PRECISAMOS FALAR DO CEARÁ…Parte 21

Da prateleira alta da pequena e velha estante, um livro se joga em meus braços. Um reencontro após quase trinta anos, ele relata eventos ocorridos em 1993. Uma peça gráfica belíssima. Meus olhos correm para a ficha catalográfica e lá leio os nomes de profissionais do mais alto nível. Evandro Abreu, na direção de arte. Luís Sérgio Santos, na assessoria técnica. Ítalo Araújo, composição. Revisão de texto por Ana Márcia Diógenes. Ilustração, Klevisson. Revisão, Wilson Pereira. 211 páginas. Edição da Fundação Democrito Rocha, 1994. Nome do livro: VISÕES DO DESENVOLVIMENTO – O PENSAMENTO EMPRESARIAL DO CEARÁ. Não há um autor, o livro tem protagonistas, já se explica.

Dou um Google e não encontro nada sobre a obra. Deve ser problema do Google. Vou ao site da Fundação Demócrito Rocha, e também nada. Nunca o vi em livraria. Estranho. Talvez apenas mais um livro sobre o Ceará cuidadosamente esquecido.

Leio o livro e compartilho trechos com vocês. Afinal, precisamos falar do Ceará.

Antes uma rápida explicação. O evento de que trata o livro foi um ciclo de palestras e debates com foco no desenvolvimento do Ceará. Os protagonistas palestrantes eram os presidentes das mais fortes, influentes e tradicionais entidades empresariais: Federação das Indústrias (FIEC), Associação Comercial, FACIC, Associação dos Jovens Empresários, Assecon, Bolsa de Valores, Associação de Bancos, CDL, CIC e Federação da Agricultura. Eles abrem cada um dos dez capítulos contando a história das entidade (um ponto alto da publicação) e em seguida apresentam ideias, visões e propostas concretas, típicas do pragmatismo que lhes caracteriza. Debatedores, também protagonistas: empresários, executivos, jornalistas, banqueiros, gestores públicos e professores e estudantes universitários. São dez eventos de duas horas e meia cada, e o livro identifica e transcreve fielmente tudo o que foi dito, e por quem.

Na abertura do livro, o jornalista Demócrito Dummar, ao introduzir o tema do desenvolvimento do Ceará, explica: “…o que é escasso no mundo contemporâneo não é o trabalho, não é o capital, não é a terra, mas pura e simplesmente a inteligência organizada — a união, o espírito moderno do empresariado cearense vai fazer de todos contemporâneos do futuro”. Lembra John K. Galbraith.

Paulo Petrola, então reitor da Universidade Estadual do Ceará: “Aqui estão reunidos os dirigentes das 10 mais importantes organizações empresariais de nossa terra discutindo com executivos, professores e estudantes universitários e outros segmentos da sociedade suas visões do presente e seus sonhos sobre o futuro. Isso é fato singular, pois não há precedentes na história das ideias, pelo menos entre nós”.

Sim, o livro é surpreendente, único. Sua leitura tem significado e sabor especial, passadas três décadas. Uma luz se acende quando se juntam a universidade (UECE), a imprensa (Fundação Demócrito Rocha) e uma entidade de executivos (IBEF). Ler o livro ajuda a entender como o Ceará se desenvolve e aponta que muito mais do que a maioria pouco participa da riqueza, e continua pobre.

Raimundo Viana, da Facic, defende a interiorização do desenvolvimento, criando-se núcleos regionais para explorar vocações locais: “…em torno de Fortaleza nós temos 600.000 favelados. Eu costumo dizer que qualquer líder, com um mínimo de respeitabilidade e um pouco de carisma, quebra Fortaleza em 10 minutos. Não tem guarda pretoriana que dê jeito, é uma pressão muito grande…O Ceará precisa de um salto qualitativo, é o pecado social coletivo…depois da terceira geração de um camponês que vem sendo abandonado, que perde toda perspectiva, tangido por essa bomba de sucção de recursos que é Fortaleza, o que acontece? …O interior deixou de produzir… A longo prazo tanto faz se o cidadão está na primeira classe ou na terceira classe. Se o navio fizer água e afundar…tivemos o Tasso como homem que buscou equilíbrio, e o Ciro que manteve o equilíbrio, e agora começa o processo de romper ou de mudar esse quadro —uma revolução no interior do Ceará, dos costumes, da cultura…Faltou, eu diria, no tripé produtor, a sensibilidade do industrial e ação estratégica do governo, porque, com esse neoliberalismo besta, a gente acha que o governo tem que se omitir, às vezes o governo tem que intervir pra valer…”

João Porto Guimarães, da Associação Comercial do Ceará: “Aqui em Fortaleza nós estamos ilhados. Temos 200 favelas em volta de Fortaleza, nós temos 600.000 pessoas carentes em Fortaleza, 15.000 meninos desassistidos, não é menino de rua não, porque tem pai e mãe… no próximo ano não tem castanha, estão dizendo que deu o manhoso no cajueiro — manhoso é um tipo de Bicudo (do algodão) que agora deu no cajueiro, em fevereiro, ele come as folhas, quando é para aflorar o caju, saindo com folhas novas, o resultado é uma catástrofe… eu desconheço a política comercial, desconheço a política industrial e desconheço a política agrícola deste estado…”

Pedro Brito, presidente do BEC – banco público estadual vendido ao Bradesco anos depois: “Quando o o Raimundo Viana coloca que se deve incentivar a produção de subsistência, sou contra isso, porque acho que seria eternizar a pobreza, na medida em que pobreza e a necessidade não geram demanda. O que gera demanda é a produção, mais investimento, mais renda. Na medida em que se incentiva a cultura de subsistência, sem os cuidados necessários com produtividade e tecnologia adequada para produzir aquilo que se tem vocação, estamos eternizando a pobreza, e não vamos romper o ciclo da pobreza se essa for a estratégia. Outra coisa que a gente precisa colocar com bastante cuidado é manutenção do homem no campo. Isso pode parecer muito com discurso de político, de político do passado, caduco, que, numa retórica de ganhar votos, dizia com facilidade ‘vamos manter o homem no campo’. Ora, essa é uma tendência inversa do mundo inteiro.”

