Pré-leitura do livro “RosaMundo dos Pretos, da Confraria Mambembe

OS AUTORES 

Sílvio Barreira, Romeu Duarte Jr., Joaquim Cartaxo, Áureo Freire Castelo Branco e Lenina Barreira (todos arquitetos e urbanistas), Durval Aires Filho (magistrado) e Dejoces Batista Jr. (professor) são os autores, referidos na capa do livro e no sumário como Confraria Mambembe. 

A PUBLICAÇÃO

O livro RosaMundo dos Pretos, da Confraria Mambembe, foi lançado em 2022, pela Expressão Gráfica Editora, com 210 páginas, orelhas de Dejoces Batista Jr. 

CIRCUNSTÂNCIAS 

A boa e descontraída conversa entre intelectuais amigos no aconchego dos discretos “butikins” estimula a formação de uma “confraria” que, entre outras afinidades, compartilha o prazer de ler e o talento para escrever. 

Na ponta, tudo isso se transforma em literatura, tão bela quanto simples e despretenciosa, sob a forma de um livro (de membros diversos da ampla Confraria Mambembe). Assim costuma nascer a cada ano uma peça literária.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO 

RosaMundo dos Pretos reúne produção de alta qualidade, tanto na forma quanto no conteúdo. Sem necessidade de prometer, os autores entregam opções de estilos em poesia, prosa e traços capaz de atrair e encantar mesmo um leitor mais rigoroso. 

Cada um dos coautores mostra na obra a capacidade de dar passos para trabalho solo no futuro breve. Se isto não for a intenção, ou mesmo que seja, que se mantenha a oferta anual coletiva. 

O LIVRO 

O livro está estruturado em seis partes, uma delas composta de desenhos em branco e preto de cenários urbanos, arquitetônicos (pode-se ver uma imagem do Papicu dos ricos ou a torre inclinada da Igreja Matriz da Exaltação de Santa Cruz, em Portugal, que supera, em ângulo de inclinação, a Torre de Pisa, na Itália, ou ainda uma ideia de design da hipocondria).  As outras partes são inspirados contos, crônicas e poemas, quase todos ilustrados por traços delicados, expressivos. 

 

o Papicu dos ricos

  • Imagem Papicu dos ricos – (Do livro)

Em termos gráficos trata-se de uma peça de especial bom gosto, mesmo dispensando o uso de cores além do P & B. 

CURTAS 

“…Você não sabe

Uma solidão

Nunca desiste

De ser multidão…

“…Acontece que o Brasil achou de ficar burro. Burro só, não, reacionário, imbecil, misógino, homofóbico, carola, hidrófobo. Talvez estes defeitos já existissem há muito nas pessoas, represados na marra… 

“…Deocleciano, negro, pobre e ateu, alisando banco de escola, aprendeu odiar opressores e desconfiar dos oprimidos, para agradar a Madrinha se fez oficial da Marinha. Irreverente, tatuou no peito: Crioulo! Nascido no Brasil…

“…quem sabe viver não é apenas a inquietação

que a alma proclama?

ora clichê!

deixa disso e me ama… 

“…Quando percebeu que o velho estava mesmo ferrado, consultou o médico da família sobre a possibilidade da morte. Precisava estimar o futuro. Afinal, sem ele e o cartão de crédito, ficaria difícil…

“…Artista precoce, me contavam que quando eu era criança queria tocar piano, me deixaram tocar, bati nas teclas e não saiu nada além de barulho, decepcionado, abandonei a carreira de pianista. Com esse desenho foi a mesma coisa…

BONS MOMENTOS 

“Tempo bonito para chover, Suelen e Gleicy (que só conheciam a lei profunda e inflexível das ruas), apertadas pela fome e pelo frio, abandonam o Passeio Público e voltam tumultuosamente à sala pequena e que cheirava a escuridão do Butikim dos Pretos em busca de abrigo. Encontraram ali, sentinelas inflexíveis, Almocreve e Azêmola, seus respectivos proxenetas. Contrariados, Almocreve aplica um telefone em Suelen. Histérica, Gleicy tomou um mata-leão de Azêmola. RosaMundo, dono do Butikim dos Pretos, armado com sua inseparável doze polegadas, fez bariátrica nos asnáticos que, segurando as tripas, foram até o Pronto Socorro…

“Era uma vez um tirano em seu palácio, alta madrugada. Insone por motivos dos cabeludos problemas do seu governo, quase todos criados por sua paranóia, desistiu de reclamar de sua consorte, que somava, à luz de um abajur, o valor dos canhotos dos muitos cheques a si repassados pelo áulico preferido do déspota. Pistola no cós da bermuda do pijama, deixou seus aposentos e foi se sentar no chão de uma varanda da magnífica residência, “projetada por comunista”, como ele gostava de dizer. Jogou uma pedra nas emas que dormiam ao luar no jardim palaciano, essas “ingratas de bico duro”. Seu pensamento passou em revista a sua administração até aquele momento: tudo desmoronava ao seu redor…

“A cor mais bela

Está no abraço 

Nas curvas no laço 

Nos olhos dela 

Está na chuva 

Que banha a folha 

Está na bolha 

De água e sabão 

Está na estrela

Que não se move 

E nos movimentos 

De uma paixão…

“…Valentes cães de caça farejam anormalidades. Passavam a noite toda latindo. Mansamente. Rondando o espaço. Vistoriando tudo, até pensamentos e intenções. Espertos. Violentos. Bem alimentados. Desconfiavam de uma simples queda de folhas. Suas refeições eram apenas duas, uma ração especial servida por uma única pessoa: o vigia ruivo, seu José Colorau. Mas esses animais não atacavam os donos da casa, ao contrário os protegiam. Pior: tinham ciúme…

“ultrapasso a ausência por escrito 

transpiro desejo selvagem 

miscigeno bolero e blues 

bem-quero corpos nus

boca-pernas-sexo tatuados

desordeno o beijo íntimo 

polígono desmarcado sem fronteira 

sabor excitante 

pele que alucina 

hálito das pernas essenciais…

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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