Pré-leitura do livro “Os engenheiros do Caos”, de Giuliano da Empoli

O AUTOR

Giuliano da Empoli é italiano e suíço, nascido em 1973, jornalista, ensaísta político, romancista e dirige uma ONG chamada Volta (think thank). Foi premiado com o primeiro romance (O Mago do Kremlin).

A PUBLICAÇÃO

O livro “Os engenheiros do caos: Como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições”, foi publicado em 2019, com 192 páginas, pela editora Vestígio.

CIRCUNSTÂNCIAS

Cada novo veículo de comunicação de massa teve seu tempo de enorme influência no processo político e nas corridas eleitorais. Foi assim com jornais, rádio e televisão, ao longo do século XX. Este início do século XXI tem sido o momento da internet e das redes sociais, que atingem as massas, mas podem ser focalizadas em incontáveis nichos (ou bolhas) com mensagens literalmente individuais.

Essas tecnologias exploram a insatisfação da população, que se acumula e se transforma em raiva, indignação e ódio. Os “novos” políticos usam o conhecimento da psicologia para direcionar essa energia negativa, alimentando-a e alinhando-a com seus objetivos.

Projetos de poder são elaborados e executados fora dos campos políticos tradicionais. E figuras inexpressivas conquistam o poder máximo. Aconteceu e continua acontecendo.

O livro trata desses fatos e os analisa com rigor.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

A Itália parece ter sido onde tudo começou. Com a atuação dos “Spin doctors” (especialistas em produzir efeitos especiais, no caso nas redes e usando algoritmos) ou dos engenheiros do caos, alçaram ao poder máximo um outsider, um humorista numa ação de curto prazo. Também aconteceu na Hungria. E se repetiu com Donald Trump na mais desenvolvida e estável democracia do planeta, os Estados Unidos da América. Sempre a extrema direita do espectro político. Sempre de forma autoritária, ameaçando a democracia. Sempre usando a mentira, as “fake news” e propondo violência.

O LIVRO

O livro conta a sequência de eventos políticos e de comunicação que aconteceram na Itália, inicialmente, como se fosse lá o grande e receptivo laboratório das novas técnicas. Depois, Hungria e EUA. Também há uma explicação do que fez a virada a favor do Brexit. Os protagonistas desses novos métodos são nomeados e a expertise de cada um é exposta detalhadamente.

O livro adota uma linguagem direta. Estrutura-se em seis capítulos breves e uma conclusão. A leitura é cem por cento acessível e o autor oferece ao final a interessante referência bibliográfica que baseou a análise.

INSIGHTS

“A irrupção da internet e das redes sociais na política muda, mais uma vez, as regras do jogo e, paradoxalmente, ao mesmo tempo que fundadas sobre cálculos cada vez mais sofisticados, corre o risco de produzir efeitos crescentemente imprevisíveis e irracionais.

“O que está em jogo na Itália não é a reedição dos anos 1920 ou 1930 do século passado, mas a emergência de uma nova forma política moldada pela internet e pelas novas tecnologias.

“Vale a pena estudar as características dessa estranha besta que se nutre do ódio, da paranoia e da frustração dos outros.

“Para além de todas as diferenças entre si, esses movimentos têm como ponto comum o fato de pôr em primeiro lugar de sua agenda política a punição das elites tradicionais…

“Os complôs funcionam nas redes sociais porque provocam emoções fortes, polêmicas, indignação e raiva. E essas emoções geram cliques e mantêm os usuários colados ao monitor.

“O vídeo dos apoiadores de Jair Bolsonaro, no dia de sua posse em Brasília, gritando o nome do Facebook e do YouTube, rodou o mundo.

“O antissistema se tornou o sistema.

IDEIAS CENTRAIS

“O que faz da Itália, mais uma vez, o Vale do Silício do populismo é que lá, pela primeira vez, o poder foi conquistado por uma forma nova de tecnopopulismo pós-ideológico, fundado não em ideias, mas em algoritmos disponibilizados pelos engenheiros do caos. Não se trata , como em outros países, de homens políticos que empregam técnicos, mas de técnicos que tomam diretamente as rédeas do movimento, fundam partidos e escolhem os candidatos mais aptos a encarnar sua visão, até assumir o controle do governo de toda a nação…

“…produz as informações e as distribui em seus próprios canais. Elas já são recortadas, sob medida, para viralizar no Facebook e nas outras redes sociais. Os títulos são sedutores, muitas vezes enganosos, outras vezes violentos. Começam quase sempre com as mesmas palavras e expressões: Vergonhoso, Péssima Notícia, Isto é a Itália!, Vocês vão ficar chocados, Basta!, É o fim!. De início, antecipa-se a emoção, em geral negativa, que se quer suscitar. Depois, divulgada a informação, às vezes verdadeira, mas muito frequentemente falsa, convida-se à participação: Compartilhe! Faça circular, Máxima difusão!…

“Historicamente, a Igreja foi a primeira a abrir os exaustores para que essa imensa raiva acumulada se expandisse. Depois, os partidos de esquerda tomaram a frente a partir do fim do século XIX. Esses últimos garantiram a função de “bancos de cólera”, acumulando as energias que, em vez de serem gastas num instante, poderiam ser investidas na construção de um projeto mais amplo. Um exercício difícil, pois se tratava, de um lado, de atiçar constantemente a fúria e o ressentimento e, ao mesmo tempo, controlar tais sentimentos para que não fossem desperdiçados em episódios individuais, servindo à realização do plano maior. Segundo esse esquema, o perdedor se transforma em militante, e sua raiva encontra um caminho para se expressar.

“Google, Amazon e os deliveries de comida nos habituaram a ver nossos desejos atendidos antes mesmo de terem sido totalmente formulados. Por que a política deveria ser diferente? Como é possível continuar tolerando os rituais demorados e ineficazes de uma máquina governada por dinossauros impermeáveis a toda e qualquer solicitação?

“O maquinário hiperpotente das redes sociais, suspenso sobre as molas mais primárias da psicologia humana, não foi concebido para nos confortar, mas, pelo contrário, veio à luz para nos manter num estado de incerteza e de carência permanente. O cliente ideal é um ser compulsivo, empurrado por uma força irresistível para voltar à plataforma dezenas, centenas, milhares de vezes por dia, fissurado por essas pequenas doses de dopamina da qual se tornou dependente.

“Concretamente, no caso da campanha em favor do Brexit, as coisas se passaram da seguinte maneira. Num primeiro momento, os físicos estatísticos cruzaram os dados das pesquisas no Google com os das redes sociais e com os bancos de dados mais tradicionais, para identificar os potenciais apoios ao LEAVE (voto pela saída) e sua distribuição pelo território. Depois, explorando o “Lookalike Audience Builder”, um serviço do Facebook muito popular entre as empresas, eles identificaram os “persuasiveis”, ou seja, os eleitores que não haviam sido trazidos para o campo do Brexit, mas, com base em seus perfis, podiam ainda ser convencidos. Uma vez delimitada a área potencial do LEAVE, os físicos de dados passaram ao ataque. Objetivo: conceber as mensagens mais convincentes para cada nicho de simpatizantes. Durante as dez semanas que durou a campanha oficial, nós produzimos quase um bilhão de mensagens digitais personalizadas…

“No começo dos anos 1930, o New Deal marca também o nascimento de uma New Politics, uma nova política que integra as técnicas de marketing e de publicidade desenvolvidas no setor privado para responder às expectativas e exigências dos eleitores. É, aliás, nessa época que aparecem os primeiros “spin doctors” modernos, dos quais nossos engenheiros do caos são distantes imitadores.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.