Fernando Cirino, Federação das Indústrias, Fiec: “Pacto de Cooperação é um instrumento precioso que tem que ser preservado. Muito mais do que ele, sem que isso o diminua, é a consolidação dessa mentalidade participativa que vai fazer com que a sociedade, ao participar, encontre seu caminho. A solução dos problemas do Ceará está na mão dos cearenses, os que estão exercendo cargos são temporários. A gente tem que estar atento para manter esse clima. Isso é que é fundamental . O crescimento será uma consequência natural, a sociedade não é burra. Temos é que priorizar esse clima de união em torno de ideias…”

“Os companheiros (empresários) lembram bem a última trombada do Governo com o pessoal da castanha (Raimundo Viana).

Fred Saboia, presidente do CIC: “Cearápar, acho essa ideia formidável, a oportunidade de levantar a economia do Ceará. Nós esbarramos na mesma dificuldade de recursos, do empresariado injetar a parte que lhe cabe (Fred Saboya).

Fernando Cirino, presidente da Fiec: “Com relação ao Pacto (de Cooperação), na hora que ele virar bandeira de alguém, ele se acaba.

Douglas Santos, da AJE: “A gente se orgulha de fazer parte, em função dessa nova administração do Tasso e do Ciro. Mas, apesar disso nós estamos disputando com o Piauí o primeiro lugar em analfabetismo. Tem alguma coisa errada aí.

Cláudio Ferreira Lima, economista, ex-secretário de Planejamento: “… eu sou estudioso do algodão: realmente 1973 foi a última grande produção de algodão no Ceará, com 342.310 toneladas.”

Raimundo Padilha, presidente da Bolsa de Valores: “Sugiro a retomada do balcão de projetos. O BNB teve a ação de projetos, a Universidade teve balcão de projetos. Na minha consultoria tenho demanda de empresários querendo investir, e não sei onde.

José Afonso Sancho, presidente da Abance: “O caminho do Ceará é a indústria, em particular a indústria do turismo. Em 92 e 93 passaram por aqui 400 mil turistas. É a indústria sem chaminé, e o Ceará tem tudo o que o turista quer.

Professor Cléber Aquino, da USP: “Na Guerra de Canudos, a bandeira era a justiça social; na luta messiânica de Padre Cícero, também. Em 64, João Goulart falava em reformas de base. Collor ganhou a eleição com a mesma bandeira (descamisados). No Ceará temos essa nova política capitaneada por Ciro e Tasso. Essa justiça social é praticamente inexistente…há um reduzidíssimo grupo que vive muito bem e o resto das pessoas numa miséria declarada.

Torres de Melo, da federação da agricultura: “O sistema faliu, e por isso não temos mais uma classe média rural.

Pio Rodrigues Neto, presidente da CDL: “Eu sou absolutamente a favor dessa campanha do IBEF (transparência das contas públicas). Não vejo por que o cidadão que está num cargo público se nega a prestar contas daquilo que fez (com o dinheiro). Afinal, aquele dinheiro não é dele, é do Estado, é da sociedade. Sou absolutamente a favor que o governo abra as contas e mostre pra sociedade.

Ivan Ary , da Assecon: “…o importante…é fazer com que a sociedade esteja a toda hora trocando energia com a universidade, e a universidade com a sociedade…

Os eventos e a edição do livro foram patrocinados pelo BEC. Na orelha da publicação, diz Pedro Brito, seu presidente: “A leitura …fortalece a convicção de que …é preciso formular políticas adequadas para a superação dos desequilíbrios econômicos que têm levado parcela significativa do nosso povo, ao longo de muitas décadas, a condições extremas de pobreza e a um ciclo insuportável de incertezas, sofrimentos e dores…o livro funciona como um alerta aos dirigentes, tanto políticos como empresariais…”

PS: São protagonistas no livro como Palestrantes: Raimundo Viana, Pio Rodrigues Neto, Fred Saboya, José Ramos Torres de Melo, Fernando Cirino, Douglas Santos, Ivan Ary, Raimundo Padilha, José Afonso Sancho e João Porto Guimarães e

Como Debatedores: Gonzaga Vale, Luís Eduardo Barros, Osterne Feitosa, Sérgio Silveira Melo, Osvaldo Araújo, Ednilton Soares, Cláudio Ferreira Lima, Auto Filho, Cléber Aquino, Julian Quintana, Adriano Torquato, Pedro Brito, Lima Matos, João Parente, Paulo Petrola, Antonieta Bezerra, Sérgio Forti, Célio Avelino, Acúrcio Alencar, Arquimedes (jornalista) e Salmito (estudante).

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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