Precisamos falar do Ceará…Parte 19

Nos anos 1990 aconteceram importantes mudanças no ambiente do futebol. Na Inglaterra, o destaque era para o clube Manchester United, que viveu um incremento expressivo nos resultados positivos dentro e fora do campo. A imprensa esportiva noticiava conquistas seguidas dos “Reds” e o jornalismo econômico registrava o tilintar de moedas no caixa, cifrões animadores nos balanços contábeis, uma equipe gestora competente e motivada. Era uma equipe se transformando no que se definia com um novo conceito, o “futebol empresa”.

Abaixo dos trópicos, especificamente em São Paulo, o Palmeiras acumulava prestígio, vencia seguidos campeonatos (11 títulos em 9 temporadas) e encantava seus torcedores. O “Verdão” fez um acordo com uma enorme empresa italiana de alimentos, a Parmalat, que aportou recursos ao clube e ajudou a implantar uma gestão profissional, em troca de uso recíproco das duas marcas, uma fortalecendo a outra.

O futebol arrastava multidões para os estádios e mantinha corações apaixonados. Mas, regra geral, mesmo as grandes, poderosas e tradicionais equipes eram mal geridas, muitas delas associações esportivas sem fins lucrativos. Por essas e outras limitações, quase todas operavam e tinham desempenho abaixo de seus potenciais.

Mas, como se costuma dizer, “o dinheiro sempre faz a curva mais inteligente”. Banqueiros e consultores espertos perceberam a oportunidade que existia em torno daquela paixão avassaladora, daquela fidelidade impressionante a uma camisa, daquela montanha russa de emoções que acompanham pessoas por uma vida inteira.

Na virada de 1998 para 1999, a Bolsa de Valores Regional Norte-Nordeste, com sede no Ceará, comandada pelo economista e professor Raimundo Padilha, anunciou que realizaria um seminário para reunir todos agentes que atuavam diretamente no futebol do estado, para discutir problemas, ideias e estratégias para o futuro. O estranhamento inicial foi se transformando em curiosidade, esta em interesse, este em engajamento, este em um certo entusiasmo comedido, pés no chão, olho na bola. Raimundo Padilha aglutinou gente séria, inspirou confiança. E por dois dias inteiros, num modesto hotel na Praia de Iracema, dezenas de pessoas que levavam futebol a sério se sentiram ouvidas. E todos falaram. Nome do evento: Futebol S/A.

Dias depois do evento, o governador do estado chama o presidente da Bolsa para uma conversa, comenta o evento, valoriza a iniciativa e diz que pode apoiar. E apoia de forma concreta. O evento começa a desdobrar-se…e assim continuou com pequenos, médios e grandes avanços.

O desenvolvimento é um processo humano, antes de tudo. A cultura tem o poder de atrair e encantar as pessoas, o esporte tem força sobre corações e mentes, e a união de pessoas em formas civilizadas de disputa tem enorme potencial econômico. Com boas regras e boa gestão, em competição e em colaboração, a sociedade pode ver disputas produzirem desenvolvimento e coesão social.

Nestes dias correntes, o futebol cearense vive brilhante momento. Toda a comunidade envolvida com este esporte aprendeu, amadureceu, avançou na técnica, na gestão, na infraestrutura, na regulação, nos serviços relacionados. E os resultados apareceram, dentro e fora das arenas.

Não houve nenhum gênio individual atuando, não houve nenhum projeto especialmente visionário, nenhuma mágica ou efeitos especiais, não foram necessários “bilhões de reais” de investidores daqui ou dacolá.

Há um potencial, existe a vocação, o poder público faz a sua parte indutora, os bons gestores são atraídos e motivados, os investimentos vão encontrando a oportunidade e o talento encontra o seu palco. Quebrada a inércia de estagnação, nasce uma inércia de movimento, de expansão. E pessoas e grupos contaminam (no melhor sentido) uns aos outros.

Apenas o futebol pode chegar a um por cento do produto interno bruto, criando atividade e renda para gestores, técnicos, preparadores físicos, fisioterapeutas, médicos, massagistas, nutricionistas, psicólogos, na manutenção das arenas e dos centros de treinamento…Por último, mas não menos importante, oferecendo hábitos saudáveis, esperança e oportunidade para jovens num momento decisivo de suas vidas.

Aconteceu no futebol. Vocês sabem onde mais pode acontecer igual ou parecido? É grande a lista.

Melhor perguntar de outra maneira. Onde é proibido semear desenvolvimento e coesão social de forma honesta e responsável?

PS: vale a pena ver e ouvir o que os economistas Lauro Chaves Neto e Ricardo Coimbra (com outros ilustres expositores) vão dizer sobre o assunto no FUTFORUM 2022, nesta sexta, 25, em sua terceira edição.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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