Que crise? Eu vou muito bem, obrigado. Quem sou eu? por Capablanca

Eu sou um juiz ou um desembargador. Eu e meus colegas somos uma corporação forte, porque unida, protegemo-nos uns aos outros, ai de nós se tivéssemos de nos enfrentar. Ganhamos todos acima do teto constitucional, por razões estritamente legais e circunstâncias legítimas. Somos pouco cobrados, a produtividade é relativamente baixa. A população, a imprensa e outros desavisados não entendem que nenhum julgador gosta de julgar. O bom, o saboroso, o perfeito é administrar o processo. Depois que emitimos a sentença o poder vai a quase zero, porque segue para as mãos de outro colega. Enquanto o processo apenas tramita, o poder de um juiz é absoluto, em nome da lei, tudo podemos. Fora da lei, só com muita convicção. Enquanto o processo tramita somos procurados, cortejados, homenageados. Depois, quando muito, gratidão. E só de um dos lados.

Eu sou servidor do poder legislativo em algum lugar do Brasil. Assessoro um vereador, um deputado ou um senador, ou cumpro missões burocráticas num dos escritórios políticos deles. Na verdade não faço muito, mas tenho que estar disponível e me colocar como leal e útil ao meu chefe imediato, mas sem exagero. A cada período de quatro ou oito anos, o chefe muda, eu e meus colegas é que somos permanentes e estáveis. Ganhamos acima do teto constitucional, mas nem todos, nem todos merecem, há questões de mérito a considerar. Conquistamos essa plataforma com nossos chefes, eles sabem o que sabemos e do que somos capazes. Qualquer pessoa que conheça minimamente a rotina dos parlamentos sabe a complexidade da nossa função, guardamos discrição sobre eventos, conversas, acertos e tramitações decisivas, às vezes.

Eu sou um servidor do poder executivo concursado para uma daquelas carreiras que se chamam “carreira de estado”. Tenho certa desconfiança de que toda carreira pública devia ser “de estado”, mas isso custaria muito caro (pagar a todos como nos pagam; ademais, isso não seria justo, há questões de mérito e complexidade incontornáveis, acredite). O salário fica colado no teto constitucional, eventualmente o supera. Estamos nas polícias federais, nos bancos federais, na Receita Federal e no INSS, pendurados em algum ministério, estatal ou autarquia, enfim. Somos uma elite qualificada e treinada, fazemos a máquina andar e somos a real referência de qualidade do serviço público, a população nos admira e respeita, pode crer.

O que eu não sou? Não sou médico ou profissional da área de saúde, não sou professor e não sou policial.

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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