Precisamos falar do Ceará… Parte 15

Precisamos falar de cultura, juventude e oportunidade na perspectiva (pobre, mas com realismo otimista) de um economista.

Cinema, teatro, música, dança, pintura, escultura, literatura, circo, gastronomia, folclore, renda, labirinto, humor, desenho, ilustração, animação, fotografia, artes gráficas, design, decoração, arquitetura, mímica, mágica, artefatos, enfeites e utensílios (em cerâmica, barro, ferro, madeira, vidro, papel, tecido, couro, peles, corda, cipó…) folclore, elementos de religião, história, ideias, eventos, performances, feiras, exposições, shows…

A área de cultura é um campo de imenso potencial para a ação do poder público indutor de desenvolvimento, destaque para governador e prefeitos. O potencial é gigantesco, quase infinito. Oportunidades de trabalho e geração de renda que se oferecem, se desdobram e entrecruzam-se em quantidade e com qualidade podem ser promovidas de forma rápida e a baixo custo. Os investimentos podem ser dirigidos a qualquer região, não dependem de estruturas pesadas ou onerosas, podem atender pessoas dos mais variados perfis. É possível fazer programas abertos a todos ou focados em grupos específicos. Os resultados são quase imediatos — já há protocolos eficazes para planejar, executar e avaliar projetos, programas e políticas de tipos, tamanhos e naturezas diversas.

Meritocracia e empreendedorismo são palavras que também podem ser aplicáveis a iniciativas do setor. Talvez até de maneira mais adequada, posto que, além de haver real criação e produção para atender inesgotáveis carências e demandas da população, a competição na área tende ser mais justa, a partir do planejamento da política pública que a conduz.

Sim, o poder público é decisivo. Mas não é excludente da iniciativa privada, que deve ser estimulada e mobilizada de forma eficaz. O que não cabe é jogar ao mercado uma responsabilidade que não é dele ou tirar do poder público (principalmente estadual, mas também municipal e federal) uma função que é dele, assim como não se pode deixar a cultura sujeita à avaliação exclusiva do critério financeiro.

Como costumam agir prefeitos e governadores: dizem que a cultura é prioridade. Entretanto, regra geral, ficam no discurso. No orçamento, ela vai para a última linha, e se coloca entre o zero e o um por cento em valor. Daí vai-se levando e empurrando o calendário até a próxima eleição. E o tro-lo-ló começa de novo na busca do voto.

Caberia perguntar: por que não há uma ampla e permanente política cultural para oferecer oportunidades aos jovens de cada cidade, de cada bairro ou de cada escola? Anote: são centenas de milhares de jovens desempregados. Se já existe essa política, a pergunta óbvia é por que não dobrar o tamanho, ou triplicar, ou decuplicar? O momento e as circunstâncias só dão cores fortes a uma evidente, urgente e dramática necessidade — está passando da “hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”, que se apresente a oportunidade a todos eles!

Investir nessa área não é só uma obrigação que se impõe, dá retorno e lucro. Permitam um exemplo de iniciativa que, para simplificar e fazer uma homenagem, creditarei a uma só pessoa. As iniciativas e as peripécias de Augusto Pontes (como a Massafeira) mobilizaram jovens talentos e ajudaram a fazer aflorar vocações que repercutem e se desdobram até hoje, mais de quatro décadas depois. Não, não é só causa e efeito, como num jogo de sinuca. É mais, são ondas a serem surfadas, e elas vão se desdobrando. Como não são sólidas, essas coisas não se desmancham no ar, não se perdem no tempo.

Os bens de natureza cultural também precisam de mercado, só que numa escala bem menor, com uma pressão bem menor, com condicionamento menor. E sem competição frontal. A comunidade toda é cliente potencial. E alguns bens culturais são eternos, ou têm uma vida longa para encontrar mercado, ou reconhecimento.

E com as redes eletrônicas (ditas sociais) o mercado agora não tem cancelas, portas ou janelas, nem fronteiras tradicionais. O mundo todo está bem ali. Bem, pode não ser fácil (não é) criar centenas de milhares de oportunidades, é apenas possível.

É desumano o governante não agir para resolver (ou ao menos enfrentar) o tédio e a falta de perspectiva da juventude, é cruel deixar essa moçada caminhar rumo a abismos. Está logo ali um ponto de não retorno para essa geração.

Parece nítido que a economia regional tradicional não tem respostas confiáveis para a questão que alcança toda a base da pirâmide social. Nas últimas décadas foi, nessa dimensão mais horizontal, inútil esperar pela refinaria, pela siderúrgica, pela ZPE…agora são os hub’s e o hidrogênio verde…

Ok manter a esperança e o otimismo, faz parte. Mas que tal oferecer algo mais concreto e imediato a quem não tem reservas e não pode esperar?

A cultura não consegue resolver o problema inteiro?

Que tal, então, usar em paralelo e de forma complementar uma ampla política pública para ações sociais do terceiro setor, via pequenas, médias e grandes ONGs e coletivos informais? O que se diz acima também vale nesta outra área.

Ainda não é o bastante?

Que tal, então, criar uma terceira política pública abrangente e massiva nos esportes coletivos amadores?

Aos governantes que administram o destino dos bilhões de reais a cada ano cabe responder aos desafios de seu tempo, que os antecessores não evitaram e não enfrentaram. A resposta deve ser dirigida à população, através de atos concretos.

Pensando bem, aí estão três áreas em que os bilionários também podem, se quiserem, seguindo a boa tradição do mundo mais desenvolvido, “mostrar seu valor”.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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