Precisamos falar do Ceará…Parte 29

O governo dos Estados Unidos libera regularmente documentos classificados como confidenciais ou secretos sobre suas relações com países periféricos. Na primeira metade dos anos 1990, o jornal Folha de S. Paulo divulgou alguns planos e algumas decisões estratégicas estrangeiras de duas décadas antes, que afetavam o Brasil. Falavam de poder e negócios. Dizia um deles que os EUA deveriam buscar transferir algumas unidades fabris em busca de vantagens, como mão-de-obra barata, impostos mais baixos, regulação mais branda, boa vontade dos governos locais e tolerância com a poluição. O documento avançava na citação de mercados mais (digamos) amigos da América do Sul, de um modo geral, do Brasil em particular. E citava especificamente o Nordeste. Nós. Que “nós” estaríamos receptivos a essas “realocações” e pagaríamos por elas. Que “nós” receberíamos essas novas operações como grandes e importantes conquistas, como “investimentos”, fechando os olhos para os seus eventuais inconvenientes e ônus.

Trinta anos depois aqui estamos no Ceará com usinas termelétricas e siderúrgicas rejeitadas em sociedades mais civilizadas, porque usam combustível poluente e consomem enormes quantidades de água. Além disso, recolhem pouco ou nenhum tributo, empregos são gerados em pequenas quantidades e baixa qualidade, há pouca ou nenhuma transferência de tecnologia e exigem gastos com a infraestrutura necessária. Apesar disso, banda de música e tapete vermelho. Sinal verde para o estrangeiro, americano ou não.

No Ceará, isso está mais ou menos concentrado e atende pelo nome de Complexo Industrial e Portuário do Pecém, que desde os anos 1990 merece a atenção e a prioridade de todos os governantes. Como há pouca transparência sobre os gastos e sobre os investimentos realizados pelo poder público e até sobre os resultados sociais efetivamente alcançados, ainda não se fez um balanço, não há uma medida consistente da relação custo-benefícios. Perguntas: os resultados que temos são os previstos? Estão acima ou abaixo?

É nesse contexto que surge a redentora ideia do Nitrogênio Verde. E já se noticia que 21 protocolos foram firmados, apontando investimentos de cem bilhões de dólares. Pronto, chegamos aos bilhões que explicam e justificam a prioridade e gastos por conta, aconteçam ou não os benefícios.

O Ceará vai lutar para vencer a concorrência com outros estados para oferecer as melhores condições citadas acima. Investimento e produção são eventos positivos em economia. Entretanto, a depender de como são conduzidos, podem beneficiar mais o topo ou a base da pirâmide. Não estão visíveis os dados. A imprensa (parlamento, idem) não tem conseguido captar e divulgar informações com um mínimo de rigor e crítica que as cifras bilionárias recomendariam. Os gestores públicos também não facilitam e fazem uma divulgação tão otimista quanto desidratada, e a repetem, e repetem. A universidade faz cara de paisagem. As entidades empresariais apenas aplaudem.

Não se trata de rejeitar a oportunidade ou condenar o otimismo com o novo e promissor negócio. Trata-se apenas de agir de forma consciente, adulta e responsável. E informar adequadamente o distinto público.E as outras oportunidades e possibilidades nas outras áreas econômicas? O Ceará ainda tem uma pirâmide social cruel, pouca gente no topo, muita gente na base, gente demais abaixo do mínimo aceitável. E pratica políticas que concentram renda no “andar de cima”. O Ceará tem, em números arredondados, 2 por cento do PIB do país, 4 por cento da população e 7 por cento dos miseráveis.

E isso não é apenas uma estatística.

Cito trecho de artigo do professor Rafael Silva (da UFC), postado neste Segunda Opinião*:

“… No Ceará, as pessoas afetadas pela extrema pobreza chegam a 1,4 milhão. Esse número representa 15% da população local. Se comparado ao ano anterior que era 9,3%, o salto é injustificável. O Estado ainda amarga 27,3% com renda inferior até U$ 3,2, enquanto 46,8% não alcançam renda à U$ 5,50. Com isso é correto afirmar que 4.319.84 milhões de cearenses estão afetados por algum nível de pobreza na renda. Uma tragédia!…”

O Cinismo da Pobreza no Brasil

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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