PROPOSTA DE UM BOTÃO

“É nos Estados Unidos que, depois de quase quatro anos de Donald Trump, estamos presenciando a pior erosão de valores e práticas democráticas.” (Larry Rother, em Envenenados aos poucos. Revista Época, edição de 31.8.2020).

 

Insignes leitoras e leitores, vejam o que fez comigo hoje um dos dois botões da minha camisa polo, da cor de vinho rosé, após ameaçar livrar-se do emaranhado de linha que o mantém preso ao interior da diminuta casa, que sempre o acolheu tão bem, e deixar-me falando sozinho, tal qual eremita, jogando-se irresponsavelmente ao solo, como pretendesse suicidar-se ou simplesmente fugir ao meu alcance, renegando uma parceria de muitos anos. Até que procurei entender a sua inesperada reação, afinal, desde o começo desta pandemia que aos poucos vai minando a nossa paciência e até a nossa resistência, ele permaneceu esquecido na última gaveta do lado a mim reservado no guarda-roupa do casal. E eu até costumava conversar com ele em momentos de solidão, de recolhimento, sempre solícito, sempre calado, circunspecto, cordato, embora sempre muito atento – um bom ouvinte, em suma. Não sei por que dele me esqueci no curso desse tempo todo. E, se ele agia assim, ou reagia, certamente era por natural revolta ao imerecido e injustificado desprezo ou por ter a clausura, que lhe fora por mim imposta, aguçado as suas expectativas quanto ao porvir da humanidade, ele que sempre me pareceu – sem jamais deixar isto transparecer – pendular entre a sociologia e a filosofia.

O certo é que, rompendo o silêncio que permanentemente caracterizou a sua existência, adotou um comportamento estranho, surreal, próprio de quem domina a situação, de quem assume o controle das coisas, e sentenciou:

Confio-lhe agora uma missão, a rigor nada fácil, e não me pergunte com que propósito, pois nem eu mesmo sei. Cumpro ordens; emanadas de quem, também não sei.

– Quer dizer – reagi com estupefação – que devo fazer algo sem saber sequer a sua razão de ser?! É isso?!

– Isso mesmo. Mantenha-se calmo e preste bem atenção. [É! O botãozinho sofrera uma profunda mudança de comportamento. Não era mais eu quem propunha e concluía os assuntos em discussão. Agora, era ele quem fazia isso. Então, eu permiti que aquilo tudo fluísse, bem mais interessado no desfecho… que certamente logo viria.] Considere-se, desde já, incumbido de oferecer a todos nós [Eita! Ele se personificou mesmo!] a sua seleção mundial…

– Se for de futebol – eu o interrompi diplomaticamente –, eu formo quantas você quiser e todas de alto nível.

– Você e a sua incorrigível mania de interromper os outros. – Ele me repreendeu com ar professoral. – Eu lá quero saber de futebol!

– Então, seleção de quê, mano?

– A seleção que se quer extrair do seu jeito criterioso de apreciar o mundo em que vivemos deve reunir lideranças da atualidade com tendências claras ao absolutismo, ao autoritarismo. Pode ser?

– Pode sim. Dê-me apenas um tempo para… – Tentei ponderar, mas fui cerceado por sua intervenção. Era ele quem estava no comando.

– Pesquisar, né? Pronto, pedido atendido. Mas não demore muito.

De imediato, pus o velho e versado sistema sináptico voltado exclusivamente para o assunto. Foco único. Logo me veio à lembrança artigo, lido recentemente, sobre a obra Le monde des nouveaux autoritaires – provavelmente ainda sem versão em português –, lançada em novembro de 2019 e assinada por Michel Duclos, ex-embaixador francês e assessor especial do Institut Montaigne, patrocinador do projeto que dá origem ao livro. Com o propósito de reunir “perfis dos novos líderes autoritários do mundo”, tendo como parâmetro basilar, conceitual, “o domínio de uma ideologia antiliberal e o viés autoritário de suas políticas”, Le monde… apresenta quase duas dezenas de aspirantes a autocrata, num universo de mais de meia centena de países sob regimes ditatoriais ou com democracias em regressão. E o artigo listava dezoito deles. Agora, para desincumbir-me da missão que o botão me confiara, só bastava recuperar o artigo e, com base nele, formar a requerida seleção, ao meu exclusivo critério. A regra me era bastante clara.

