REMINISCÊNCIAS – Viver para lembrar

Quando éramos crianças, aí pela metade do século passado, e embirrávamos em não dormir, debalde a insistência de quem nos pôs no mundo – rede pra cá, rede pra lá, sob voz maviosa e suaves acordes de cantos de ninar (“O cravo brigou com a rosa”) e cânticos religiosos (“Mãezinha do céu, eu não sei rezar”), além de contos de fadas, castelos, reis e rainhas, príncipes e princesas (“Era uma vez…”) –, a ameaça se fazia recorrente: “Se não dormir, vou chamar a polícia!”.

Quando éramos crianças, ao pé da serra de clima ameno, de árvores frondosas (o ipê amarelo em destaque, florido em meio ao verde tão denso que parecia azular-se, certamente copiando o céu, um bom prenúncio de inverno, ao sentir dos entendidos de chuva), de fontes de água cristalina, de corredeiras e cachoeiras, de poços profundos nas reentrâncias dos rios, de cafeeiros, jaqueiras, canaviais, bananeirais e bambuzais, de fauna multicolorida e melodiosa, de frutos múltiplos e saborosíssimos, e empeiticávamos em não comer, em perigosa afronta à vontade de quem nos pôs no mundo – “Olha o aviãozinho!” –, outra ameaça nos alcançava amedrontadora: “Se não comer, vou chamar o bicho-papão!”.

Assim se teceram os nossos temores pueris que o tempo se encarregou de desfiá-los, de esfiapá-los, de destecê-los. Conquanto alguns outros tenham surgido em circunstâncias bem distintas. Afinal, o ser humano nunca se desfaz de seus temores… eles apenas mudam a tipologia.

O meu primeiro contato com um policial – o soldado de pele clara, da farda verde-oliva, do boné de tecido de igual cor e na forma de barco virado, das botas pretas e luzidias, do cassetete ameaçador – não chegou a ser traumático, embora tenha sido dramático. Só não me desvencilhei dos cuidados de minha mãe e fugi desembestado à procura de abrigo mais seguro (se é que existia), porque ela usou de agilidade e energia, segurando-me pelo braço e encorajando-me: “Seja homem! Ele não vai fazer nada com você. Acalme-se.” E eu me acalmei… só que o coração não… parecia querer saltar pela boca. Só não me aliviei ali mesmo porque o reservatório membranoso abdominal estava, momentaneamente, desprovido do líquido excrementício.

Outros temores me assaltaram, já aluno do Grupo Escolar Monsenhor Manoel Cândido, no entorno da igreja matriz de Nossa Senhora da Palma, cujo trajeto diariamente feito a pé desde a casa dos meus pais, no Coió ou no Putiú, atravessava toda a cidade; ali cursei todo o então primário, tendo lá chegado muito bem alfabetizado por quem me deu à luz e ao mundo e, confiante em mim, entregou-me à tia Valdeci, professora do segundo ano.

Inquietaram-me as pedras lançadas em seus desafetos – que delas se desvencilhavam às gargalhadas – pelo Raimundo dos Cachimbos, um exímio jogador de pião que de cócoras permanecia por longos períodos a soltar baforadas de cachimbo pendulando no canto da boca; era acometido de grave insanidade mental.

Assustaram-me os palavrões e impropérios saídos das entranhas do Cego Mariano, amaldiçoando os desalmados que jogavam pedras na sua esmoleira – lata de doce sem tampa – para, com o tilintar parecido com o de moedas, engambelar o desalentado pedinte; o boca-suja fazia ponto, sentado no meio-fio das calçadas, ali nas proximidades do antigo Mercado Público, prédio que logo deu lugar à moderna edificação da agência do Banco do Brasil.

Receou-me, por algum tempo, o caminhar desengonçado do jovem Tarciso pelas ruas centrais da cidade, quase sempre em direção ao famoso Café Central, do seu Fransquim, ponto de grande movimentação de pessoas de várias classes sociais; além do nanismo, faltavam-lhe os dois braços, o que incrivelmente não o tornavam inválido, apenas dependente da benevolência dos outros. Vestia-se bem, andava sozinho e conversava como gente grande.

Amedrontaram-me as presepadas do Pirrita e do Caretinha, dois jovens que reagiam à marginalização pela sociedade com a embriaguez e a desordem, sempre amparados no hábil manuseio de armas brancas, perfurocortantes: a peixeira e o canivete.

Desencorajei-me, incontáveis vezes, de passar sozinho à frente da casa de um velho senhor de pele azevichada, chapéu de palha e naco de fumo a enegrecer dentes e gengivas, sentado em tamborete de assento de pele de cabra curtida a produzir por encomenda ou consertar redes de pesca – tarrafas e galões – içadas em caibro do telhado frontal da humilde casa de taipa e calçada alta com três batentes de acesso, erguida à margem da estradinha de terra do Coió, logo na primeira elevação do Alto da Capela; o temor se dava por conta de deficiência física que ele adquirira no trabalho – fora foguista de uma das famosas máquinas a vapor, as popular e historicamente conhecidas como Marias Fumaças, que queimaram muita madeira, sorveram muita água, espalharam muita fumaça e fuligem, mas concorreram para o desbravamento e desenvolvimento dos sertões –, em acidente que causara a amputação de uma das pernas, logo acima do joelho, tornara-o aposentado da Rede Viação Cearense, por invalidez, fazia-o dobrar para trás uma das pernas da calça e impunha-lhe o uso de muleta.

