Pré-leitura do livro ‘Os meninos que enganavam os nazistas’, de Joseph Joffo

O AUTOR

Joseph Joffo tinha doze anos quando a França foi invadida pelos alemães na Segunda Guerra. Ator, roteirista e escritor, contou a história da fuga com o irmão em livro aos quarenta e dois anos.

A PUBLICAÇÃO

O livro ‘Os Meninos qe Enganavam os Nazistas’, de autoria de Joseph Joffo, foi lançado no Brasil em 2017 (na França, estreou em 1973, com o nome Un Sac de Billes – um saco de bolas de gude), pela editora Vestígio, com 284 páginas. Tradução de Fernando Scheibe.

CIRCUNSTÂNCIAS

Brutalmente ocupada pelos soldados de Hitler, em 1941, a França assiste à caça sistemática e sem tréguas aos judeus franceses, casa por casa, família por família. Numa dessas famílias, dois adolescentes, Joseph e Maurice (irmãos de 10 e 12 anos) são orientados pelos pais a fugir e se esconder, dirigindo-se a uma fronteira com um país livre, evitando a vigilância nazista.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

A Segunda Guerra Mundial é um dos temas mais abordados pela literatura européia. O trauma dessa brutalidade humana marcou de forma profunda e dolorosa toda uma geração. A aventura real que este livro relata tem toda a contundência da violência alemã, apesar de temperada pelas figuras especialmente humanas de dois adolescentes que até começar a guerra divertiam-se entre amigos com bolas de gude. Esta característica da trama confere-lhe um clima e um ritmo singulares. Possivelmente mais de duas dezenas e meia de milhões de exemplares foram vendidos no mundo inteiro. E virou filme.

O LIVRO

Joseph Joffo conta como era o cotidiano de uma típica família francesa (e judia) antes da invasão de Hitler. E imediatamente retrata o drama das escolhas a fazer para escapar da perseguição: ficar? fugir? como? para onde? por onde ir? E desmonta-se a família. E começa um plano de fuga por dois adolescentes despreparados, sem qualquer experiência de enfrentar desafios. Vão enfrentar a fome, o medo, o frio, a doença, a violência, esgueirando-se por caminhos impensáveis, sem saber em quem confiar.

CURTAS

“Em meio à noite escura, nas ruas desertas, com o toque de recolher prestes a soar, desaparecemos nas trevas. Nossa infância tinha terminado.”

“Com ele é assim, podem moê-lo de pauladas sem arrancar uma lágrima, mas basta um gesto gentil para deixá-lo emocionado.”

“Os estudiosos do cinema hitleriano deveriam considerar isto: a produção nazista foi capaz de fabricar uma obra que encantou completamente meninos judeus. A propaganda faz coisas…”

“De repente, a rua se abriu, e o vento nos atingiu com toda a força. Estacamos. Maurice foi o primeiro a reagir: – Caramba, o mar!”

“ – A França só foi grande na época dos reis. Durante a monarquia, nunca enfrentamos uma catástrofe como essa…”

“Quem sabe não é um refugiado também? Talvez tenha cruzado a linha como nós, se bobear é um cachorro judeu.”

“Gritar bem alto é uma forma de esvaziar a mente e faz com que os músculos funcionem sozinhos.”

BONS MOMENTOS

“Em linhas plenas de amargura, nos dizia que ‘apesar das desgraças que se abateram sobre a França’, os hotéis, o cassino e as casas noturnas continuavam lotados, como se a guerra só existisse para pobres”.

“Talvez tenha acreditado sair da guerra ileso, até agora, mas talvez esteja redondamente enganado. Não tiraram minha vida, mas fizeram pior: roubaram minha infância, mataram em mim o menino que eu podia ser…Talvez tenha me tornado duro demais, cruel demais; quando prenderam meu pai, nem sequer chorei. Um ano atrás, teria aberto um berreiro”.

“Talvez não dê mais importância à vida, só que a máquina está em funcionamento, o jogo continua, a regra diz que a caça deve sempre correr do caçador, e ainda tenho fôlego, farei tudo para que não tenham o prazer de me pegar”.

“Quanto a mim, tenho a impressão de que continuaremos em guerra para sempre, de que ela se tornou um estado permanente. A guerra e a existência se confundem, não adianta fugir, ela está em toda parte”.

“Havia noitadas de descontração em que se tocava violão, e eu gostava do cheiro dos pinheiros e do mar quando a noite caía, o vento varria o calor do dia e, com a exceção de Gerard, sempre mecanicamente frenético, relaxávamos e retomávamos em coro as melodias lançadas pelo cantor. Aquilo fazia bem, evocava a paz”.

“Papai, que estava escutando, tirou a cara do jornal:

— Por falar em sapateiro, vou lhes contar uma história.

Aquilo era a única coisa capaz de nos acalmar.

– É a história de um homem que diz a outro: ‘Para que os homens vivam tranquilos, é muito simples, basta matar todos os judeus e os sapateiros’. O outro olha para ele, surpreso, e, depois de pensar por algum tempo, pergunta: ‘Mas por que os sapateiros?’”.

“Ficamos nos insultando por alguns minutos antes de voltar a caminhar a passos ligeiros. Essas briguinhas nos faziam um bem danado, era assim que mantínhamos nossos laços de fraternidade, e sempre nos sentíamos melhor depois de um arranca-rabo”.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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