PROCURANDO SHAKESPEARE – Duarte Dias

 

Era minha primeira vez em Turim, cidade onde Nietzsche perdera o senso.
Corrijo: era, na verdade, minha primeira vez na Itália, terra de Dante e tantos outros. A despeito das citações de primeira hora, não havia ido tão longe para tratar com filósofos ou poetas; estava ali para encontrar um ator, ou melhor, um dramaturgo, mesmo que ele fosse por vezes considerado o maior dos filósofos e poetas. Seu nome: William Shakespeare.

E antes que o leitor pense que eu estava acometido da demência de Nietzsche ou da alucinação de Dante por ir à Itália à procura de algo que se pode obter numa simples busca na internet ou em qualquer livraria que preze o nome, cumpre informá-lo que a coisa era realmente mais grave: o Shakespeare que eu buscava era o Shakespeare real, de carne e osso, o lendário bardo inglês que poucos, bem poucos, sabiam ainda vivo e morando por aqueles lados da velha Itália.
Sim, isso mesmo: o bardo, a despeito da passagem dos séculos, permanecia se alimentando e respirando entre nós, protegido em seu anonimato por uma nebulosa rede de protetores a quem, depois de quase 30 anos de pesquisas incansáveis e quase sempre infrutíferas, dei de encontrar em determinado período da minha vida.

“Não são poucas as madrugadas em que ele tem sido visto no bosque, suas lágrimas contribuindo com a umidade do sereno, seus profundos suspiros acrescentando mais nuvens às nuvens do céu. Mas no instante mesmo em que o sol, que a tudo alegra, principia, nos confins do Oriente, a abrir o cortinado do leito de Aurora, ele, soturno, foge da luz, volta para casa e tranca-se sozinho”, dissera, com pesar profundo na voz solene e grave, o misterioso homem que a mim se apresentara no pequeno chalé onde eu morava, às margens do rio Avon, nas Midlands.

Lembro que era uma tarde de domingo, final de fevereiro, e a temperatura marcava 5ºC. Após tomar uma bebida quente, o estranho, que havia se acomodado na poltrona de lona da sala, seguiu com sua narrativa: “O que me traz aqui, em primeiro lugar, é a natureza do seu trabalho, há muito observada por nós. Apesar de ser um homem dado as frivolidades e vícios do mundo, encontramos alguns pontos que asseguram seu compromisso com as reais grandezas da existência.”

Encarei aquela fala como um elogio, ao tempo em que me assustei com a história de que estava sendo observado por “nós”. Quem eram esses “nós”, afinal? Mas, antes de ceder aos instintos de preservação e partir para o interrogatório do sujeito, resolvi me manter impávido como uma catedral diante das confissões dos fiéis, afinal, depois de seguir tantas pistas falsas ao longo de tantos anos, quem sabe aquele sujeito não teria alguma informação concreta a oferecer?
“A outra coisa, para além do assombro da revelação que ofereço, é a motivação por trás dessa revelação: nosso mestre já não é o mesmo. Passados tantos séculos e reinos, com tantos acontecimentos trágicos e em desacordo com os planos superiores, ele, como já disse antes, tornou-se um ser arredio e solitário, quase uma sombra de sua própria figura”, seguiu o homem, cuja fisionomia aparentava cerca de 70 anos de idade.

“Houve um dia em particular, em que, movido por uma inquietação no espírito, andei até encontrar-me no bosque de plátanos que temos a oeste do lugar onde vivemos. Assim foi que, nessa caminhada, ainda antes do amanhecer, avistei-o. Fui em direção a ele, mas ele havia me visto e escondeu-se na profundidade do bosque. Eu, comparando os desejos dele com os meus próprio desejos – sabendo que a maioria das pessoas, quanto mais sozinhas estão, mais ocupadas ficam -, decidi continuar seguindo o meu estado de espírito e desisti de perseguir o dele. E foi com pesar que deixei de lado quem obviamente me evitou, a mim, seu fiel escudeiro. Lamentavelmente, é assim tem sido nos últimos tempos.”
Um prolongado silêncio se interpôs entre nós depois daquele depoimento. Acometido por súbita e inexplicável mudez, talvez motivada pela surpresa e pelo encantamento com a narrativa do misterioso visitante, nada mais me vinha à mente naquele instante, sequer uma pergunta vagabunda. Ele, mostrando-se alheio ao meu incômodo, prosseguiu com seu relato.