Recuperei-o (Devo reconhecer: este Google é fantástico!).

Assim, retomamos – eu e um dos dois botões da minha camisa polo, da cor de vinho rosé – a conversa suspensa a meu pedido.

– Pronto, mano. Acho que já posso satisfazer a sua demanda.

– Agiu rápido, hein?!

– Vou indicar os aspirantes a autocrata, distribuindo-os por setor em que, a meu exclusivo entender, deviam eles atuar, se jogadores de futebol fossem, num sistema aparentemente defensivo, mas com alto poder de letalidade – em outros termos, agressivo –, o qual os entendidos rotulam de 4-4-2. No gol, a titularidade me pareceu indefinida, na acirrada disputa entre o premiê israelita Benjamin Netanyahu e o presidente venezuelano Nicolás Maduro, que apresentam características bem distintas, com a escolha devendo recair, obviamente, em quem mais bem se ajustar ao modelo tático escolhido, em face do estilo do adversário. No cinturão defensivo, dois postulantes a ditador – o presidente chinês Xi Jinping e o líder supremo coreano Kim Jong-un – assumirão as alas, direita e esquerda, com o miolo da zaga sendo confiada ao líder supremo iraniano Ali Khamenei e ao presidente bielorusso Alexandr Lukashenko, com a ressalva de que não desfruto da mais mínima ideia de que os dois se entendem ou haverão de. A segunda linha de quatro, compacta e flutuante, indo e voltando como as ondas do mar, entendi razoável nomear “governantes populistas em democracias em regressão”, quais sejam: o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán e o presidente turco Recep Tayyip Erdogan. Na linha de frente, dois parceiros de robusta envergadura, dispostos a tudo, nos vestiários ou no campo de jogo: o presidente russo e ditador moderno, chefe de um governo personalista e sem ideologia por ele mesmo recriado, Vladimir Putin; e o presidente americano, bufão e histriônico, o “Máximo Líder” Donald Trump. No banco de reservas, um grupo de muitas possibilidades, líderes versáteis, capazes de atuar em qualquer das três linhas: Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas; Bashar al-Assad, presidente da Síria; Jaroslaw Kaczynski, ex-presidente da Polônia; e Abdel Fattah al-Sisi, presidente do Egito. É isso aí, mano. Missão cumprida.

– À primeira vista, parece-me uma boa seleção. Gostei. Dou a missão por cumprida. E você indicaria alguém para ser o técnico dessa rapaziada?

– Sim. Se fossem vivos, eu ficaria na dúvida entre o cubano Fidel Castro e a “Dama de Ferro”, Margareth Thatcher. En passant, lembrei-me até do ex-primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi. Sem mais delongas, a indicação que ora faço recai sobre o nome de Daniel Ortega, presidente nicaraguense, pela absurda e profunda mudança de perfil, atualmente comparado ao do ditador Anastasio Somoza, contra quem tanto combateu.

Ele, o botão, silenciou, emudeceu. Recolheu-se à sua função natural. Depois disso, já tentei chamar-lhe a atenção. Debalde. Ele sempre me ignora, me despreza.

Insignes leitoras e leitores, será que vivenciei momentos de desvarios, delírios, insanidade? Não sei. Talvez. Que seja!

Proposta de um botão… Algum de vocês já viu isto? Por favor, não respondam. Silêncio.

 

“A essência das ditaduras não está naquilo que elas fazem para se perpetuar, mas naquilo que a partir de certo momento já não precisam fazer.” (Elio Gaspari, em A ditadura escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002; pág. 232).

 

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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