Reflexões sobre a tirania

“Muitos odeiam a tirania apenas para que possam estabelecer a sua.”

Platão

​Ah, tirania, essa megera que acompanha o itinerário da humanidade!

​Por que somos os únicos animais que matam a sua própria espécie de um coletivo e genocida?

Quisera eu compreender o componente irracional da nossa racionalidade; compreender a estupidez dos seres humanos irem a uma guerra matar outros seres humanos que sequer conhecem e sem saber exatamente porque o fazem.

Num exercício de análise simplória poderia dizer que é a sede de poder dos governantes, que de fato o é; mas fico a imaginar outros componentes que interferem nos atos de tirania, tão comuns até mesmo dentro das casas tidas como sacrossanto lar, quando ocorrem, por exemplo, as violências físicas ou abusos sexuais, muitas vezes incestuosos.

Além da conhecida busca fratricida do poder político e econômico, seria o preconceito elemento componente de um outro tipo da tirania? Certamente o é.
O que move um Presidente da República a afirmar que o governador do Rio Grande do Sul (antigo correligionário, como tantos outros que se enganaram) está incitando a homossexualidade, pelo primeiro condenada preconceituosamente ao fogo dos infernos, pelo simples fato do gaúcho deixar claro publicamente a sua condição sexual?

Seria o preconceito que está arraigado a sua mente simplória de um pretenso macho alfa?

Mas em que tal condição humana e pessoal interfere nos atos de um governante? Por que ele precisa afirmar a sua homossexualidade?

Tal declaração seria apenas forma de contraposição ao preconceito, num ato de quem sente na alma a rejeição tão comum às pessoas comuns, e tão comuns a todos os preconceitos de que são vítimas os seres humanos?

Por que ninguém precisa afirmar a sua condição de heterossexual? Seria porque o padrão consagrado como normal e por todos aceitos é excludente de outros padrões, como resultante de códigos morais de comportamento preconceituosos?

Li, recentemente, que a mãe de Carlos Gardel, uma francesa, ao engravidar e ser mãe solteira e ainda na França, teve que sair de Toulouse, sua cidade, no início do século 20, e emigrar para a América do Sul, por puro preconceito, indo parar na Argentina. Quantas mães solteiras tiveram que fugir de sua comunidade como vítimas do preconceito ao longo da história?

Soube, também, que o tango argentino, cantado nos cabarés portenhos de prostituição portuária, era considerado brega demais para a empedernida elite de Buenos Aires. Mas isso durou apenas até a considerada erudita e civilizada França, que havia rejeitado a sua mãe, afirmar que aquele ritmo cantado por um seu filho tido como bastardo até poucos anos antes, era absolutamente delicioso.

Por que a música considerada brega de ontem pode ser a música hoje representativa da alma cultural de um povo, como ocorre com o samba brasileiro?

E o preconceito burro contra a etnia africana escravizada no sul dos Estados Unidos, que era obrigada a cantar os seus blues nas igrejas, únicos locais onde tal manifestação cultural era permitida, mas que com a força que a verdade sempre se impõe, o blues se transformou na base musical de todos os ritmos mais representativos de cultura estadunidense.

Seria a prova de que a verdade sempre vence o preconceito, ou é o preconceito que sempre se apropria da verdade para continuar existindo, como no caso da aceitação de um branco pertencente ao famigerado “white poor trash”, mas branco, bonito e talentoso, foi assim transformado no Rei do Rock’n’roll (este tipo de música, também, discriminado originalmente como ritmo dos negros e corruptor de comportamentos tidos preconceituosamente como corretos)?

O que dizer daquela família de emergentes no capitalismo mercantil anti-feudalista, que se dizendo abolicionista humanitário da escravidão da etnia africana, jamais aceitaria sua filhinha branca namorar e engravidar de um preto oriundo da senzala?

Não foi Jesus Cristo, há mais de 2000 anos, com um argumento anti-preconceito, quem livrou Maria Madalena, a prostituta, do apedrejamento mortal por falsos moralistas ao dizer “atire a primeira pedra aquele que não tiver cometido pecado”? Será que a própria conceituação de “pecado”, já não seria um preconceito?

A tirania costuma se apropriar de conceitos tidos como consensualmente corretos para exercer a opressão intrínseca aos seus pressupostos torturadores.

