Precisamos falar de jornalismo…

Sou filho e sobrinho de jornalista, e trabalhei 15 anos numa empresa jornalística, na área administrativa. Tenho amigos jornalistas e junto com alguns, com apoio deles, desenvolvo atividades que têm conexão com o jornalismo (atividades não-comerciais, como o Mídia Crítica .org e Segunda Opinião .jor .br) e também escrevi dois livros – um sobre uma experiência como gestor de empresa jornalística e outro contando a história de vida do meu pai.

Assim, carrego um pouco de jornalismo no meu sangue e cultivo desde a infância admiração por essa atividade (fui alfabetizado nas páginas de jornal, posso dizer), que busco temperar com visão crítica e propositiva.

Uma ação recentíssima da Associação Cearense de Imprensa (ACI) e do Instituto Durval Aires (IDA) me atraiu: um simples, tocante e breve documentário sobre o jornalista Durval Aires, de quem ando lendo livros, recomendações de Auto Filho e Dimas Macedo.

Lembrei, depois de ver o filme, do “Intimorata”, extensa pesquisa que virou importante livro sobre a longa história do jornal O Estado. Trabalho de fôlego do doublé de jornalista e historiador Luís Sérgio Santos. E nas redes digitais, vejo Raymundo Netto comentar o livro em tudo único “Memória de um Jornal”, do José Raymundo Costa, o jornal O Povo falando na primeira pessoa.

Como já fui membro da ACI no passado, ponho-me à vontade para dar uma sugestão mais ou menos óbvia a esta entidade que se aproxima do centenário: criar um programa de pesquisa que permita contar a real história do jornalismo. O jornalismo mais do que contou a história do Ceará. É hora de virar o espelho, começando pelo jornal impresso, mas assegurando uma leitura da atividade por pontos de vista diversos — do dono do jornal, do gestor e do profissional da redação — com o cuidado de se assegurar a independência do pesquisador, base para uma obra realista, crítica. No caso do jornalista profissional, não se trata de festejá-lo, mas de mostrar seu trabalho (talvez em forma de antologia). A visão do dono é decisiva, claro, e o gestor tem muito o que dizer sobre aspectos que fogem ao domínio dos dois atores centrais.

Biografias podem ser o modelo básico. Há pessoas mais qualificadas do que eu para sugerir nomes, mas me atrevo a citar o próprio Durval Aires, Jáder de Carvalho, Odalves Lima, José Afonso Sancho, Demócrito Dummar e José Raymundo Costa. Jornalistas sérios e experientes para assumir esse desafio, não há dúvidas, existem e até podem estar disponíveis e motivados. Além da ACI, o sindicato pode colaborar nessa articulação. O poder público tem mecanismos adequados para apoiar este tipo de empreendimento, mas nada impede a participação da iniciativa privada, que pode ser mais ágil.

Há mil e uma razões e justificativas para uma iniciativa deste tipo, mas uma basta: é necessária. O momento e as circunstâncias mais que recomendam, fazem dela uma espécie de urgência e resistência quando tudo parece estar sendo desmontado.

Por quinze outros anos fui professor universitário para disciplinas de administração em cursos de comunicação (jornalismo e publicidade). Alunos e alunas brilhavam os olhos quando os exemplos e “cases” tratavam direta ou indiretamente de jornalismo. A comunicação, de um modo geral, o jornalismo, em particular, estas duas atividades sempre provocaram e continuam a provocar um certo fascínio entre os jovens.

Essas biografias vão ajudar a manter acesa essa chama, além de jogar um potente farol sobre o passado.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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