Pré-leitura do livro ´Sua Majestade, o Juiz´, de JÁDER DE CARVALHO – por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Jáder de Carvalho era cearense de Quixadá (1901-1985). Foi jornalista, advogado, professor e escritor. Fundou dois jornais  (A Esquerda, em 1928) e Diário do Povo  (circulou de  1947 a 1961). Foi preso por dois anos na Ditadura Vargas, acusado de ser marxista. Publicou dez livros, um deles, Terra Bárbara”, é o mais citado. Aldeota e Sua Majestade, o Juiz são muito lidos e pouco citados.

A PUBLICAÇÃO

O livro Sua Majestade, o Juiz, de autoria de Jáder de Carvalho, foi lançado em 1956 pela Editora Musa e teve uma segunda edição (igual à primeira, com os editores respeitando a primeira) mais de meio século depois pela editora Forgrel, com 402 páginas, orelhas do acadêmico Juarez Leitão e prefácio de um de seus filhos, Cid.

CIRCUNSTÂNCIAS

Jáder constrói a trama partindo do sertão, relatando a tragédia regular da seca e o drama permanente  da exploração, da pobreza e do atraso, passando pelo sul, pelo norte e pelo centro geográfico do estado (Santana, Sobral e Quixadá), até chegar a Fortaleza, passando rapidamente por Aquiraz. Entra na cena o jovem advogado que chegará a desembargador na capital, onde um novo governador inicia seu mandato. Eram os anos 1950, na segunda metade.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Advogado, jornalista e poeta com um nítido perfil ideológico de esquerda, Jáder de Carvalho conseguia ver a realidade social e econômica de uma perspectiva abrangente e com um olhar profundo. Percebia a perversão da acumulação desproporcional do dinheiro e a manipulação inescrupulosa do poder político. Certa ou errada, exagerada ou precisa, Jáder faz uma leitura da realidade que deixa claro ao leitor quem sempre sairá ganhando, quem sempre sairá perdendo, e explicam boa parte do subdesenvolvimento e da injustiça que um século depois ainda permanecem.

O LIVRO

O livro é um romance social na mesma linha de outro de seus livros, Aldeota seguia o mesmo roteiro até chegar a Fortaleza e mergulhar nas práticas empresariais da primeira metade do século passado, que, segundo o autor, explicam como se fizeram grandes fortunas e como se construiu o belo bairro. Sua Majestade, o Juiz põe sua lente no funcionamento do Poder Judiciário e nas suas relações com o governo do estado. A trajetória do juiz vai jogando luz nas negociações políticas e na circulação de dinheiro, compondo uma parte importante da história do Ceará.

CURTAS

“Na vida social, na vida pública, eu sempre “banquei” o submarino. Posso dizer que fui o precursor do submarino atômico, sem periscópio, sem necessidade de vir à tona”.

“Se não existissem os ricos, também não existiria um céu assim tão belo e um sol tão bonito quanto este que nos queima. Os pobres fedem. A pobreza exala uma catinga doce e nauseante. Eu já fedi, confesso. Hoje não fedo mais.”

“Eu pensava que todo desembargador era homem sério, independente. E que a Corte não fazia política”.

“Quando nasci, o mundo já estava torto”.

“Não posso dizer que sou amigo do Doutor, porque sou pequeno, e gente pequena não deve dizer que é amiga dos grandes.”

“Ele é assim: quando pensa, o suor explode na testa. Nele, pensar é um trabalho físico, muscular, como erguer um saco de feijão, carregar um homem às costas.”

“Quando um cristão morre, ou vai pro purgatório, ou pro céu, ou pro inferno. Nós, em vida, já conhecemos o céu de Aquiraz, o Purgatório de Santana e o inferno de Sobral. Isto aqui, pra ser mesmo o lugar de Satanás, só falta a caldeira. O espeto e o cheiro de enxofre.”

BONS MOMENTOS

“Isso é uma pouca vergonha! A polícia arrecada dinheiro até das prostitutas. Paga o jogo-do-bicho. Paga o jogo-de-cartas. Paga toda espécie de jogo. E pra onde vai tanto dinheiro? Não existem obras sociais. Não existe nada. O que se sabe é que o dinheiro é repartido entre poucos. O próprio partido, através de alguns de seus figurões, participa da miséria.”

“Nós dormimos há quatro séculos em cima da riqueza. Somos incapazes, falta-nos gênio comercial. Todo o dinheiro que se ganha e se acumula no Ceará é aplicado somente em duas coisas: agiotagem desenfreada e construção de palácios e arranha-céus. No dia em que o nosso capital  mudar de rumo, isto é, no dia em que ele caminhar ao encontro da riqueza adormecida sob nossos pés, aí nós admiraremos os pioneiros.”

“Com muito jeito, fiz sondagens nas altas rodas, para onde me arrasta com invencível força de gravidade, a minha posição de desembargador. Bebendo uísque, mergulhando em piscinas, comendo churrasco, cheguei a esta dolorosa conclusão: o contrabando atinge agora o seu apogeu. E se tal acontece, por que o fisco não surpreende os transgressores?”.

“Em novembro,  em dezembro, a fome dos flagelados produzia os seus primeiros frutos de ouro: construção de ricos bangalôs na Aldeota, cadilaques à porta dos clubes elegantes, viagens aos Estados Unidos, ao Rio de Janeiro, a Buenos Aires. Novas e grandes fortunas exigiam aplicação. Na indústria? Não. As grandes somas fariam nascer nos subúrbios centenas de casas de aluguel, prédios de vários andares no centro da cidade.”

“Você já leu algum tratadinho de marxismo? Segundo a dialética dos comunistas,  tudo está em movimento. Tudo se acha em vias de transformação. É o que eles chamam de o “vir-a-ser”. Logo, as nossas ideias se acham em movimento, se transformam a cada instante. O seu pensamento de ontem não pode ser o de hoje. Entendeu?”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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