REJEIÇÃO EUROPEIA E ESTADUNIDENSE À MIGRAÇÃO FORÇADA

O Parlamento do Reino Unido acaba de aprovar uma lei que permite a deportação para Ruanda dos imigrantes que pedirem asilo na pátria do liberalismo capitalista clássico.  

O jovem Primeiro Ministro Rashi Sunak (em maio fará 44 anos), ele mesmo um inglês filho de indianos que emigraram da África Oriental para a Inglaterra, reservou aviões fretados para a deportação de milhares de imigrantes nos próximos dias, mesmo diante da perplexidade mundial dessa atitude repulsiva.

Sunak é cria do capitalismo financeiro e foi incluído pelo Sunday Times na lista dos mais ricos com uma fortuna calculada em 700 milhões de libras ou cerca de RS 4,5 bilhões.  

Ele é o melhor exemplo do significado da cidadania burguesa na qual quem tem dinheiro é considerado bem-vindo, e quem é imigrante pobre e sem visto de entrada cidadã é tratado como criminoso.  

Ruanda é aquele país que chamou a atenção da comunidade internacional após o genocídio de cerca de 800 mil pessoas trucidadas por militares e milicianos em face de disputas internas de poder político.  

Na África, tal como ocorreu nas Américas, houve a ocupação pelos “civilizados” europeus que nos dois continentes exploraram, escravizaram e mataram os autóctones numa clara intenção de saque das riquezas materiais e abstratas aos países “colonizados”, que ainda hoje sofrem sob a tirania de uma relação social de produção de mercadorias num capitalismo decadente no qual os países pobres não podem competir com a alta tecnologia de produção dos ricos, a não ser com o fornecimento de mão-de-obra barata nas empresas que por lá se instalam para levar os lucros do sangue alheio.

Na África, pincipalmente, após as guerras de independência, os potentados capitalistas se agarram a governos corruptos, sustentados por exércitos regulares corruptos que são financiados por empresas capitalistas, principalmente mineradoras, que fazem o saque de suas riquezas.  

Não é por menos que o recentemente assassinado (por Putin) miliciano russo Yevgeny Prigozhin, dono do grupo Wagner de mercenários que atuaram na guerra da Ucrânia ao lado dos invasores russos, era dono de jazidas de minérios na África, para ficarmos apenas nesse exemplo repugnante.  

Mas, de tanta exploração, os latino-americanos e africanos pobres (os asiáticos de tantas etnias também), buscam fugir da tirania econômica e político-militar de que são vítimas, e o fazem em condições precárias de transporte, por mar e por terra, para serem recebidos pelos seus antigos “colonizadores” como criminosos indesejáveis, e isso se escaparem da morte na travessia perigosa.  

Os países ricos, ora decadentes junto com a relação social que elegeram como eterna, estão apenas colhendo o que plantaram.

As levas de imigrantes centro-americanos e sul-americanos que tentam chegar à meca do capitalismo mundial, os Estados Unidos, esperançosos de se estabelecerem neste país e conseguirem os empregos que lhes dê sobrevida ou mesmo boa vida (alguns poucos até ficam ricos, como a família do Primeiro Ministro britânico Sunak) esquecem-se de que é possível viver bem em suas próprias terras de origem, mas que para isso precisam superar o mal de que são vítimas: o capitalismo.  

Ao invés de imitar o que fazem seus algozes exploradores, entendendo equivocadamente que eles, os ricos, são ricos porque são eficientes e competentes com as estruturas econômicas e políticas a serem imitadas(os), deveriam entender que eles são ricos na exata proporção e razão pela qual os pobres são pobres, ou seja, por conta de uma riqueza concentrada e segregacionista, mas ora em rota de colapso irremediável.  

Os governantes dos Estados Unidos, como o republicano e bilionário Donald Trump; ou como os democratas Barack Obama e Joe Biden, com diferenciação de métodos, alinham-se numa mesma palavra de ordem: fora os imigrantes.  
Esquecem-se eles, que foram imigrantes nas suas ancestralidades:  
* a) Donald Trump teve país e avós escoceses e alemães;  
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* b) Barack Obama teve pai africano; e  
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c) Joe Biden tem ascendência irlandesa (Irlanda, que sempre foi subjugado pelos ingleses, numa história de tirania a ser superada ainda hoje).

Caso seus ascendentes imigrantes tivessem recebido o mesmo tratamento que estão a dispensar aos novos imigrantes, esses governantes estadunidenses teriam sido deportados como agora estão a fazer.  

É no nacionalismo xenófobo que o fascismo se iguala à democracia burguesa, seguindo os preceitos racistas e supremacistas.  

Mas os piores são aqueles que trazem nos seus ethos políticos a perversa natureza racista e xenófoba como estes três que abaixo citamos, cujas identidades de pensamentos se pode inferir de seus próprios pronunciamentos, quais sejam:
– de Benito Mussolini, que dizia: “não se pode colocar todos no mesmo nível. A igualdade é anti-natural e anti-histórica.”;
– de Donald Trump, que afirmou: “a imigração ilegal está a envenenar nossa nação. Isso é uma invasão. É comparável a uma invasão militar.” Para ele, imigrante com dinheiro para obter o green card é bem-vindo, e os imigrantes pobres são criminosos. Uma xenofobia claramente perceptível.
– de Adolf Hitler, que afirmou e reafirmou no seu abjeto livro “Mein Kampf”, numa similaridade impressionante ao que diz o ex-Presidente bilionário supremacista: “a razão pela qual todas as grandes culturas do passado pereceram foi a extinção, por envenenamento de sangue, da primitiva raça criadora”.

Li, outro dia, na lápide póstuma de Virgílio Távora, que foi governador do Ceará por dois mandatos; Ministro de Viação e Obras Públicas do Governo João Goulart; e uma vida parlamentar atuante, a frase: “o mundo se guia por interesses”.  

Refletindo sobre essa frase do Virgílio Távora, conclui que ela é verdadeira, mas não deveria ser, e que sob uma outra orientação de solidariedade humana resultante de uma relação social fraterna e diferente da que temos, certamente os interesses não seriam mesquinhos, mas voltados para o engrandecimento do ser.  

Há interesses virtuosos e interesses mesquinhos, e somente a nós cabe a escolha correta de um e do outro.
Infelizmente, a maioria dos nacionais dos países ricos são anti-imigrantes. Os políticos assumem a postura de deportação não apenas porque o capitalismo é nacionalista e excludente, mas porque a maioria dos seus eleitores nacionais, induzidos pela lógica do capital na qual sem dinheiro não
se vive, também o são; mas felizmente há as minorias, e então, viva as minorias.

É que os interesses dos nacionais de manutenção dos empregos já precarizados nos países ricos, são ameaçados pelos imigrantes que se sujeitam aos salários baixos, e como o valor dos salários depende da famigerada lei da oferta e da procura, regulada pelo abominável mercado que estabelece regras ditatoriais de comportamento social, todos se amesquinham num comportamento desumano naturalizado como aceitável e correto.  

Até quando este absurdo comportamental vai coexistir entre nós???

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;