Precisamos falar do Ceará… Parte 12

A Inglaterra queria ser a única nação industrial da Europa. Tinha essa ideia egoísta desde o século XVII, uns bons cento e cinquenta anos antes da invenção da máquina a vapor e da consequente revolução industrial. Estava sempre à frente dos países vizinhos, com suas manufaturas, e fazia tudo para desestimular que as outras nações lhe seguissem os passos, que se mirassem no seu bem sucedido caminho. Por exemplo, os ingleses proibiam suas colônias de criarem suas próprias manufaturas. Até o chá exigiam que consumissem apenas o inglês. Tributavam importações, manipulavam a taxa de câmbio e fechavam seus portos. Por séculos usaram discursos falsamente científicos para convencer outros países a ficarem cada um com suas vocações (agricultura, mineração). Se e quando necessário defendia seu argumento com a força de seus exércitos.

Desde aqueles tempos já se sabia que que só com Indústria há desenvolvimento. Com agricultura só há subdesenvolvimento. A agricultura só evolui se sua produção for industrializada. A indústria diferencia produtos e dá flexibilidade aos preços de venda para cima e dos custos para baixo (ganhos em escala). Com câmbio e tarifas administradas a nação protege seus interesses, suas indústrias, por décadas. O nome disso é concorrência imperfeita e rendimentos crescentes. Interesse nacional.Isso gera prosperidade.

Com agricultura e mineração, com commodities, não há flexibilidade, a concorrência é perfeita e os rendimentos são decrescentes. Perde-se com a escala. Isso é contrário ao interesse nacional e não gera desenvolvimento.

Assim, o desenvolvimento de muitos países foi cuidadosamente retardado em décadas ou séculos, no interesse de países mais avançados. A Ciência Econômica ofereceu a base teórica para justificar o atraso e até para tornar aceitável a exploração das colônias. No séculos XVIII e XIX Adam Smith e David Ricardo e as ideias de seus livros são usadas em benefício de quem partiu na frente, industrializou-se e desenvolveu-se. E em prejuízo de quem não se industrializou, e ficou para trás.

Escapar dessa armadilha, desse discurso, nunca foi fácil. E ao longo da história veremos países escandinavos rompendo com o discurso inglês. Também a Alemanha, também os Estados Unidos e depois os asiáticos. Romperam o discurso e se desenvolveram.

A América do Sul (melhor nem falar da África, coitada) ficou fora da onda de desenvolvimento, suas elites compuseram-se com os colonizadores de um modo geral, embora com espasmos políticos mais esclarecidos. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck valem como exemplos desses clarões no calendário histórico do atraso. De 1950 a 1970 o Brasil cresceu como nunca, avançando rumo à industrialização. Na América do Sul e no Brasil, entretanto, apesar desses soluços, as resoluções foram por continuar pobres.

O subdesenvolvimento e o atraso são escolhas e decisões conscientes. E esses caminhos são feitos por forças e lideranças locais. Todo país ou região tem elites que influenciam e controlam as estratégias.

“Os países ricos se especializaram em se tornar cada vez mais ricos e os países pobres são experts em continuar pobres.” (Leia o livro “Como os países ricos ficaram ricos e por que os países pobres continuam pobres”, de Erik S. Reinert). Vale o mesmo para regiões.

As informações históricas mostram exatamente isso. O discurso do país avançado faz questão de escamotear a história e repetir chavões para assegurar a manutenção dessa secular inércia. E vive a repetir e a evangelizar sobre o comércio livre, a globalização, vantagens comparativas, o mercado tudo resolve…apontando o dedo para o futuro, sempre para o futuro, que, como a linha do horizonte, nunca chega.

No contexto mundial, o Brasil escolheu o atraso. No contexto nacional, o Ceará optou pelo subdesenvolvimento, quando não avançou na indústria, quando manteve, de forma fanática e obtusa, a mesma escolha estratégica por séculos, embalada em manobras diversionistas, falsas luzes no fim do túnel. A pobreza se consolida e se eterniza. A pobreza se administra também, e isso exige habilidades e competências específicas, como gerir o descasamento permanente entre poder político e interesse da maioria.

Falando só da vocação natural escandalosamente evidente, a prática da estratégia da pobreza se dá à vista de todos. O Ceará teve todas as chances de ter uma indústria variada, apta a arrancar sua economia do atraso. Algodão, cera de carnaúba, peles e couros de caprinos e bovinos, caju e castanha, café, cauda de lagosta e filé de peixes nobres, pescado em geral, essas oportunidades que a natureza ofereceu estão nos livros de história quase todas por mais de um século, frequentando o discurso político e os relatórios de governos que, concretamente, nada fizeram ou fazem. Até parece que alguém lhes amarra as mãos.

O que aconteceu merece ser sabido, compreendido. O que se fez e o que não se fez. Quase todos esses negócios estiveram com seu imenso potencial à vista da sociedade, quase todos eles iniciaram algum processo de industrialização. Por exemplo, o café foi largamente produzido nas serras, no início do século passado foram importados os primeiros equipamentos para uma iniciante indústria.

Convém saber como todos esses processos foram interrompidos e o que lhes tomou o lugar, a atenção e os recursos.

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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