Ralph Della Cava envia-me uma homenagem a Gilmar de Carvalho

Ralph Della Cava envia-me uma homenagem a Gilmar de Carvalho, 20 04 2021

Queridos amigos: (é que enviou também para outro amigo)

    desde que recebemos a notícia da morte de Gilmar, estamos Olga e eu em pleno luto.

    Escrevo para Vocês umas poucas horas depois do triunfo de justiça no caso de George Floyd e o chamado que nos chega que a igualdade seja uma realidade para todos os nossos cidadãos.

    Acho que Gilmar teria aplaudido o veredicto do júri.

    Em novembro de 2020, ele me escreveu aquele mail seis meses antes do assassínio de George Floyd em Minneapolis:

“Mataram um negro cliente de um supermercado Carrefour, em Porto Alegre.

Lamentavelmente, só com estes fatos de impacto, chegamos ao mundo.

Lamentável, sob todos os aspectos.

Lamentáveis, também, os pronunciamentos das autoridades brasileiras.

Negar o racismo no Brasil é uma piada de mau gosto.”

 

    Respondi falando com otimismo do movimento ‘Black Lives Matter’ que se espalha pelo mundo inteiro, ao mesmo tempo que denunciava a volta do ‘Jim Crow-ismo’ empurrado pelo Trump e o mal que este semeia no País.

    Verdade o veredicto de hoje é só um primeiro passo numa luta de 400 anos contra a escravidão, de direitos desiguais e do excesso do “privilégio dos brancos.”

*** 

    Sentindo a perda irreparável de Gilmar, acabei de escrever ‘uma lembrança e um tributo’ dele. Enviei-o para os setores de estudos brasileiros de duas associações académicas, a LASA e a CLAH. E, enviarei em seguida aos meus colegas do Brasil Seminar da Columbia. Não tenho ideia se estaria circulado como pedi. Mas, espero que sim.

    Anexo o texto abaixo e me solidarizo com Vocês no pranto pela perda do nosso colega, amigo e o grande historiador e pesquisador da cultura popular e as artes vivas do povo do Nordeste.

    Num dia de perda e triunfo, 

abraço Vocês,

Ralph Della Cava.

 

Francisco Gilmar Cavalcante de Carvalho – GILMAR DE CARVALHO (1950-2021)

Uma Lembrança e uma Homenagem

de Ralph Della Cava, 19 de Abril de 2021

 

Para aqueles de nós para quem o Nordeste Brasileiro é uma veia inesgotável de um passado rico e um presente em mutação, assim como nossa segunda casa, a morte de Gilmar de Carvalho na noite de 17 de abril de 2021 aos 71 anos de idade é uma irreparável perda.

    Autor de mais de cinquenta obras que abrangem a cultura popular e as artes vivas da região – desde as gravuras e poesia de cordel aos mestres luthiers de violões e violinos e suas canções, dos artesãos e mulheres do barro, da cerâmica e da madeira; tecelagens, pinturas, impressão e publicação; e das esculturas, as sacras e as profanas – Gilmar tornou-se seu maior historiador e seu mais assíduo e incessante pesquisasor e conservador.

    Uma década antes de sua morte devido à pandemia que varreu o Brasil, ele começou a legar seu trabalho de uma vida ao ‘Acervo do Escritor Cearense’ (AEC) da ‘Biblioteca de Humanidades’ da Universidade Federal do Ceará. O acervo mencionado, foi o resgate real de “livros, documentos, fotografias, correspondência, relatórios jornalísticos e manuscritos relativos à memória de importantes personagens da cultura cearense”, muitos dos quais, devo assinalar, foram e são de origem humilde.

    No décimo aniversário da doação de Gilmar, ele falou por muitos de nós que, ao longo de uns quarenta anos de pesquisas, enfrentamos o dilema do descarte de uma coleção – ou de sua feliz preservação.

    “Muitas vezes, quando alguém que possui uma fortuna tão crítica … morre, o material é jogado fora. As famílias nem sempre apreciam seu valor. Eu, não tendo herdeiros diretos nem filhos, portanto, devia cuidar e me proteger. … Não poderia haver melhor lugar, concluí, do que o Acervo do Escritor Cearense para eu trazer esse material e vê-lo tão bem cuidado, conservado e bem utilizado. ”

    Gilmar e eu nos encontramos pela primeira vez na casa de um Cearense no Rio de Janeiro, numa das raras ocasiões em que ele viajou de avião e para algo longe de seu amado Nordeste. Foi quase inevitavel que relembrassemos nossas respectivas experiências em Juazeiro do Padre Cícero.

    Foi em 1998, que uma tese sua premiada sobre aquela cidade e seu fundador confirmou para mim o brilho, a engenhosidade de Gilmar, seu incomparável domínio das artes populares e sua compreensão de seu poder transformador. 

    Com efeito, ao recontar o passado de Juazeiro, Madeira Matriz demonstra como a “xilogravura e o cordel” construiram e ancoraram a narrativa ora mítica, ora narrativa de uma cidade sagrada e seu santopatrono.

    Volume após volumes, vários enriquecidos pelas fotografias do seu colaborador e amigo, Francisco Sousa, não houve tema, arte ou personagem que deixasse de fascinar. Patativa do Assaré, o grande poeta do sertão, Mestre Noza, o grande escultor de Juazeiro, e os Rabequeiros do Ceará estão entre os artistas que Gilmar homenageou.

    Gentil, de fala mansa, nunca orgulhoso, Gilmar foi o modelo entre os verdadeiros grandes eruditos desta terra, um campeão do povo a quem chamamos de ‘sal da terra’, e o historiador e conserdor desse museu de quase tudo, suas artes vivas, esses vasos inspirados de todas as humanas aspirações.

    Ele fará falta e sempre será lembrado.

PS. A foto foi copiada da rede social do professor Gilmar de Carvalho.

Eduardo Diatahy B. de Menezes

Eduardo Diatahy B. de Menezes

Dr. Eduardo Diatahy B. de Menezes Professor Emérito da Universidade Federal do Ceará (UFC) Prof. Titular do Doutorado e Mestrado em Sociologia (UFC) Prof. Titular do Departamento de C. Sociais (UECE)

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