Precisamos falar do Ceará…Parte 25

O que seria a mais modesta e justa expectativa para uma eleição para governador do Ceará? Fácil responder. Que se debatesse o Ceará, seu estágio de desenvolvimento econômico, sua infraestrutura, sua estrutura político-administrativa, a qualidade dos serviços públicos e a distribuição da riqueza (e da pobreza). 

Um eleitor certamente gostaria de saber algumas coisas além do valor do PIB anual total e per capita — geral e por região. Quanto o estado arrecada de impostos e quem os paga. Quantos servidores públicos tem (quantos concursados, quantos nomeados, quantos terceirizados, por área, por órgão), quanto gasta com consultorias, assessorias, serviços de terceiros (locais, nacionais ou estrangeiros), quanto concede de incentivo fiscal, a quem e em troca do que. Uma peça didática poderia explicar em grandes números (em valores reais) o destino do dinheiro graúdo do orçamento dos últimos anos. Se algo foi investido, quanto e onde, quais eram os resultados esperados e quais os obtidos. 

Como terá sido o desempenho do estado se comparado com, por exemplo, o Piauí? Ou o Maranhão?

A julgar pelos grandes números de desemprego, pobreza e extrema pobreza, uma prestação de contas cairia bem. Evitaria incompreensão e suspeitas. É difícil achar esses dados e essas informações. Se um pobre mortal buscar esses esclarecimentos dificilmente conseguirá achar. 

Gastos públicos com Pessoal, por exemplo. É possível acessar uma lista servidor por servidor, com nome completo e salário, uma lista sem fim, sem lógica e sem noção, inútil. Sem sub-totais, sem divisão por área ou por órgão, sem médias salariais etc. Parece um portal da desinformação. Comparativos, difícil achar. Gráficos inteligentes, também. Entre o eleitor comum no Portal da Transparência e faça uma tentativa de saber porque o Ceará é assim e tente não se perder.

Isso foi dito para que o leitor entenda o quanto é enorme a carência de informação sobre o dinheiro público e sobre o desempenho dos governantes. O Palácio dos seguidos governos faz cara de paisagem, a secretaria da Fazenda finge que isso não é com ela. O Parlamento se omite. A imprensa se cala. O Portal da Transparência não atende bem, não é amigável.

Sem “seguir o dinheiro” ninguém entende o que está de fato acontecendo entra ano, sai ano, entra governador, sai governador. E o atraso avançando.

Como é tempo de eleição, espera-se prestação de contas, relatório de resultados econômicos e sociais. Espera-se.

Então, chegamos cheios de expectativas na leitura das páginas 4 e 5 da edição deste sábado (10.09.2022) do jornal O Povo, matéria assinada pela jornalista Karyne Lane, cujo título é A ECONOMIA É A PRIORIDADE DOS CANDIDATOS AO GOVERNO. Lá estão 12 quadros informativos com as propostas dos 3 candidatos com chances a 3 semanas da votação. Trazem os seguintes temas — emprego e renda, desenvolvimento sustentável, desenvolvimento regional, indústria e comércio, agricultura, turismo, economia do mar, economia criativa, tecnologia e inovação, energias renováveis, crédito e investimento. Capitão Wagner, Elmano de Freitas e Roberto Cláudio.

Espera-se um diagnóstico, espera-se tanto. É tanta esperança da parte de tanta gente…

Depois de ler e reler algumas vezes os projetos prioritários dos 3 candidatos, entre a surpresa e a frustração, eis o que se pode dizer:

1. Os textos não parecem ter sido escritos pelos candidatos, não se vê o rosto ou o estilo ou o discurso de nenhum deles;
2. Tudo é prioritário, ou seja, nada é prioritário;
3. As propostas são apresentadas sem um único número, uma meta com prazo, um objetivo a ser alcançado;
4. Os textos vão ficando parecidos uns com os outros, parecem embromação, algo como lero-lero ou trololó;
5. Tão insípidos, inodoros e incolores, vazios de compromisso, os textos, se acidentalmente misturados, ninguém saberá mais dizer qual texto pertence a qual candidato.

O problema certamente não é da jornalista. Do jornal, só em parte. De novo, governo, parlamento, partidos e candidatos, todos aderem a este comportamento esquisito, injustificável. Omisso.

Bem, a eleição chegou e a mais mínima expectativa de prática democrática consciente (tratar o cidadão com respeito) não será atendida.

Como se a gestão pública pudesse agir como a iniciativa privada, e dizer que o segredo é a alma do negócio.

Que negócio é esse?

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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