Quanto mais o Banco Central protege o pobre mais rico o rico fica

Os brasileiros e as brasileiras são protegidos de saber a verdade sobre certos assuntos. O primeiro destes assuntos é o dinheiro público. Uma poderosa estratégia foi concebida nos anos 1990 para que esta desinformação fosse consistente e sustentável.

Com o fim da inflação exagerada, ia ficar complicado disfarçar o fluxo principal de dinheiro que escorre do Tesouro para bolsos privados ricos. Os números estáveis das contas públicas sem inflação iam dar visibilidade aos rios de grana que corriam de um lugar para outro, disfarçados em déficits, oscilações cambiais, correção monetária, empréstimos subsidiados e incentivos fiscais.

A democracia também contribuiu para constranger essas transações mais escandalosas (quem não lembra das dezenas de escândalos de dinheiro público nos anos 1990?).

Enfim, foi necessário organizar e colocar mínimos freios à rendosa bagunça e botar tudo na contabilidade, para melhorar eventualmente os resultados, mas com certeza as aparências.

O governo FHC, sob a batuta de Pedro Malan e outros, cumpriu a delicada missão. Foram oito anos de muita ação, muita costura. Vamos direto ao que ficou de principal e que resiste até hoje.

O mais expressivo número da economia brasileira é a dívida pública interna. Digamos, seis trilhões de reais. Dívida do governo com o mercado. É a aplicação preferida, porque oferece plena liquidez (ou seja, resgate a qualquer hora), segurança absoluta (governos não quebram em moeda nacional) e alta rentabilidade. O investimento perfeito para quem não quer risco e trabalho.

Os ricos e poderosos vivem do que recebem de juros dessa aplicação, operada pelo Banco Central e paga pela secretaria do tesouro. Isso lhes poupa de criar e administrar novos negócios, correr riscos e enfrentar concorrência, gerir pessoas e desenvolver tecnologias e processos, enfim, fogem do capitalismo …O país perde muito, mas eles ficam satisfeitos. E não aceitam nem discutir mudanças nesse esquema, que, não é invenção nacional.

No mundo inteiro é assim. Só que bem diferente. As duas diferenças principais:
1. O custo da administração da dívida pública brasileira é especial e estranhamente alto;
2. Esse custo da dívida pública brasileira é escondido da população por uma contabilidade bem particular.

A estratégia foi criar um conceito de déficit especial para o Brasil. Assim foi criado o conceito de déficit primário. Entram todas as receitas e todas as despesas, mas o juro da dívida pública fica fora. Simples assim: o que olhos não veem o coração não sente. Com isso a conta do juro é indolor.

E se assim é, o juro que o Banco Central (agora independente) define e atualiza a cada 45 dias, aquela taxa chamada Selic, parece mera tecnicalidade para defender os pobres.

Sim, o juro alto pro rico é necessário para proteger os pobres da inflação. Quanto mais protegido o pobre, mais rico o rico fica. E o pobre paga a conta, claro.

Na estratégia foi decretado que a única maneira de combater qualquer tipo de inflação é aumentando o juro. Decreto bem brasileiro, típico dos anos 1990. Como se percebe, é hipocrisia a austeridade fiscal do mercado.

Ninguém diz a verdade sobre o déficit público. Talvez também para proteger o povo pobre.

E tudo se organiza numa falsa lógica que ninguém teve a coragem de enfrentar.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.