, pela região afetada do paciente e, com voz muito baixa e palavrório incompreensível até para ouvidos mais sensíveis, opera, em três dias seguidos, a cura de males do corpo. E de graça, porque apenas espera que cada ação de solidariedade que executa seja lançada no lado HAVER da página aberta sob sua titularidade no livro CONTAS CORRENTES celestial.

Na quarta, por volta das onze da manhã, ao retornar do centro da cidade onde fora resolver um problema de consumo d’água na Loja de Atendimento da Cagece, acompanha, com olhar interesseiro, uma jovem mãe caminhando apressada, com uma criancinha adormecida recostada contra o peito esquerdo, sob uma sombrinha já meio envelhecida que segura com a mão direita. Matutou: está indo ao hospital…

No mesmo dia, não menos de quatro da tarde, vislumbra ao longe a figura da jovem mãe com filho deitado no braço, sob a proteção da velha sombrinha. Com ela bem à sua frente, indaga-a:

Minha filha, essa criança está doente?

Tá sim, senhora.

De quê?

Diarreia, febre… O doutor disse que era uma virose.

Virose?! Que nada! Isso é encosto, é mau olhado. Traga ela aqui, eu tenho a cura pra esse tipo de mal…

Enquanto a jovem mãe se sentava num tamborete ao lado da cadeira de balanço, a rezadeira – ou benzedeira, como queiram – foi rapidamente ao quintal e de lá voltou com um pequeno galho de pião roxo. E rezou… e benzeu… e benzeu… e rezou… Com fé inabalável, iria, sim, salvar aquele pequenino vivente.

Concluída a primeira sessão do tratamento, recomendou à sua agora nova cliente:

Volte com ela amanhã, como sem falta.

Sim, senhora.

(…)

Esperou quinta. E nada. Esperou sexta. Também nada. Nada da visita combinada com a jovem mãe.

Passados alguns dias, eis que surge à sua frente aquela figura enigmática, agora sem filho e sem sombrinha.

Mulher, o que houve? Por que você não veio mais?

Eu não pude. – Respondeu com voz chorosa a sua ex-cliente.

Cadê o seu bebê?

O meu bebê, senhora, na noite daquele dia da reza… o meu bebê morreu…

Morreu?! – A pergunta saiu revestida de incredulidade.

Ato contínuo, completou:

Mas eu tenho certeza de que ele morreu bem melhor.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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