Pré-leitura do livro ‘Sobre a Brevidade da Vida’, de Sêneca – por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Sêneca (Lucio Aneu Sêneca) nasceu na Andaluzia espanhola ( 4 a.C) e viveu em Roma (até perto de completar 70 anos). Foi membro do Senado e frequentava a Corte de Roma. Foi Conselheiro do Imperador Nero. Ainda jovem teve sua morte decretada e depois trocada por exílio. Ao final, foi acusado de traição, condenado e executado.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Sobre a Brevidade da Vida”, de Sêneca, foi publicado inumeráveis vezes ao longo de dois mil anos. Uma delas é a edição conjunta Penguin e Companhia das Letras, do ano de 2017, com apenas 78 páginas e traz um segundo texto (Sobre a firmeza do Sábio) na segunda metade.

CIRCUNSTÂNCIAS

Os textos filosóficos de Sêneca conservam impressionante atualidade, apesar de escritos há dois milênios. Sobre a Brevidade da Vida é uma carta que escreveu a Paulino (de identificação incerta) e transformou-se numa das obras mais lidas entre os textos mais antigos. A linguagem é simples, a mensagem é direta e absolutamente atual. Um clássico da eloquência. Uma leitura útil, necessária.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Apesar de ter vivido no tempo de Cristo, Sêneca nada escreve sobre a vida da perspectiva religiosa, embora se diga que se correspondia com o apóstolo Paulo. Sobre a Brevidade da Vida é talvez seu texto mais conhecido e mais lido e citado. Sêneca era uma figura importante do Estoicismo (linha filosófica cuja ideia mais conhecida era a ‘ataraxia’, ou a imperturbabilidade) e expunha suas ideias com impressionante simplicidade e clareza (afinal ele teve experiência como orador no Senado e em tribunais). Pode-se dizer que este é um texto pioneiro (e o mais antigo) sobre a questão da qualidade (e a quantidade) de vida.

O LIVRO

Evidentemente, Sêneca não tinha a menor condição de imaginar a vida moderna, como a desfrutamos neste século XXI, mas o ensaio sobre a brevidade da vida trata quase diretamente de todas as questões dos dias atuais: as ocupações e as preocupações, o trabalho e o ócio, a serenidade e a ansiedade, a fartura e a austeridade, sem falar de estresse, de autoconfiança e de falta de tempo. O autor usa uma abordagem direta e a leitura do texto pode se fazer de um só fôlego, sem cansaço, característica não só de Sêneca, em particular, mas dos textos em forma de carta de maneira geral.

INSIGHTS

A vida divide-se em três períodos: o que se foi, o que está sendo e o que há de vir. Desses, o que estamos atravessando é breve, e o que havemos de atravessar é duvidoso,o que já atravessamos é certo. É este último de fato aquele sobre o qual a fortuna perdeu seu direito.”

“Com absoluta dissimulação encobriam tão grande mal ocultado nas vísceras do Estado, e evidentemente com razão, pois alguns males devem ser tratados mantendo-se desinformados os doentes…”

“O povo esfomeado não aceita razões, nem se acalma com o que é justo, nem se dobra por nenhum apelo.”

“Realmente ninguém duvidará de que produzem uma laboriosa nulidade os que se detêm no estudo de inúteis erudições literárias…foi dos gregos essa doença…Eis que invadiu também os romanos esse desejo vão de aprender futilidades.”

“Não há coisa mais difícil de saber do que viver.”

“Eu não poderia facilmente dizer qual das duas coisas me dá mais pena: o fato de não saber ou o de fingir não saber.”

“Queres saber quão pouco tempo eles vivem? Olha quanto desejam viver longo tempo.”

IDEIAS CENTRAIS (Takeaways)

“Nada é menos peculiar do homem ocupado do que viver. Não há coisa mais difícil de saber do que viver. São comuns e numerosos os que professam outros conhecimentos, alguns dos quais até mesmo crianças parecem ter tão perfeitamente aprendido que também podem ensinar. É preciso durante toda a vida aprender a viver e, o que talvez cause maior admiração, é preciso durante toda a vida aprender a morrer.”

Brevíssima e demasiado angustiosa é a vida daqueles que se esquecem do passado, negligenciam o presente e temem o futuro. Quando chegam a seus momentos derradeiros, compreendem tardiamente, os infelizes, que por tão longo tempo estiveram ocupados em não fazer nada. Não há motivo para julgar que eles levam uma longa existência com base no argumento de que algumas vezes invocam a morte: atormenta-os a ignorância sobre suas emoções instáveis e que incidem exatamente sobre aquilo que lhes causa medo. É por isso que com frequência anseiam pela morte; porque a temem.”

“Velhos decrépitos mendigam em suas preces o acréscimo de uns poucos anos. Fingem ser mais novos, lisonjeiam-se com essa mentira e iludem-se tão prazerosamente quanto se junto com eles enganassem o destino. Porém, já quando alguma enfermidade os advertiu de sua condição mortal, quão apavorados eles morrem, não como se deixassem a vida, mas como se fossem arrancados!”

“Chamas de ociosos os que passam muitas horas no cabeleireiro, durante as quais lhes aparam o que cresceu na noite anterior, discute-se sobre cada fio de cabelo, arrumam as mechas desalinhadas ou as juntam sobre a fronte de estão faltando aqui e ali? E como se enfurecem se o cabeleireiro foi um pouco descuidado demais, como se fossem de um homem os cabelos que ele estava aparando! Como se irritam se algo foi cortado de sua juba, se algo dela se assentou fora de ordem, se ela toda não tem bom caimento em cachos! Qual desses homens não preferiria que se pusesse em desordem antes a República que seus cabelos? Qual deles não preferiria estar mais bem penteado do que ser mais honesto?”

“Se alguma vez suas ocupações os abandonam , inquietam-se por terem sido deixados com tempo para si e nem sabem como dispor dele ou gastá-lo. Assim, lançam-se a qualquer ocupação e é enfadonho todo intervalo entre uma e outra. Da mesma maneira, quando se anunciou a data de uma luta gladiatória, ou quando se espera a que fora marcada para algum outro espetáculo ou diversão, querem pular os dias que faltam. Para eles, toda demora do evento esperado é longa, mas aquele momento que amam é breve e fugaz e muito mais breve por causa da doença deles: de fato passam de um desejo para outro e não podem deter-se em um único.”

“A uns, antes que lutassem pelo cume da ambição, a vida abandonou nos reptos preliminares; a outros, depois de haverem conquistado, por mil desonras, o remate das honras, sobreveio-lhes o triste pensamento de terem se fatigado por uma inscrição num sepulcro; de alguns, sua avançada velhice, como se fosse a juventude, ao se dispor a novas esperanças, sucumbiu inválida em meio a grandes e insaciáveis esforços.”

“É triste realmente a condição de todas as pessoas ocupadas. No entanto, a mais triste é a daqueles que sofrem não pelas próprias ocupações, que dormem conforme o sono alheio, andam pelo passo alheio, amam e odeiam mediante ordens, sentimentos os mais livres de todos. Estes, se quiserem saber quanto ee breve a própria vida, pensem que pequena parte é de fato sua.”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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