O tempo passou no diapasão de sempre. Tudo mudou. Eu adolesci. Passei a ver o mundo com outros olhos.

O soldado virou cabo. Cabo Leite, o pai de Nílson, filho único, alto e forte, tranquilo no caminhar e no falar, integrante da mesma turma de putiuenses (eu, Américo, Edmar, Assis Cavalcante e Assis Lopes; todos Francisco, exceto o Américo) no colégio dos salesianos, onde concluímos os quatro anos de ginásio. Exemplo de profissional no desempenho da função, não consta que tenha prendido alguém, porquanto já praticava, àquela época, a prisão domiciliar – conduzia o arruaceiro até o domicílio dele e responsabilizava a família pela sua guarda até que readquirisse o comportamento exigido para o saudável convívio social. Nem sempre conseguia recuperar o malfeitor, mas recebia o merecido respeito das pessoas de boa vontade.

O Tarciso virou cantor, ou melhor, boêmio. Encantava os amantes das noites e dos rituais em louvor aos deuses do vinho e das festas com a sua voz de barítono e repertório eclético, de encantamento e de perdição. Era uma artista na exata acepção da palavra. Viveu o quanto pôde, da forma que sempre quis. Tinha um sorriso extremamente cativante. Deixava sempre resplandecer um espírito que não se amoldava à matéria disforme; nela jamais se aprisionou. Extravasava, então, em alegria, em voz, em vida.

Com o Caretinha, cujo pai trabalhou como servente de pedreiro em construções de responsabilidade do meu pai, houve até uma certa aproximação. Chegamos a jogar juntos em peladas em campos de chão batido – o Beira Riacho, às margens da estrada do Coió, e o Gilete, em área contígua à da Escola de Artes Donaninha Arruda, na então Feira do Gado. Nunca percebi que tivesse má índole. Era apenas um injustiçado, sem conformismo.

Quanto ao velho foguista aposentado, de perna amputada por acidente de trabalho, tenho histórias a contar. Casado com dona Alaíde, prendas do lar e rendeira, com quem teve quatro filhos, dois deles – o Damião e o Joãozinho – adolescentes como nós, à época, magricelas de pele escura e bons de bola, parceiros de jornadas peladeiras memoráveis, o senhor Antônio Bruno, assim se chamava, passou a ser, ou melhor, a alta calçada da sua casa de taipa tornou-se um dos nossos pontos de lazer. Para lá íamos, em grupo de cinco ou seis amigos de mesma faixa etária, nas noites em que nada se nos oferecia como distração, diversão, entretenimento. E o que nos atraía? As histórias contadas pelo velho senhor, todas elas carregadas do encantamento do absurdo e do exagero que, não raramente, desbordava para a mentira. Diziam ser ele “um velho mentiroso”. Discordo peremptoriamente. Ele era um exímio contador de “causos” e usava a astúcia de sempre assumir o protagonismo, talvez para impingir-lhes veracidade. De dois deles, que se mantêm vivos na memória, agora dou-lhes ciência, pacientes leitoras e leitores. Peço-lhes tão somente permissão para fazer uso da voz dele. Nada de surreal, de extraordinário, de fantástico, de sobrenatural. Apenas pretendo exercitar a tentativa de recuperação de voz muito específica para a natureza dos “causos” que ora narro.

– Era um dia de folga. Dispus-me a fazer o de que mais gosto. Preparei a espingarda para caça de médio porte, com uma carga de doze caroços de chumbo, munição nova. Pendurei o embornal no ombro esquerdo, empunhei a lazarina, entornei uma boa dose da branquinha e parti para aquela mata, ali do outro da lagoa. Andei um bocado sem conseguir qualquer alvo que valesse a pena dar um tiro. Só depois de algum tempo, já cansado e desesperançado, percebi que o dia não era do caçador. Já passava das doze, sol a pino, quando decidi retornar, sem nada. Manhã perdida. Ao contornar a lagoa pelo lado oposto ao da estrada de ferro, um bando de barulhentos jaçanãs levantou voo em círculos. Posicionei a espingarda para o tiro, mirei o centro do bando, quase em linha reta com a minha cabeça e atirei. Das treze aves de bico amarelo, escudo frontal vermelho e pés enormes, doze foram abatidas; apenas uma, baleada, zanzava desesperadamente, numa luta inglória contra a morte. Só que certamente iria cair distante de mim e eu a perderia. Procurei uma pedra, um pedaço de pau, algo que pudesse arremessar contra ela, num tiro de misericórdia. Recarregar a lazarina levaria muito tempo. Descartei a ideia. Na falta de opção, o tempo jogando contra mim, arranquei do braço o relógio e zás! Acertei o alvo e o último jaçanã veio juntar-se aos outros doze. Só que o relógio, após atingir a vítima, mergulhou nas escuras águas da lagoa. Idiota! Eu o havia trocado por um jaçanã quase morto. Fazer o quê? Aceitar o prejuízo. Na verdade, não me lamentei muito. Veio o verão, cessaram as chuvas. A lagoa secou. O solo esturricou. Virou um entremeado de rachaduras separando blocos de lama ressequida. Há poucos dias, caminhando sobre eles, chamou-me a atenção um brilho vindo de fenda próxima, por efeito dos raios do sol. Garotos, vocês têm ideia do que era? Certamente não. O meu relógio. Recolhi-o. Abestalhado fiquei quando percebi que ele trabalhava, apesar de tanto tempo debaixo d’água. Acreditem, por favor: verifiquei a hora, confrontei com a do pulso, havia o atraso de apenas um minuto.