Exemplo flagrante disso se pode extrair da frase enunciada do partido nazista, ou seja, partido nacional socialista dos trabalhadores, que tinha como dístico nos campos de concentração de prisioneiros a frase “O trabalho liberta”

Os nazistas se referiam, hipócrita e morbidamente, aos campos de concentração, como locais de reeducação de judeus, ciganos e comunistas, num exemplo claro e histórico do inaceitável preconceito racial genocida. Aí também se incluía a exaltação (infelizmente comum aos regimes ditos proletários) ao trabalho e ao trabalhador como artífices de liberdade, quando o trabalho abstrato produtor de valor nada mais é do que a base capitalista de toda a opressão contida na mediação social pela forma-valor.

A mesquinhez do ser humano em eterno conflito com sua histórica solidariedade manifestada a partir de grupos humanos que se uniam em face da impotência física individual dos humanoides para o combate aos ferozes animais muito mais fortes, e às intempéries do tempo, é o que tem marcado a luta titânica destes seres entre a tirania da segunda natureza racional humana e seu oposto, que é a solidariedade própria à nossa espécie.

Os governos verticais, todos, são déspotas, e exercem as suas tiranias intrínsecas em nome do resguardo cidadão contra a própria tirania que exercem, numa inversão de sentido que permanece embotando a melhor compreensão societária. Não é por menos que Sócrates, o grande filósofo grego, afirmou que “a cidadania é o cadáver do homem”.

O que levou o povo brasileiro a votar majoritariamente em alguém que vociferava ódio em sua campanha eleitoral, dando sequência aos enfáticos e tirânicos conceitos de sua vida parlamentar medíocre?

A resposta não pode ser outra senão a simbiose da insatisfação com o que está posto e seu pretenso contrário, como se o que estava sendo anunciado como contraponto fosse diferente, para melhor. Assim, a ignorância, irmã gêmea do preconceito, triunfou.

Mas como não há mal que dure para sempre, a verdade, tal como óleo dentro d’água, teima em emergir, ainda que a um custo muito alto, inclusive de milhares de vidas humanos de muitos dos mesmos que o elegeram.

Já agora verificamos uma reversão do quadro de crença messiânica num falso “salvador da pátria” expressa nas multidões que saem às ruas para se contrapor àquilo que até ontem muitos consideravam uma futura redenção.

Há tirania braba com corrupção com o dinheiro público, tido como do povo (ainda que nunca o seja), que mata sob a forma de falta de vacinas, remédios e hospitais; de educação básica libertadora; de moradia insalubre que provoca doenças; de alimentos que garantam a sustentação fortalecida de crianças nas escolas, que produz a poluição da atmosfera objetivando o lucro, etc., etc., etc.

Mas há uma tirania que para muitos é imperceptível na sua essência ontológica, e que muitas vezes passa até como redentora, numa inversão de significado. Falamos do capitalismo quando relacionado com o passado da tirania do feudalismo escravista direto; quando se admite o ruim por medo do péssimo e sempre isto que ocorre. O medo dominador e paralisante é aliado da escravização do ser humano pela tirania.

Falamos principalmente da tirania do capital, que se traduz na impessoalidade do sujeito-automático e abstrato da forma valor, que nos escraviza a todos, ainda que de forma diferenciada sobre os vários segmentos de classes sociais: com os assalariados, pelo medo de perda do emprego e salário, ou seja, por medo de perder a possibilidade de ser explorado; e, para os capitalistas, pelo medo da falência, hoje cada vez mais frequente.
Ah, tirania, essa megera que acompanha o itinerário da humanidade!

Até quando vamos ter que aturá-la?
Ou será para sempre, tal qual um mal imortal inerente à nossa condição humana, como se Deus quisesse afirmar a nossa inferioridade perante sua sabedoria suprema?

Acredito que quando atingirmos um grau superior de nossa evolução em curso, apesar dos retrocessos episodicamente sofridos, poderemos aferir a nossa capacidade de compreender e exorcizar a tirania, ou pelo menos puni-la, trabsformando-a nesse último estágio como ocorrência pontual e excepcional.
Mas apenas caso ela própria não venha a nos extinguir como espécie, antes disso.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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