PRÉ-LEITURA DO LIVRO “TURISMO PARA CEGOS”, DE TÉRCIA MONTENEGRO

A AUTORA

Tércia Montenegro, nascida em 1976, é escritora, fotógrafa e professora universitária. Seus primeiros livros (de contos e crônicas) foram finalistas dos prestigiados prêmios Jabuti e Portugal Telecom. Tem formação superior em Letras, mestrado em Literatura Brasileira e doutorado em Linguística. 

A PUBLICAÇÃO 

O livro “Turismo para Cegos”, de autoria de Tércia Montenegro, foi lançado em 2015, pela editora Companhia das Letras, com 228 páginas. 

CIRCUNSTÂNCIAS 

Na trajetória literária de Tércia Montenegro, este livro é o primeiro romance. A escritora concebeu uma trama que, se por um lado poderia lhe oferecer dificuldades, por outro entregava inúmeras possibilidades. No mundo artístico, com destaque para o teatro e o cinema, colocar a cegueira num personagem ainda tem caráter de desafio, cujo enfrentamento exige sensibilidade, fina sintonia. A autora desenvolve a história com absoluto domínio sobre o ritmo e o tom. O leitor sente que este controle é fundamental e espera com ansiedade o momento em que algo explodirá. Ou não. 

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO 

O que é visto e o que é invisível aos olhos, o que sentimos e o que fingimos, o que depende de nós e o quanto dependemos do outro, ele versus ela, o que de verdade nos mantém de pé e ‘lutando’, há remédio e cura para tédio? Turismo para Cegos leva a pensar sobre isso (e mais) e impacta o leitor ou leitora a partir do título insólito: como assim…?

O texto não faz concessões à pieguice e o tempo todo oferece a pessoas maduras uma experiência literária de qualidade. 

O LIVRO 

A estrutura do livro se distribui em três partes, que se desdobram em capítulos curtinhos, e estes narram o encontro de Pierre, um servidor público, e Laila, uma jovem estudante de arte. Conhecem-se no tempo em que ela busca no pet Shop um cão-guia para acompanhá-la quando ela se tornar cega e dependente. A atendente do pet Shop começa o livro como narradora. E se envolve. Significativamente, o cão-guia escolhido será chamado também de Pierre. 

CURTAS 

“…Você está diante de uma mulher que é uma sereia voadora; tem cabelos vermelhos e segura um buquê num cenário com palmeiras azuis e uma lua…

“… Uma simples ideia era a salvação do humor, e assim poderia acontecer, indefinidamente. O que destrói o prazer é a repetição…

“Mentalizar planos de viagens, pensando num turismo específico —  ele como intérprete, guia-descritivo do mundo, explorando lugares junto com ela…

“… Tinha sensibilidade próxima do zero para artes, passava anos sem entrar em museus ou teatros, e nem com música possuía intimidade. Era pálido e feio, a pele sempre fria…

“… Existiam belezas de todo tipo, acústicas, olfativas, espirituais. Mas nenhuma exigia tanto apetite quanto à beleza visível. A própria existência da beleza como âncora, coisa não volátil, dependia do olhar

“… Somente na mais secreta fatia mental de seu temperamento ela se deixava desesperar, elaborando listas de todas as perdas.

“… Não que ele valha a pena, diz a si mesma. Apenas agirá no sentido que parece ser a única saída possível de sua condição: de viver de um jeito sôfrego, para esquecer que o espaço desapareceu

BONS MOMENTOS 

“… Durante o trajeto, ficou óbvio porque o guia não cobrara um valor extra: ele tratava Laila como uma pessoa normal, sem mudar o ritmo da caminhada ou prever a mínima necessidade. Pierre lhe gritou várias vezes para que aguardasse, enquanto desciam níveis absurdos de rochas escorregadias — o guia saltitando à frente, Pierre e Laila agarrados um ao outro como inválidos numa escadaria interminável.

“… deve existir uma teoria de viagens que justifique os espaços entre um passeio e outro. As pausas seriam retomadas de fôlego. Feito um mergulhador que volta à tona, mas desejando a próxima imersão: o viajante volta para casa e suporta a rotina, porque trouxe recordações. Mas Laila não podia guardar uma memória física, prolongar o prazer…

“… Eu explodi numa pequena revolta, comentando que ele idealizava demais a mulher. Não existia nada sagrado nela, a cegueira não a transformava em deusa ou mártir. Inúmeras pessoas viviam na mesma condição, e muito mais tranquilas, menos torturadas. “Mas, Laila é artista“.

“Lembrei meus amores passados, com músicos, desenhistas, escritores e até dançarinos —  nenhum deles famoso para além dos gritinhos de meninas levemente histéricas. Nenhum artista no sentido pleno da palavra, com prestígio legitimando disparates. E, apesar disso, cada um deles era torturado em algum nível, um ser inquieto desesperando-se com algo que nunca alcançava. 

“… Falei a Pierre que não acreditava em ciclos, principalmente no caso de artistas. Eles são imprevisíveis, lidam com o tempo de maneira diversa, querem se desvencilhar da rotina. Um ciclo é uma rotina, portanto eles não chegam a formar uma etapa de separação. Separam-se subitamente, porque percebem que o relacionamento virou um tédio ou os impede de criarem obras novas.

“Com a cegueira, perde-se o deslumbramento. A capacidade de se maravilhar depende da visão. Há quem diga que é possível ter experiências de encanto com a música, mas é algo diferente. A beleza melódica vem em sucessões, nunca repentina como o que se pode ver. Laíla perdeu as ideias de inteireza e agora sabe do mundo apenas por fatias. Reconhece pedaços…

Sobre o autor:

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