Pré-leitura do livro “Os Amigos do Governador”, de Durval Aires

O AUTOR

Durval Aires (1922-1992) foi escritor (cronista, contista, novelista e poeta), além de jornalista profissional (atuou em seis jornais – O Povo, Diário do Nordeste, Tribuna do Ceará, Gazeta de Notícias e Diário do Povo).

A PUBLICAÇÃO

A novela-reportagem Os Amigos do Governador, de autoria de Durval Aires, foi publicada em 1967, com 65 páginas. Em 1994, a UFC publicou o livro “Ficção Reunida” com as quatro novelas de Durval Aires, em 268 páginas, apresentação de Dimas Macedo, orelhas de Luis Sérgio Santos.

CIRCUNSTÂNCIAS

A novela-reportagem “Os Amigos do Governador“ compõe uma sequência de quatro obras que se articulam e se complementam (as outras são O Manifesto, Barra da Solidão e Uma Estrela da Manhã), formando uma singular visão da vida pública no Ceará.

Ficção e realidade convivem de forma tão harmoniosa no texto, que o autor precisou advertir que semelhanças não são coincidências, são intencionais. O jornalismo (reportagem) e a literatura (novela) emprestam um ao outro força e beleza.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Homem de jornal (conquistou o respeito e a admiração de uma geração de jornalistas que ajudou a formar) e de pensamento progressista, Durval Aires faz com sua ficção um retrato único da realidade. Escreveu no limite exato do possível para fotografar desvios e abusos que se cometem tradicionalmente no exercício do poder formal e de imprensa.

Leiam-se trechos da crítica literária do escritor Dimas Macedo, ao resgatar do risco de esquecimento a obra de Durval Aires:

“…em Os Amigos do Governador reside uma vitoriosa tentativa de caricaturar o enredo da bajulação oficial, que a sutilidade presente no título da novela já deixa antever e prosperar…

…o que Durval Aires coloca em discussão é o mundo da pistolagem política acobertada pelas altas esferas do poder, onde as portas das penitenciárias se abrem e se fecham para que a facção dominante possa resolver as incômodas questões municipais, utilizando uma mão-de-obra barata e de comprovada eficiência…”.

O LIVRO

Os acontecimentos narrados remetem ao Ceará da segunda metade dos anos 1950, desdobrando-se a partir do assassinato de um “coronel”, a mando de outro. A trama envolve membros da cúpula dos três poderes — o governador, vários parlamentares e um desembargador — e a imprensa.

As peças do xadrez da administração pública se movimentam e se articulam com o jornalismo para acomodar pessoas e circunstâncias às conveniências de sempre. Lance por lance, personagem por personagem, poder por poder, a cúpula se recompõe dos incômodos, e se acomoda.

A densidade do roteiro (cada parágrafo é um míssil, um petardo, no dizer do jornalista e historiador Luis Sérgio Santos)em nada diminui a beleza do texto quando descreve a natureza, a terra, a vida na sua plena simplicidade.

CURTAS

“Política no interior não se faz com palavras bonitas. É preciso tutano, coragem. E audácia.

“No Cariri, via de regra, a política começa onde terminam os limites das terras. Nunca se sabe se um sujeito morre porque se elege Prefeito ou por ter mudado um pico de cerca.

“Os ricos matam e ficam palitando os dentes.

“Não esqueça de trazer os jornais. Quero ver se já vai funda a sonda da imprensa nesse poço de lama.

“Um assassino some da prisão, passa dois meses fora e retorna por sua livre e espontânea vontade…para a cadeia. Não é de deixar qualquer um com a mosca atrás da orelha? E a imprensa nem foi informada?

“A miséria quase sempre sensibiliza. E resulta num chamamento à solidariedade. Mas a degradação, ao contrário, produz sentimentos anti-humanos – a discriminação, por exemplo.

BONS MOMENTOS

“O Governador sorria. Recebeu-me exatamente como eu não gostaria. Íntimo. As pernas azuladas, gordas – escorregando da bermuda. Pés enormes, chatos, mergulhados num chinelo flocado, de lã. Sobras da cabeça, do inexistente pescoço, do rosto. Desproporções chocantes se amontoando nos ombros. Corpanzil flexível, vergado. Como se as palmas das mãos estivessem pregadas nos pés. A Primeira-Dama não estava. Desculpasse. Tinha ido a uma reunião importante das Pioneiras Sociais…Mas, à noite, podia ser encontrada no Náutico. Muito oportuna, aliás, essa promoção do colunista François.

“ José Aríolo explodiu. Com uma violência de que ninguém o julgaria capaz.
— Ordem? Ordem? Não se faça de besta, seu viado. Faz tempo que venho tolerando suas estultices. Se quiser publicar essa merda, sente o rabo na cadeira e faça o jornal. Se souber! Sabe nada! Pensa que fazer jornal é bajular os políticos? Balançar os bagos do Governador?

“Moitas fechadas de xiquexique. Macambira trançando, invadindo a vereda. Rabo-de-raposa subindo os lajedos. Parecendo enormes lagartas de fogo. Frutos de mandacaru brilhando ao sol. Um gavião-de-rapina parado no céu. Sentou num galho de vento? Olhos ardendo. Suor correndo no rosto. Marimbondos amarelos e formigas pretas subindo pelos braços, pernas. Vorazes. Picando. E uma dor dormente derramada pelo corpo. Sangrando. Conheceu pelo chouto largo, arrastado, do burro cardão. Os cascos chiando, batendo – chiap-plof, chiap-plof – deslocando seixos redondos. Aproximando-se. Subindo o serrote de pedra. A bala pulou para a agulha do rifle. Com estalo. O olho correu pelo lombo do cano. Um mané-magro passou na alça de mira. E movimentou, nervoso, as asas transparentes. De plástico. Como se afugentasse o calor. Coice da arma na cava do ombro. Prendeu a respiração e puxou o gatilho.

“Justino – o perverso matador do Coronel Antônio Mendes Brilhante, este figura exemplar das melhores tradições cristãs do povo caririense; aquele um bandido sanguinário – Justino também atentou contra a vida do desembargador, estúpida e cruelmente. Mas o castigo veio inexorável. Morreu na própria delegacia, quando se processava, na forma da Lei, a acareação dos envolvidos e suspeitos.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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