Pré-leitura do livro O Valor de Tudo, de Mariana Mazzucato

A AUTORA

Mariana Mazzucato é economista italiana (nascida em 1968) e pesquisadora numa universidade inglesa. Entre outros livros, escreveu O Estado Empreendedor.

A PUBLICAÇÃO

O livro “O Valor de Tudo – produção e apropriação na economia global“, de autoria de Mariana Mazzucato, foi lançado no Brasil em 2020 (dois anos depois da estreia no exterior), com 416 páginas, pela editora Portfolio-Penguin.

CIRCUNSTÂNCIAS

Reconhecida internacionalmente, a economista Mariana Mazzucato escolhe para seus livros temas delicados e decisivos, para o que faz extensa e profunda pesquisa. Seus livros alcançam grande repercussão e altos índices de leitura. Em 2005 ela tratou no livro O Estado Empreendedor do discurso impreciso e incorreto de que o papel do Estado é apenas regulador e trouxe dados impressionantes da intervenção positiva e relevante dos governos na economia e nos negócios em países desenvolvidos. Neste novo livro Mazzucato usa o conceito de “valor“ para penetrar e clarear com seu olhar crítico a lógica e os interesses que ameaçam a estabilidade do capitalismo, se não forem corrigidos.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Ao discutir em termos teóricos e práticos a ideia de Valor, Mazzucato coloca na berlinda todos os protagonistas do capitalismo — as empresas, os empresários, os executivos, o sistema financeiro e os governos. Ao debater quem cria valor, quem extrai valor e quem destrói valor, a autora leva o leitor a uma reflexão sobre os perigosos desvios que o sistema econômico global criou e alimenta. São eles principalmente a financeirização (e ela trata do curtoprazismo de sócios e gestores, da fixação do valor ao acionista como objetivo central das empresas, o abandono dos investimentos de retorno a longo prazo, do agigantamento do sistema bancário, por exemplo), o debate empobrecido e quase interditado sobre o papel dos governos na indução do desenvolvimento (a autora defende que governos criam valor) e perda de espaço dos “produtores“ para os “apropriadores“, e aqui entram os “rentistas“.

O LIVRO

O livro está estruturado em nove capítulos, que apresentam juntos a evolução do pensamento econômico e os dados e fatos do desempenho do mundo real ao longo do tempo. A primeira parte do livro discute a questão do valor e aos aspectos técnicos vão se superpondo as questões políticas e as escolhas que mercados e governos fizeram e as suas consequências. Os grandes teóricos (Keynes, Marx,Schumpeter, Piketty, Smith, Stiglitz, Friedman) vão aparecendo enquanto se discute o PIB como uma medida pobre do desempenho dos países e da riqueza. O governo e o sistema financeiro ocupam expressivo espaço nos questionamentos e debates, enquanto números surpreendentes mostram a dimensão dos desvios de rumo, causando pobreza no andar de baixo e concentração desproporcional no andar de cima. As duas últimas palavras do livro são significativas — é quando a autora faz sua profissão de fé numa “economia da esperança“.

INSIGHTS

“Recompensas estratosféricas para os poucos sortudos ampliaram as divisões sociais e fizeram com que a desigualdade crescesse em grande parte do mundo ocidental, em especial nos Estados Unidos, o lar da financeirização.

“Nos anos 2000, por exemplo, o braço americano da Ford ganhou mais dinheiro com a venda de financiamentos para carros do que com a venda de carros em si.

“A recompra de ações é uma forma de transferir dinheiro de uma corporação para seus acionistas…Entre 2003 e 2012, exatas 449 empresas listadas no Índice S & P da Bolsa empregaram 2,4 trilhões de dólares na recompra de suas próprias ações.

“Há muita discussão sobre a necessidade de fazer com que o crescimento seja “mais inteligente“ (guiado por investimentos em inovação), mais sustentável (mais verde) e mais inclusivo (produzindo menos desigualdade).

