Quem disse que esta é a maior crise econômica da história do Brasil? – IV – Por Osvaldo Euclides

O catastrofismo e o pessimismo no rádio, no jornal e na TV em relação à economia brasileira foi praticado nos últimos quase três anos e ajudou a produzir efeitos concretos (estourar as metas de inflação, aumentar os níveis de desemprego e inverter as taxas de crescimento) aí pelo segundo trimestre do ano de 2015. Foi uma campanha forte, contínua, permanente, sufocante, não raro capaz de provocar mal-estar nas pessoas mais sensíveis.

A campanha da polícia e da justiça também colaborou para a inversão (de positivo para negativo) do PIB e geração de enorme desemprego entre as empresas do ramo de engenharia (só uma das empreiteiras corruptas demitiu setenta mil trabalhadores, apesar de ter faturado em 2015 cento e trinta bilhões de reais).

Esse mesmo consórcio Justiça-Ministério Público-Polícia Federal conduziu a investigação da corrupção na Petrobrás de tal forma que parecia querer destruir a empresa e abalar toda a cadeia que envolve a indústria petroquímica. Por sorte, a Petrobrás é muito competente, muito sólida, foi apenas duramente abalada.

Porém, o efeito mais devastador das campanhas da imprensa, Polícia, Ministério Público e Justiça atingiu pessoas e empresas, destruindo a confiança. Outro dia, o locutor de uma partida de tênis, explicando que o grande campeão estava errando todos os lances e prestes a perder a partida, disse: “Ele está errando todas porque perdeu a confiança. Sem confiança ninguém sequer consegue atravessar uma rua”.

As campanhas acima, juntas, articuladas, anos a fio, 24 horas por dia, sete dias por semana, destruíram qualquer restinho de confiança de consumidores e produtores. Isso é política ou economia?

Eis a causa da queda do PIB de quase quatro por cento em 2015, sem desmerecer a incompetência oficial e algum impacto externo.

Os economistas e jornalistas que verbalizam o discurso do “mercado” dizem que esta recessão se deve ao défict das contas públicas, o que é inaceitável, não é verdade. Normalmente déficits aceleram (pelo menos a curto prazo) o crescimento, austeridade freia crescimento (tanto que, mundo afora, já se chama austeridade fiscal de austericídio).

Chegamos ao déficit fiscal. Em 2015, o déficit fiscal total do Brasil foi de R$613 bilhões, sendo que deste valor, R$501 bilhões foram custos da dívida interna (gestão do Banco Central).

Esta é a questão que vai ter que ser discutida e que está agarrada nas raízes da crise política. Isso incomoda e perturba quem tem, no país, verdadeiramente, o poder e o dinheiro, e sempre conseguiu manobrar para proteger seus interesses.

Aconteça o que acontecer, esta é a questão de natureza econômico-financeira que mais preocupa o andar de cima. Mas a decisão é política. É aí um dos pontos em que a política e a economia se encontram, onde se entendem o poder e o dinheiro.

Como nunca antes na história do país, a elite age abertamente, às escâncaras, quebra pactos de convivência tradicional, arrisca e avança na instabilidade e está mostrando que limites aceita ultrapassar e até onde é capaz de chegar para defender suas convicções e seus interesses. Nem se preocupa se deixa impressões digitais em cada ato da retomada do poder. Como diz a propaganda daquele cartão de crédito, isso não tem preço.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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