Nós nos entreolhamos e, tacitamente, demos por visto o não visto.

– Outro dia, convidaram-me para uma caçada lá pras bandas do açude do dr. Marcelo, próximo à fazenda do Zé Vilar, ali pros lados do Capistrano. Fui. Mais uma vez não me abençoou o deus dos caçadores. Ia voltar de mãos abanando. Só que não. De repente, avistei um casal de pato do mato, nadando garbosamente sobre as águas trêmulas do açude. Num tiro certeiro, de caçador de responsa, abati os dois. Nessa noite eu jantei pato do mato cozido.

O velho Antônio Bruno volveu o olhar para dentro de sua humilde casa de taipa, através da janelinha frontal, e buscou confirmação com a sua parceira de longa jornada.

– Não foi, Alaíde?

A resposta veio de quem obviamente não tinha acompanhado a conversa.

– Foi, meu velho. E um macaco.

Um macaco? No açude? Com dois patos do mato? Todos nós olhávamos para o caçador cobrando-lhe uma explicação. Que logo veio.

– Isso mesmo, um macaco. Eu já tinha até esquecido. É que a cerca de arame farpado que separa as propriedades, a do dr. Marcelo pra cá, a do Zé Vilar pra lá, cruza o açude. Pois não é que o desgraçado de um macaco corria no fio mais alto da cerca e foi atingido por alguns dos caroços de chumbo. Tentei socorrê-lo, mas ele não resistiu.

Soubemos depois que dona Alaíde levou a devida repreensão.

– Mulher, da próxima vez que você me fizer construir, em poucos minutos, uma cerca de arame farpado dentro de um açude e colocar um macaco correndo em cima dela, pode ficar certa de que nem o amor que sinto por você vai salvar a sua vida. Prestenção!

Num dia dos pais, fizemos uma vaquinha e compramos uma garrafa de Triunfo, a aguardente mais disputada em bares e botecos da região. Nós a presenteamos ao “velho contador de causos”. Naquela noite, nós o encontramos – como dizia um professor nosso – capiongo, sorumbático e meditabundo. Logo nos advertiu quanto à momentânea indisposição para qualquer coisa. Mesmo assim, abriu a garrafa com os dentes enegrecidos pelo fumo, pediu à amada Alaíde o “precioso” – na verdade, o copinho de vidro e de fundo grosso –, encheu-o até a borda com o conteúdo do presente que lhe demos e saboreou… saboreou “a melhor de todas as canas”, de olhos fechados e com ar de satisfação. Em seguida, revelou-nos o motivo da tristeza.

– A humanidade não tem mesmo jeito. Não cumpre com a palavra dada. Não valoriza os compromissos assumidos. O meu vizinho (no caso, o também servidor erreveceano, da turma de manutenção da ferrovia, conhecido como Manuel Caçote) prometeu-me trazer um pedaço de trilho, um metro e meio mais ou menos. Exceto o peso, nada mais dificultaria o cumprimento da promessa. Ele simplesmente deu o dito por não dito, fez ouvido de mercador. E agora estou impossibilitado de fazer o que pretendia.

– E o que o senhor queria fazer com um pedaço de trilho? – Alguém da turma atreveu-se a perguntar.

Ele nos encarou, entornou mais um copinho de aguardente, e calmamente satisfez a nossa curiosidade:

– Eu ia levar ao mestre Zé Fernandes, o ferreiro, para transformá-lo em anzol capaz de fisgar o monstro da Água Verde.

Com efeito, era um sonhador.

 

Nota do autor:

O Monstro da Água Verde, fenômeno ocorrido na década de sessenta, se não me falha a memória, tornou-se a versão simplória do Monstro do Lago Ness que, por muito tempo, fez parte do imaginário popular e da cultura da Escócia e do resto do mundo ocidental, superando até evidências de não haver existido. Há teoria, sem confirmação, que aponta para uma enguia de grande tamanho. No caso de Água Verde, localidade à margem da rodovia estadual que liga Baturité a Fortaleza, o mistério se desvendou quando o Corpo de Bombeiros capturou um filhote de jacaré, cuja origem não restou devidamente esclarecida.

 

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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