“Obscuro e agourento ainda vai se tornar seu estado de espírito, a menos que um bom conselho consiga afastar as causas de tal humor.”, disse, olhando-me fixamente. “Afirmo isso a despeito de ser ele mesmo conselheiro de seus próprios sentimentos, o que faz com que ele fique sendo para ele mesmo tão sigiloso, e tão misterioso, tão longe de se deixar ouvir e de se deixar descobrir. Se ao menos pudéssemos saber de onde vem sua tristeza, de boa vontade lhe dispensaríamos a cura que estivesse ao nosso alcance. E essa é, de fato, a esperança que me traz aqui: a de que você, um homem dos dias de hoje, mas com parte da alma dos dias de ontem, possa nos ajudar nessa questão.”

Os acontecimentos gerados a partir daquele inusual encontro são de tal forma numerosos e complexos que não caberiam nesse curto relato que ofereço, de maneira que o interessante a dizer é que, poucos meses depois, eu estava em Turim, de onde seguiria, em completo anonimato e segredo, para um lugar que não haviam me dado conhecer.
De forma quase suicida, convencido mais pelo meu desejo do que pela minha certeza, me deixei sedar no hotel onde havia me hospedado, acordando, horas depois, em um local completamente afastado da civilização, reconhecível apenas por se tratar de algum velho castelo medieval cercado por vasta vegetação de grande porte.

O aposento onde me encontrava era amplo e de uma simplicidade franciscana, tendo apenas uma cama e alguns poucos móveis, entre eles uma escrivaninha e um baú ao lado do qual haviam colocado minha bagagem, composta de não mais do que uma mala com roupas e uma mochila que guardava meu laptop e alguns cadernos para anotações que, por sinal, se mostraram vitais; como vim a descobrir depois, o castelo – pelo menos a parte que me foi permitida conhecer – não possuía eletricidade, o que logo inviabilizou o uso do computador, o mesmo acontecendo com o celular.
Estava então completamente isolado das facilidades contemporâneas, o que, num primeiro momento, me pareceu aterrador. Descobriria mais tarde o quão importante tinha sido aquele ato perpetrado por meus anfitriões, de apartar-me do mundo onde habitara até então.

Havia já duas semanas que estava naquele local quando me foi dito que receberia uma visita importante, pelo que deveria acordar ainda mais cedo no dia seguinte, já que a visita viria antes do café da manhã.
Seria ele, Shakespeare em pessoa, que me seria apresentado? Ele, o autor das tantas e eternas obras que elevaram nossa condição de quase bestas à de quase deuses, mesmo que ainda trágicos e pródigos em nossas insuficiências e na nossa inata incapacidade de nos mantermos fiéis aos nossos mais singelos sonhos e desejos?

Seria aquela manhã por vir o momento em que o impossível aconteceria, em que, em pleno século XXI, eu seria confrontado por alguém que, por motivos e meios que fugiam a qualquer fé ou lógica científica, estava vivo após mais de 400 anos desde o seu nascimento?

Acordei quando a enevoada escuridão da madrugada ainda se estendia sobre as copas das grandes árvores que podiam ser vistas da minha janela.
Tratei de me assear rapidamente e pude ouvir, enquanto me vestia, o canto distante de uma miríade de pássaros cujas espécies jamais seria capaz de nominar.
Os primeiros raios da alvorada cortavam timidamente os céus quando ouvi um leve bater na porta do meu quarto. Chegara a hora.
Estava pronto.

 

 

 

 

Duarte Dias

Cineasta, roteirista, curador audiovisual, fotógrafo e compositor, Duarte Dias foi premiado em vários festivais de música no Ceará, tendo lançado seu primeiro álbum autoral, "Jardim do Invento", em fevereiro de 2019. Com premiações em festivais de cinema no Brasil e no exterior, ocupa a cadeira de n° 36 da Academia Cearense de Cinema. Idealizador e diretor geral do FestFilmes - Festival do Audiovisual Luso Afro Brasileiro, e ex Coordenador de Política Audiovisual da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (2016-2019), desempenha, desde 2015, as funções de programador e curador do Cinema do Cineteatro São Luiz e Assessor de Políticas Culturais do Instituto Dragão do Mar (IDM), vinculado a Secult-CE.

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