Pré-leitura do livro ´Pílulas para o Silêncio´, de CLAUDER ARCANJO – por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Clauder Arcanjo é engenheiro cearense, nascido em 1963, escritor, membro da Academia de Letras do Brasil (assim como das Academias Mossoroense e da Norte-riograndense), fundador da editora Sarau das Letras. Autor de Licânia (2007), Lápis nas Veias (2009), Novenário de Espinhos (2011), Uma garça no asfalto (2014), Pílulas para o silêncio (2014), Cambono (2016), Separação (2017), O Fantasma de Licânia (2018) e Mulheres Fantásticas (2019).

A PUBLICAÇÃO

O livro  Pílulas para o Silêncio, de autoria de Clauder Arcanjo foi lançado em 2014, pela editora Sarau das Letras, com 173 páginas. A obra é bilíngue (o tradutor para o espanhol é Alfredo Pérez Alencart, que também apresenta a obra).

CIRCUNSTÂNCIAS

Clauder Arcanjo é um jovem escritor maduro, com domínio pleno do ofício. Faz a melhor literatura em romances, novela, contos, crônica e versos, e está sempre criando e burilando a próxima entrega. Desde a sua estreia em 2007, com Licânia, foi conquistando público e crítica, jogando com brilho nas várias posições do vasto campo das letras.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

O texto brevíssimo é um desafio que bem poucos trabalhadores da palavra ousaram enfrentar (quanto mais curto, mais difícil de escrever e, além disso a crítica é especialmente severa na avaliação desse tipo de obra). Clauder Arcanjo supera toda expectativa otimista também nesse delicado nicho, como já havia feito nos outros. Embora não pareça tão evidente, este tipo de texto exige especial nível de erudição e uma capacidade imensa de interpretar as emoções humanas.

O LIVRO

O mundo moderno está quase enfermo com tanto ruído. A prescrição de Clauder Arcanjo se propõe a identificar e ajudar a entender e a curar, literariamente falando, a dor e a fragilidade humana em textos cirúrgicos. As pílulas vêm na dose certa, temperadas com pitadas de ironia e bom humor para ferir a desigualdade social e a injustiça do sistema, com a mistura exata de profundidade de conteúdo e beleza da forma. Filosofia, psicologia, o cotidiano, as relações sociais e até religião, nada escapa à lupa do autor. Para o leitor saudável, o livro oferece um belo mergulho para rever e valorizar o que ainda há de colorido, silencioso e belo nos quatro cantinhos no fundo do coração humano. Tudo isso oferece a obra que merece várias leituras. E, por esta e outras razões de qualidade, deve ficar na cabeceira, para uso permanente, contínuo, sem contraindicações.

Clauder Arcanjo organizou seu Pílulas para o Silêncio em sessenta e uma pequenas partes, algumas abrem-se com epígrafes, outras com dedicatórias, outras com o silêncio. Abordando temas atuais e de amplo interesse, cada pequeno conjunto de textos (que o autor chama de rabugices, de assanhamentos, de novidades, de apontamentos, de sombras, de não ouse, de não omitas…) é apresentado simultaneamente (na mesma página) em português e espanhol. Há aforismos, diálogos, peças de puro lirismo, minicontos, arrazoados e prescrições. A poesia está em toda parte.

CURTAS

 

“Se levares a tua pena ao centro das tragédias humanas, e não desistires da palavra, quem sabe escreverás algo que valha a pensa ser vivido.”

“Todos os livros que me espiam não espiam o inédito manuscrito que há em mim”.

“Faça o obséquio de se fingir de bobo quando der de frente com a alegria em estado puro.”

“Talvez haja abrigo somente para aqueles que perderem tudo tentando salvar o outro”.

“Nós: pronome impessoal que se conjuga unindo, no mesmo sonho, eu, tu e eles”.

“Assisti ao velho repórter com o colírio da notícia de que um corajoso beija-flor fizera piruetas à frente da boca de um canhão.”

“Disque  ´0´ para sumir. Disque ´I´ para desistir. Disque ´2´ para desaparecer. E disque ´9´ se quiser falar com você.”

 

BONS MOMENTOS

  1. “Este ano procura presentear com o silêncio. Na festa de aniversário, tu surgirás com o nobre regalo, preso por entre os lábios enluarados, e entregá-lo-ás ao eleito, sob as bênçãos da Natureza. Esta que a todos os barulhos observa, inquieta, quase sem ter mais forças para protestar.

E, se alguém, em descabido ato, reclamar, gritar, espernear ou, até mesmo, festejar entre vivas e obas… recolhe-te, seguindo para o natalício seguinte: com o mesmo regalo, sem deixar com que tua boca seja invadida pela loucura e barulheira das bravatas.

Só o silêncio te (re) confortará.”

  1. “Quando a memória se incendeia, fornalha de fogo e brasa, tento fugir para as águas supostamente plácidas do presente. Não só, também me lambuzo no óleo da rotina, enveredo pelas planícies dos compromissos do dia a dia, benzo-me frente aos capítulos das novelas da tavê, rezo perante o altar dos ídolos de ocasião… No entanto, tudo em vão. Pois, quando a memória se incendeia, nada resiste ao magma de sua brutal e furiosa erupção. Incandescentes reminiscências levam tudo de roldão: presente, rotina, compromissos, bênçãos, ídolos. Enfim, o meu mundo (inútil) se entrega, em batismo de torpor, prazer e dor, ao império deste Vesúvio de outrora”.

 

  1. “Diálogo entre dois construtores da província:

– Quem “convencerá” o secretário de obras? Eu ou você?

– Depende da intenção.

– Da intenção?!

– Se o propósito for o de seguir a lei, nem eu, muito menos você. Mas se for mais um caso de “superação das barreiras legais em prol dos empregos sociais”… tanto faz: eu ou você. Compreendeu?

— Sei, sei. Preparemos, então, a pasta com o “vil argumento”.

  1. “Subiu no telhado alheio. De lá, reparou nas roupas estendidas nos varais, mediu com os olhos a fartura na cozinha e na despensa, contou a criação solta no quintal e, ao dar com a felicidade a correr pelos corredores da morada, desceu rápido.

No canto do muro, ficou a roer as unhas, com saudade de casa.”

  1. “E agora, José? As armas e os barões assinalados, nesta terra que tem palmeiras onde canta o sabiá. Eu? Eu canto porque o instante existe. Motivo? Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Olhos de ressaca! Que eu, se tenho nos olhos malferidos pensamentos de vida formulados, são pensamentos idos e vividos.

Vou-me embora para Passárgada. Mesmo sem ser amigo do rei.

Navegar primeiro, aportar depois. Viver primeiro, morrer depois. A minha alma que chora não sai mais, nunca, nunca mais!”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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