QUEM TEM CULPA NO CARREFOUR?

Em primeiro lugar, vamos distribuir as devidas competências para o fato, ocorrido recentemente no Carrefour, que levou à morte de um negro na saída do Supermercado no Rio Grande do Sul. Dois seguranças, um deles policial militar à paisana e prestando serviço para uma empresa de segurança privada (primeiro crime), o outro, um desses cabeças ocas metidos a lutador que não frequentou a escola da cidadania, portanto, um desses pitboys pobres, imitando estúpidos pitboys ricos.

A empresa deve assumir suas responsabilidades com a justiça bem como assumir a parte do crime ocorrido em seus domínios, sob pena de ser cúmplice no assassinato. Não foi o Carrefour que matou. Este se omitiu nesse e em outros casos, como o desdém ao funcionário que morreu em pleno serviço, aqui em Fortaleza, e foi colocado debaixo de papelões para que não prejudicasse o movimento de vendas, enquanto as providências fossem tomadas. Outro caso de violência contra animais e outros tantos de tortura a pobres, a negros foram relatados em outros lugares. É só o Carrefour que faz isso? Não. Todas as grandes redes fazem. A empresa francesa deu azar de ser reincidente em todos esses casos que vieram a público. 

E de quem é a culpa? É nossa, mas com a conivência maior desta parte da sociedade que aplaude estuprador e racista. A culpa é da direção da empresa, que visa apenas o lucro; é dos fornecedores, que visam apenas o lucro; é dos consumidores ávidos por promoções, que visam apenas o lucro; é da polícia, que não investigou e abriu inquérito para que os culpados fossem processados e presos na forma da lei. Da mesma lei que pune pobres e negros sem provas, pois basta ter suspeita; a culpa é da justiça, que não julga os processos contra os poderosos, como o Carrefour, porque, “suspeito” eu, a justiça não tem olhos para os ricos. Será que recebem mimos? Não sei, não posso afirmar, embora possa suspeitar; a culpa é das autoridades: do vereador ao presidente, que são insensíveis e não cumprem as leis que elaboram para não melindrar os ricos. Já os pobres e, principalmente os negros, são espezinhados, porque o componente racial é ferramenta de violência estrutural nesta sociedade de hipócritas. 

Por isso, repito, a culpa é dessa parte da sociedade que só reclama quando os crimes são filmados e têm mais repercussão fora do país do que aqui. Que se omite de reagir a uma violência contra outro ser humano que não seja um seu familiar. Que sabe das ligações da polícia com o crime, com as milícias, com a rede de corrupção que elege deputados, senadores e presidente da República, a debocharem do povo dizendo que não existe racismo no Brasil, como falou o vice-presidente General Mourão. Toda essa corja de malfeitores não pensa na pobreza e na cor dos oprimidos. Para eles, isso é “mimimi” de esquerdista. Só lamento que o boicote ao Carrefour vá gerar, talvez, centenas de demissões de pessoas trabalhadoras que não podem prescindir do emprego. 

E quanto às empresas de segurança – muitas delas milícias disfarçadas para assassinar pobres, como dizem, o serviço de “limpeza” – essas empresas de fachada vão continuar abrigando assassinos e formando delinquentes?

O que devemos fazer diante de um crime às vistas de muitos que nada fizeram? 

Reagir? Começar a matar quem está matando os negros? Isso não seria barbárie? E se isso acontecesse, de que lado a polícia ficaria? De que lado os racistas ficariam? De que lado os que se omitem ficariam?

E você, cidadão branco, cristão ou não, que aplaude a violência, não está com medo do que o povo que está marcado pela raça e pela condição social pode fazer? Todos temos medo. João Alberto não é Floyd, mas poderia ser, se o povo brasileiro enxergasse as identidades apagadas ao longo da História do Brasil. São milhões de João Alberto na fila, até quando? E, como disse Malcom X: “Não confundam a reação do oprimido com a violência do opressor”.

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza - Ceará Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor em Letras UERN. Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Vencedor de Prêmios Literários nacionais, regionais e locais. [email protected] Tem 23 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 (Coleção Alagadiço Novo, v. 29) – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Literatura Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) - Conto Super Dicionário de Cearensês, 2000; Literatura (quase sempre) marginal, 2002 – Crítica Literária.; Os gestos do amor: magia e ritual, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Diálogo com a arte: vanguarda, história e imagens, 2005 – Ensaios; A essência filosófica do amor, 2014 – Filosofia/ Comportamento ; Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014 – Ensaios; Poesia na bagagem, 2018 – Poesia; O olhar tardio de Maria, 2019 – Conto

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