Prosas pretensamente poéticas, por PEDRO HENRIQUE

[I]

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À tardinha, caminhando na praia deserta, lembro-me das grandiosas aventuras para além-mar, em busca do novo mundo; lembro-me de Pessoa (Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!), lembro-me da verdade petulante de um desvio (Ó bela máquina, quanto da tua história são lágrimas e carnificina!), lembro-me do poeta contador de histórias amigo meu (Pessoas navegam em mar de Pessoa, poetas naufragam em ilhas de palavras), e ao flertar com a lua, ainda acanhada, lembro-me dos amigos e dos amores que tive. Estes que o tempo, a distância e a memória, bem sei, não hão de me privar.

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De ressaca da existência, sem barco, nem bússola, e com os ventos nem tão alinhados com o roteiro, deixo-me levar ao som das rabecas. Matutos, porém, com um toque encantador! Flertei sozinho durante os três dias, a sereia não cantou para mim; meu bem querer não me olhou de volta, e o amor passado, ainda latente, me assalta a imaginação. Enquanto a rabeca chora, meu peito se encolhe, pequenininho; enquanto o triângulo e a zabumba marcam o ritmo, arrisco alguns passos de minha terra. O sotaque pernambucano, ainda presente, já vai se esvaindo, assim como a lembrança do amor que passou – não a sereia, um flerte perdido, mas aquele que me arrebatou. De volta para o meu aconchego, com casais dançando e a poeira subindo, entro para a banda, hoje tocarei triângulo; quero tocar para ver se meu coração entra no ritmo do baião, do xote, do xaxado, para que ele se alegre novamente.

[II]

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Tu és chama e eu mariposa, e a ti inclino-me de modo inexorável; por vezes sou libélula e tu és lâmpada, que deixa-me desnorteado. As duas das mais brilhantes estrelas a iluminar o céu desta noite fria – que como companhia deixa-me apenas um conhaque barato – teriam vergonha em reluzir ao lado dos teus olhos. E não duvides se eu disser que tais elogios corariam a face da mais bela dama deste maldito planeta, que nos oferta a roda viva do baile de máscaras da mercadoria.

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O tempo é imponderável. O tempo marcado pelas batidas do coração, não pelas do relógio. Esse é indiferente, quantitativo e vazio de sentido, é tautológico, marcador dos passos de Sísifo. Tempos difíceis o nosso, marcados por um tempo tal. Fica mesmo difícil suportá-lo num só peito de homem (sensível, não o macho) sem que ele estale. E ele estala, dá defeito, quase quebra, mas ainda segue o ritmo de suas paixões, incompatíveis com esse tempo que não é nosso. Emergirão os corações submersos? Eis a pergunta que não cala. E como 21, 35, 52, 76, 90, nada significarão em nossas lápides, contemos, e cantemos, o tempo de nossas mais grandiosas amizades, amores e batalhas, vencidas ou não.

[III]

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O lugar não importa, mas havia um jardim. Pelo menos um espaço com adubo e água para que se fizessem flores brotarem. Mas nenhuma flor brotava. Um, dois, seis meses e nada. Um ano e nada. Mais outro ano e nada. Quando, nas beiradas do terceiro ano de insistência, um sol nunca antes visto, de uma intensidade tão radiante que fazia o peito estremecer e os olhos ofuscarem bateu, surgiu como a força de um novo tempo e então um protótipo de flor brotou. O moço que cuidava de tal jardim, não se contendo em si com o acontecido, resolveu chamar o amigo para observá-la; no fundo, ele não sabia o que fazer com ela, pelo menos não sozinho; para ele, a flor era como uma criança recém-nascida, que de tão frágil que é temos medo de tocar. O amigo ficou deveras contente, também não se conteve, pois há muito esperava por tal momento; resolveu então ajudar, tratou de encher seu regador d’água e com um entusiasmo fora do comum, desses de brilhar os olhos, aguou-a com o carinho que, muita das vezes, apenas amigos o sabem.

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Um homem estava em sua rede. Um homem, qualquer. Arquitetava e construía seu fumo rotineiro; um fumo, qualquer. Após o término, fósforo e cinzeiro; ao seu tédio parecia um estrondo, um desatino a mulher reclamar o dia inteiro se num descuido as cinzas manchassem o chão. Fósforo, cinzeiro, uma mulher e um chão, quaisquer. Seus olhos visavam o horizonte, contrastado das bordas da janela, da casa do seu João, o vizinho, do poço cheio de água, da vaca gorda e da bela cerca que cercava sua propriedade. Um devaneio, qualquer. A vaca magra havia morrido, seu João arredado o pé, no poço pouca água, estiagem em demasia, e o portão de nada adiantaria, Juarez no momento não tinha nem o que cercar, apenas sua casa de taipa. Uma casa, um homem, uma mulher, um ido vizinho e uma vida, quaisquer.

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Terapeuta Holístico em formação pelo espaço Ekobé.

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