PRÉ-LEITURA DO LIVRO “SOBRE A ARTE E O TEMPO – ENTRE O PENSAR E O SENTIR (Narrativas de ofício de idosos artistas), DE JOANA ANGÉLICA DA COSTA

A AUTORA

Joana Angélica da Costa é cantora, atriz e doutora em Ciências da Educação. É licenciada em Pedagogia e pós-graduada em Arte Educação. 

A PUBLICAÇÃO 

O livro “Sobre a Arte e o Tempo – entre o pensar e o sentir (Narrativas de ofício de idosos artistas)“, de autoria de Joana Angélica da Costa, foi lançado em 2022, pela editora Radiadora, com 119 páginas. Prefácio do Professor Doutor Henrique Sérgio Beltrão de Castro. 

CIRCUNSTÂNCIAS 

O percurso do tempo até a velhice e o exercício contínuo da arte desenvolvem nos artistas idosos os saberes humanos, úteis e necessários aos artistas jovens, além das técnicas do ofício. Uma pesquisa feita em Portugal e no Brasil em duas casas de retiro, com o acompanhamento da partilha desses saberes, foi a base da tese de doutorado de Joana Angélica da Costa, defendida e aprovada na academia portuguesa em 2020. 

A pesquisa vira livro dois anos depois, com a adaptação do texto, que perde um pouco do rigor acadêmico e ganha um tanto em leveza literária. 

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO 

A questão da velhice está posta. Governos, famílias, serviços públicos e privados de educação, saúde e previdência vivem  o avanço da longevidade e a demanda por qualidade de vida como desafios importantes. Com o passar do tempo e com os ganhos de tecnologia, o desafio vai se tornando agudo. 

Joana Angélica da Costa examina tudo de uma perspectiva bem específica. Usa o rigor acadêmico e a linguagem literária em comunhão para oferecer uma contribuição efetiva para o debate público. E instrumenta pessoas e instituições que têm conexão com o tema com os elementos preciosos de sua pesquisa. 

O LIVRO 

A obra se estrutura em três partes, que se desdobram em seis capítulos. A primeira parte apresenta os sujeitos que narram (os artistas idosos, o sentir). A segunda parte apresenta as teorias (o pensar) que dão suporte ao debate. A terceira parte apresenta juntos o pensar e o sentir. 

A leitura é temperada com momentos especialmente sensíveis, com o relato de eventos em que idosos são protagonistas em momentos expressivos, exemplares, inspiradores. 

Ao longo das páginas, a leitura será rica em ilustrações e fotografias. Ao final, encorpam a publicação sete páginas com referências bibliográficas. 

Quem conhece a autora sente-se à vontade para sugerir que ela seja convidada para proferir palestras e participar de debates (na universidade , nas associações de empresários e trabalhadores e nas instâncias de poder) sobre a velhice, na certeza de um desempenho superior. 

CURTAS 

“… As propostas de Paulo Freire com a pedagogia do oprimido, a pedagogia da esperança e a pedagogia da autonomia, remetem-nos para a necessidade de autoquestionamento face à complexidade de cada ser humano e à realidade que o circunda…

“… Para Boaventura de Souza Santos, estamos caminhando para uma nova relação entre ciência e senso comum, em que uma cultura faz parte da outra e ambas constroem uma nova proposta de conhecimento. Ressalta o que chama de ‘ecologia do saber’, questionando uma única forma de saber como válida…

“… Duarte Júnior se refere à educação dos sentidos como sendo a que existe antes do pensamento, que parte dos sentidos do corpo que o mesmo organiza sem precisar do intelecto, e é anterior ao saber inteligível.

“As reflexões de Marie Christine Josso, quando destaca o valor e a repercussão do narrado para quem narra… Falar de si, autobiografia, historia oral, história de vida, autoformação, memória, narrativa de vida, são temas por onde transitam as narrativas de idosos institucionalizados.  

“O que se identifica de modo patente é o idoso como agente passivo, recebendo instruções por parte de educadores jovens ou não velhos, instruções a serem cumpridas e apreendidas.

“Sair da caixa não é fácil, aqui é quase como um “bêbado equilibrista” na corda bamba, mas tenho a meu favor a felicidade de também ser artista…

BONS MOMENTOS 

“… A exemplo dos Mestres do Mundo no Ceará e em Portugal, eu quis trabalhar com outras formas de construir e partilhar, bem como fomentar o exercício da função formadora e educativa dos saberes de idosos institucionalizados, uma realidade evidente na Europa e crescente no Brasil. Para isso, foi necessário um mergulho profundo no processo de construção das políticas voltadas para valorização de saberes diversos e invisíveis…

“Exercito o movimento de me fundir por tudo isso que me atravessa e me atravessou, e preciso partilhar toda essa incursão mágica que são as narrativas de ofício de artistas idosos e a sua possível contribuição para estudantes do referido ofício. Aqui, com um olhar caleidoscópico, de todos os lugares de onde eu vim.

“Desejo ter aberto caminhos para que novas práticas educativas possam ser pensadas e implementadas a partir dos conhecimentos encastelados nas instituições de acolhimento para a pessoa idosa. Abrir caminhos que venham impulsionar esses artistas para que possam apresentar a sua potência geradora de conhecimento, a partir da partilha do seu saber de ofício, que é, em minha opinião, o seu maior patrimônio Imaterial adquirido, acumulado e consolidado durante anos de vivência e exercício.

“As estratégias educativas na esfera da educação estética, por exemplo, poderiam vir a se efetivar nos currículos da Educação Superior no Ensino das Artes, para que as visitas de estudo possam ser fomentadas e alargadas a outros lugares de visitação. Não apenas museus, teatros e equipamentos públicos fazem parte deste lugar… Mas os idosos institucionalizados, ou não, também o são, e estão ansiosos para serem vistos e valorizados… Nessa direção podem ampliar contribuição não só na área da Educação, como também da Saúde e do bem-estar social. Idosos, jovens e sociedade sairão beneficiados.

“… Na segunda metade do século XX, em 1965, o conto “A velha dama indigna “ (1939), de Bertold Brecht, destacado dramaturgo e poeta alemão, transformou-se em filme com estreia mundial. A adaptação foi impactante, por abordar o contrário do estereótipo que se esperava do velho à época. Tratou-se de uma tentativa ousada de marcar um caminho na direção contrária da vigente.

“Não muito longe temporalmente, nos anos 1970, Simone de Beauvoir escreve “A velhice “, onde denuncia o silêncio em relação à velhice. A inquietação desta população começa a dar sinais significativos numa tentativa de fazer um contraponto ao modelo vigente. É importante salientar que o lugar de onde surge a produção reflexiva do tema, na maioria das vezes, vem de quem já vive a referida experiência do envelhecimento.

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