“Toda a tecnologia que faz com que smartphones sejam inteligentes foi financiada com dinheiro público.

“Análises mais sofisticadas relacionam a desigualdade crescente á maneira particular como os “apropriadores“ aumentam sua riqueza.

“Thomas Piketty concentra-se na desigualdade criada por uma indústria financeira predatória e pouco tributada e no modo como a riqueza é herdada ao longo de gerações, o que dá aos mais ricos uma vantagem para que se tornem ainda mais ricos.

“Joseph Stiglitz tem examinado como a regulamentação deficiente e práticas monopolistas vêm permitindo aquilo que os economistas chamam de “extração de renda“ e que está por trás da ascensão daquele 1% nos EUA.

IDEIAS CENTRAIS

“Por “criação de valor“ eu me refiro às maneiras pelas quais diferentes tipos de recursos (humanos, físicos ou intangíveis) são estabelecidos e interagem na produção de novos bens e serviços. E por “extração de valor“, às atividades voltadas à movimentação de recursos e produtos já existentes e sua subsequente comercialização, gerando ganhos desproporcionais.

“Nos Estados Unidos, de 1960 a 2014, a participação das finanças no valor adicionado bruto mais do que duplicou, passando de 3,7% para 8,4%. No mesmo período, a participação dos produtos manufaturados caiu em mais da metade, passando de 25% para 12%. O mesmo aconteceu no Reino Unido — a parcela da manufatura deixou de representar mais de 30% do valor adicionado total em 1970 e passou a 10% em 2014, enquanto a das finanças e dos seguros subiu de menos de 5% até atingir 9% em 2009, caindo para 8% em 2014.

“A Apple certamente cria valor, não há dúvida disso, mas ignorar o apoio recebido dos contribuintes e, depois, jogar estados e países uns contra os outros (para não pagar impostos ou pagar menos) com certeza não é a maneira de se criar uma economia inovadora ou alcançar um crescimento que seja inclusivo, que beneficie uma ampla parcela da população, e não apenas aqueles mais preparados para “ludibriar“ o sistema.

“Muitas empresas usam seus lucros para impulsionar o valor das ações a curto prazo. Isso é feito principalmente usando a reserva de liquidez para recomprar ações de investidores, sob o pretexto de maximizar, assim, o “valor“ do acionista. Contudo não é por acaso que entre os principais beneficiários da recompra de ações estão gerentes que, como parte de seu pacote de remuneração, possuem generosos planos de aquisição de ações — os mesmos gerentes que implementaram os programas de recompra. Em 2012, por exemplo, a Apple anunciou um programa de recompra de ações de até inacreditáveis 100 bilhões de dólares.

“O termo “rentista“ refere-se aqui à tentativa de gerar receita não por meio da produção de algo novo, mas pela prática do preço acima do “competitivo“ e pela inibição da competição mediante a exploração de vantagens específicas (incluindo mão de obra), ou, no caso de uma atividade compartilhada por grandes empresas, mediante a capacidade destas de impedir que outras organizações entrem no negócio, o que dá às primeiras uma vantagem monopolista. A prática rentista é muitas vezes descrita de outras maneiras — como a prevalência dos “apropriadores“ sobre os “produtores“ e do capitalismo “predatório“ sobre o “produtivo“…bancos e instituições financeiras são os alvos habituais dessa crítica.

“Por mais importante que sejam os acionistas, é difícil imaginar uma empresa sendo bem-sucedida sem o envolvimento de vários grupos, incluindo funcionários, fornecedores, distribuidores, a comunidade mais ampla onde se encontram as instalações das empresas e suas sedes, e mesmo o governo municipal e federal. Além disso, é errado pressupor que esses grupos têm um retorno garantido, ao passo que os acionistas estão empacados no fim da fila. Os governos que realizam investimentos arriscados em novas tecnologias e pesquisa básica — que depois serão adotadas por empresas que relutavam em assumir riscos iniciais tão elevados — não possuem nenhuma garantia de retorno.

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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