Precisamos falar do Ceará…Parte 10

Quem quer que tenha, pelo menos uma vez na vida, molhado o corpo nas ondas da Beira-mar, sentirá uma vibração especial ao ver os quadros de Raimundo Cela ou as fotografias de Chico Albuquerque. O preto e o branco e as outras cores das jangadas, do jogo das águas e o movimento dos pescadores prendem o olhar, tocam a sensibilidade, ganham vida, fazem pensar.

Distinguido com a oportunidade de conversar várias vezes com o genial fotógrafo, mesmo assim não ousei perguntar como tirava tantas mensagens de um simples click, como fazia aquela mágica. Se perguntasse, a resposta eloquente seria talvez dada através de um olhar ou de um sorriso, fotograficamente.

A aventura de avançar mar adentro, perder-se da praia, entrar pela noite e se sentir senhor de si, do mar, das estrelas e do mundo em pouco mais de vinte metros quadrados sempre me pareceu muito maior do que os interesses que poderiam estar envolvidos.

Mas, economista não sossega enquanto não complica e embaralha a simplicidade das coisas. E começam as quantificações. São 272 quilômetros de litoral, 220 quilômetros de águas territoriais brasileiras, multiplique um número pelo outro, imagine a quantidade das espécies, multiplique de novo, pense que tudo isso se pode se renovar naturalmente (se ninguém age como predador) e que a demanda não vai parar de crescer…E então você vislumbra uma riqueza infinita, imediata, alcançável e sustentável.

A natureza e os deuses das águas fazem suas oferendas, entregam ao Ceará um mar de oportunidades.

As imagens do mar, da jangada e dos jangadeiros, quem sabe, inspiraram líderes empreendedores. E pessoas e empresas se lançaram, e prosperaram. O Ceará abriu uma estrada de desenvolvimento no mar, estreita, mas exemplar.

No meio dos anos cinquenta descobriu-se o negócio da lagosta.

Nos anos 1970 a cauda de lagosta estava no topo da pauta de exportações do Ceará, muitas dezenas de milhões de dólares todo ano. Aquele teria sido o momento certo para criar e consolidar um complexo industrial alimentício a partir dos produtos do mar (também filé de pargo, garoupa e dourado, camarão, atum, tubarões…).

A janela de oportunidades estava aberta, escancarada. Era a hora da visão de futuro e da ação política.

Esse avanço não aconteceu.

O que começou perto da virada para os anos 1960 e se expandiu nos anos 1970 já desacelerava em termos relativos nos anos 1990. Mesmo assim ainda havia quase três dezenas de empresas, mais de duas centenas de barcos e lanchas de porte médio razoavelmente equipados (ecossondas, guinchos mecânicos, rádio…), em terra o beneficiamento e câmaras frigoríficas, estimados 12 mil empregos estáveis (iscador, despescador, arrumador, geleiro, intermediário e puxador, só na captura) com 1,25 a 6 salários mínimos mensais, trabalhos e serviços bem pagos e participação de mais de dez por cento na pauta de exportação do estado.

A vocação comercial mais pura do cearense empreendedor vem de longe no tempo e um cliente decisivo sempre foi o estrangeiro. Nem tínhamos bem um porto e já exportávamos. Vocação, tecnologia, mercado e mão de obra, estava tudo lá.

Certamente houve graves erros, falhas e todo tipo de incompletude própria da atividade humana. Entretanto, importa registrar que aqueles pioneiros mostraram que era possível, apontaram o caminho e exemplarmente o trilharam.

Havia uma cadeia de valor dentro das empresas, havia mercado comprador, havia um sistema de financiamento ágil, acessível, de custos e prazos adequados, sobretudo para quem vendia em dólares.

Havia uma plataforma segura de onde deveriam brotar empresas industriais do ramo alimentício. Os primeiros passos foram dados. Os próximos, se tivessem acontecido, teriam sido decisivos, ou seja, irreversíveis.

Sem processo industrial não há rendimentos crescentes e sustentáveis, não há combate frontal à pobreza. O Ceará chegou perto, não olhou direito, não avaliou do jeito mais ousado.

Pois é. Lembro de um governador que proibiu seus assessores e toda a máquina administrativa de usar a jangada como símbolo cearense e jangadeiros como referência. A ordem foi obedecida e produziu seus efeitos.

Hora de olhar de novo, um olhar diferente.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.