PRÉ-LEITURA DO LIVRO “PARA NÃO ESQUECER QUEM SOMOS”, DE DORA DE PAULA

AUTORA

Dora de Paula é escritora e poeta, formada em Direito, mestre (UnB) e doutora (UFC) em Educação, Arte-terapeuta (Instituto Aquilae), professora universitária, desenhista e compositora.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Para Não Esquecer Quem Somos”, de autoria de Dora de Paula, foi lançado pela Expressão Gráfica e Editora, em 2024, com 48 páginas. Apresentação de Ruth de Paula e orelhas de Kátia Valevski. As ilustrações são da autora.

CIRCUNSTÂNCIAS

O isolamento social imposto à população a partir de 2020 e que se arrastou até o início de 2022, por causa da pandemia, provocou Dora de Paula e a fez encontrar-se com suas memórias e colocar em palavras as lembranças das pessoas que ama. Escreveu textos breves em forma de contos e postou-os nas redes sociais. Dois anos depois releu tudo e fez uma criteriosa (e amorosa) seleção. O livro é o resultado desta produção e se alinha bem com a função expressa no título.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Esta é a segunda obra (a primeira, ‘Ditos benditos’, de poesia, lançado em 2023) de uma jovem escritora madura, com estilo bem próprio e texto cheio de encantos. Um dia mais adiante ela explicará as razões de ter adiado tanto o início de sua trajetória.

Nas primeiras linhas da apresentação pode-se ler: “Uma mulher suspende o cotidiano para contar sua história! É um jeito bonito e profundo de desembrulhar situações vividas, embrulhar num papel e dar de presente, o que faz Dora de Paula ao nos oferecer esse livro de contos, como se dissesse toma minha vida, estou de dando o meu passado…”. É isso.

O LIVRO

O livro está estruturado em trinta e um capítulos brevíssimos – contos e minicontos, um terço deles ilustrados, varios deles desobedecendo os padrões literários tradicionais. Eles descrevem pessoas, situações, emoções, quase tudo ligado à infância e à adolescência da autora, mas não só.

A simplicidade e a beleza dos textos são encantadoras. O leitor e a leitora (sim, este é um livro nitidamente mulher) vão passear pelas palavras, podem até ver a autora dançar e cantar em algumas páginas, e se emocionarem juntos.

A orelha do livro explica: são “memórias de doçura e fortaleza que foram além da dor”.

CURTAS

“…Muito bonitinhas as coisinhas da vida. Não reclamo. Só admiro, respeito e sigo…

“… Quando aprendi o mistério das letras já não era uma menina. Meus netos estranharam minha alegria lacrimejada…

“Gosto de escrever, desenhar, pintar…Cada um de nós luta com o que temos. Ando buscando manter as rosas que já plantei no meu coração, e elas têm espinhos.

“Amores em semente, experiências afetivas, ‘enxerimentos’…saliência…cavilação…tudo era aprendizado.

“A fogueira, as pessoas em volta daquela maravilha de labaredas. Amores ingênuos e acalorados. Olhávamos para o céu e era lindo.

“Não sei se sei rezar. Mas peço pelo mundo…

BONS MOMENTOS

“… Catava feijão como quem reza. Cozinhava como quem prepara algo sagrado. Fazia tudo e fazia tanto. Bicho e gente ela olhava como filhos de Deus. Eu tenho até medo de falar dela. Ela era só ela. Muito ela mesma. O bem querer na forma de tia-mãe. A que arrumava tudo. Que fazia o dia. Que fazia a noite. Que fazia o tempo. E ela era gente. E quantas vezes esquecemos disso. Ela também  precisava de nós. Ela também precisava de cuidados. Ela era, às vezes, uma coisinha. Lindinha. Tinha poder. Mas era gente. E a gente esquecia.

“… Na varanda da casa ensinou primeiros socorros, bordados, dramatizações, remédios caseiros, hinos, orações…Alfabetizava. Era alegre. Assim me contaram. Oito filhos, um aborto, e se foi com um na barriga. Vivedora. Música, teatro, dança, gente, reza, de um tudo de bom ela gostava. Às vezes batia nos filhos. Eram tantos. E cavilosos! Acho que Cecília Meireles tem um poema que dá direito às mães de muitos filhos se descontrolarem. Assim me contaram.

“… Eu tive seis mães, e essas duas, Dudu e Mãe Binha, foram umas coisinhas muito lindas para mim. Puro amor. Uma das seis mães, a biológica, partiu cedo. Recentemente, a minha irmã, Madalena, contadora de histórias, artesã, educadora, encantadora de crianças, cantora e outras tantas coisas boas, nos contou que mamãe, pouco antes de morrer, teria pedido a ela para cuidar de mim e de Ruth, as caçulas. Então não me faltaram mães. 

“… Os sulcos que se desenham no rosto e o tempo. Fendas mostrando os caminhos caminhados. Riscos e rabiscos sob os olhos são os anos já vividos, sonhados, marcados na alma e no corpo. Rugas e rusgas são o tempo. Destemperos, temperamento. O brilho do olhar é o tempo. Bisavó tem um tempo profundo nos olhos. E as mãos austeras desenham dias, noites, sóis e luas. Muito mais que os cabelos brancos, o tempo se funda e se aprofunda na luz do olhar…

“… Ouço tambores. E danço memórias longínquas. As crianças brincam na areia, mãe na roça plantando a energia do tempo de viver. Pai canta e dança cantigas de trabalho. Não tem romantismo. Tem beleza e dureza de fazer a vida andar. No meio da luta há alegria, porque o povo teima. Ouço tambores….

“… Trago pela palavra a força de quem me trouxe até aqui. Peço licença para continuar abrindo caminhos de liberdade. Minhas mãos aprenderam o ofício de ser filha, mãe, amiga, neta, bisneta. Aprendemos, com as mãos, o carinho. De abraçar, de cozinhar, de falar, catar piolhos, fazer tranças. Com as mãos e as palavras trazemos nossa história. De dor e glória. Memórias de doçura e fortaleza que foram além da dor. A palavra que falo, canto e escrevo tem pranto e espanto de sempre nos reconhecermos filhos das folhas, do vento, das pedras, das águas, dos pássaros, em busca do…

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.