Precisamos falar do Ceará…Parte 5

Num intervalo de vinte e cinco anos entre 1970 e 1995 deve estar o melhor momento de uma indústria da construção civil na história do desenvolvimento do Ceará. Fortaleza foi nesta época um canteiro de obras. Enormes edifícios nasciam e cresciam rápido, inicialmente nos bairros nobres, depois por toda a cidade. Conjuntos habitacionais também aconteceram para mudar toda a paisagem e formar novos hábitos de como morar e viver.

Uma vocação empreendedora local significativa se revelou e uma enorme quantidade de empregos foi gerada e mantida. Habilidades gerenciais se desenvolveram. Uma geração de jovens com variados níveis de formação conseguiu colocação estável e remuneração decente nos diversos batentes da hierarquia administrativa, enquanto mão de obra de baixa qualificação (mas habilidosa e dedicada) encontrava trabalho.
Como a cadeia de negócios do setor é ampla, em torno desses empreendimentos havia pequenas e médias cerâmicas, pequenas oficinas  metalúrgicas e olarias, produzindo mosaicos, pisos de cerâmica vermelha, telhas, tijolos, artefatos de trabalho etc. Aqui e ali, uma indústria de pisos e azulejos esmaltados e de cimento.
Esse circuito de negócios se expande para serviços de intermediação comercial, de assessoria jurídica, de avaliação, sem falar no espalhamento de pontos comerciais de venda de materiais de construção por todo o território do estado — até porque as pequenas obras,  equenas reformas e consertos nunca param, apenas diminuem seu ritmo durante o inverno e durante crises econômicas agudas.
Importa dizer que este foi um desenvolvimento expressivo e saudável. Todos os elementos (ou quase) eram locais — empresários, gestores, mão de obra, materiais e mercado. Dependiam, é verdade, de sistemas de financiamento de concepção nacional, sobretudo via Caixa Econômica Federal — banqueiros privados não aceitavam os níveis de risco daqueles negócios, naquelas circunstâncias. E não pediam favor fiscal. Até pode parecer que em todo canto houve uma época de expansão acelerada da construção civil, mas o Ceará teve elementos de destaque. Um desses elementos era o fato de que para o mercado local vinham compradores de quase toda a região Norte e boa parte do Nordeste. Um conjunto de atrativos genuinamente cearenses (praias, serras, sertão, hospitalidade, clima etc) se somava a um produto de qualidade e preço competitivos.
E na raiz de tudo, uma boa dose de investimento em educação. A excelência de algumas turmas de Engenharia e Arquitetura da Universidade Federal do Ceará, concludentes nos melhores anos da década de 1960, foi decisiva. Qualquer estudioso da economia local pode citar os nomes das empresas de construção civil e dos empreendedores que as lideravam — tudo isso é história recente.
Na segunda metade dos anos 1990 parece que o fôlego empreendedor e o talento para gerir esgotaram-se, depois de começarem a cair suavemente, em seguida aceleradamente. As empresas e marcas locais daquele tempo são hoje apenas um quadro na parede, com honrosas exceções. O mercado hoje parece mais ocupado por grifes e marcas vindas de fora.
E a construção civil é apenas uma das indústrias que, depois de tanto lutar para conquistar e expandir, depois de tanto investir e colher, o Ceará perdeu. Não se trata de chorar o passado e buscar culpados, trata-se de entender quais foram os erros (se os houve) e aprender e amadurecer com eles.
Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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