O AUTOR
Carlos D’Alge (1930-2017), o mais cearense dos portugueses, foi jornalista, escritor e professor. Trabalhou em quatro jornais e publicou treze livros. Na Universidade Federal do Ceará lecionava Literatura e ocupou funções de gestão (como a de chefe de gabinete do reitor Martins Filho).
A PUBLICAÇÃO
O livro “O Sal da Escrita“, de autoria de Carlos D’Alge, foi publicado em 1997, no programa editorial da Universidade Federal do Ceará, com 241 páginas. Ao final, Apêndice com a fortuna crítica do autor, selecionada e organizada por Vianney Mesquita.
CIRCUNSTÂNCIAS
Nascido em Chaves, Portugal, em 1930, aos 6 anos de idade, Carlos D’Alge já chegara ao Brasil. Mais tarde adotou a nacionalidade brasileira e escolheu o Ceará para lançar raízes. Chegou a receber da Assembleia Legislativa o título de Cidadão Cearense.
É nessa condição de luso-brasileiro que ele produz ensaios de literatura comparada, jogando luz sobre obras de autores portugueses e sobre obras de autores cearenses.
A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
Carlos D’Alge era um intelectual rigoroso e discreto. A extensão, a diversidade e a qualidade de sua produção literária eram amplamente reconhecidas. Todas as suas publicações se colocavam em altos patamares, disputadas por seus leitores e admiradas pelos críticos. E traziam, além do talento natural, a marca, na beleza textual, do professor que dominava a teoria. E a praticava objetivamente, escrevendo e publicando.
O LIVRO
Carlos D’alge selecionou para este livro doze ensaios de literatura comparada, analisando prosa e poesia, colocando foco em autores portugueses (com destaque para Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e José Saramago, mas não só) e em brasileiros cearenses (Pápi Júnior, Francisco Carvalho e Adriano Espinola).
A leitura se faz com prazer. D’Alge tem empatia para escolher e tratar os temas. O autor expõe seus pontos de vista de forma simples, dinâmica e cativante, e confronta com os do autor, como quando aborda o “diálogo” de Saramago com Deus, ou quando discute se Fernando Pessoa deu margem a ser visto como fascista (o que se chama hoje de ‘narrativa’ poderia ter nascido ali, quando o grande poeta diz que a interpretação é mais importante que o fato?).
D’Alge nem precisa de um livro inteiro, basta-lhe fisgar um trecho, um poema, uma ideia. E tudo vira um passeio por um mundo particular.
Nas oitenta últimas páginas, trinta e seis textos breves de vinte e nove autores (escritores, jornalistas, professores, críticos literários) fazem uma leitura da rica e bela trajetória de Carlos D’Alge em páginas de elevada sensibilidade. São eles: Austregésilo de Athayde, J.C. Alencar Araripe, Rachel de Queiroz, Francisco Carvalho, Moreira Campos, Vianney Mesquita, F. S. Nascimento, Carlos Augusto Viana, Artur Eduardo Benevides, Barroso da Fonte, Barros Alves, Blanchard Girão, Alcyr Castro, Roberto Pontes, Teoberto Landim, Linhares Filho, Márcia Gurgel, João Jaques, Paulo Bonavides, Jacinto do Prado Coelho, Vilson Brunel Meller, Sânzio de Azevedo, Pedro Lyra, Braga Montenegro, Fernando Mendonça, Eduardo Campos, Pessoa de Morais, Otacílio Colares, José Alcides Pinto.
CURTAS
“… Ai daqueles — diria eu — que, um dia, levaram o amor a sério…
“… O poeta não escuta o sino na “aldeia da minha alma“. Como ele, tento, às vezes, perceber também o sino da minha aldeia, tão longe, tão longe…
“…O certo é que, para nossa contemporaneidade, o sacrifício de Jesus não contribuiu em nada para melhorar a vida neste planeta, imerso em guerras, violências de toda a sorte, opressão e fanatismo.
“… Mergulhar nos textos do poeta é mergulhar no abismo que há em cada um de nós. Foi o que fiz ao ler Francisco Carvalho.
“… Admite-se não só a multiplicidade da heteronímia como a contraditória interpretação dos fatos. Aliás, o próprio Pessoa dizia que não havia fatos, mas somente a interpretação deles.
“ … expressão estética de um Pessoa doutrinário. Ou apenas como uma faceta de um homem ambíguo, esquivo, que nunca se dá por inteiro. De um escritor que defende a mentira pela incapacidadede da inteligência captar a verdade.
BONS MOMENTOS
“… O iluminismo, a iluminação, o esclarecimento definem, como se sabe, o último quartel do século dezoito, como o das luzes. Os divulgadores desse novo modo de ver as coisas foram, em consequência, os iluministas. Nas suas raízes estavam a renovação filosófica motivada pelo racionalismo cartesiano, pelo experimentalismo baconiano, pelo fisicismo newtoniano, pelo sensorismo lockiano, no que respeita às ciências, e ao ‘direito das gentes’, de Puddendorf, como renovador da doutrina jurídica.
“… Não resta dúvida, Eça imitou Flaubert e fez da sua Luisa a Bovary portuguesa. Imitar, contudo, não é copiar. Qual a obra literária profundamente original? Haverá originalidade na narratologia ficcional? A originalidade está no discurso, isto é, na maneira de trabalhar a linguagem. Guimarães Rosa foi original em Grande Sertão; Joyce foi original em Ulisses. Não se pode recusar a influência de Flaubert em Eça de Queirós. O escritor português reconheceu-a na conferência de 1871.
“… O poeta transforma o seu poema num grito à liberdade, torna-se um novo Prometeu, mas não basta isso, é preciso que a força do verso liberte o homem do símbolo da cruz e o descrucifique. Senhor de si e da vida, o homem poderá triunfar sobre a morte. Tentamos uma resposta para esta inquietante questão: a mortalidade do homem. Servimos-nos do mito dionisíaco. Dionísio é o Deus do prazer, da juventude e da mobilidade permanente. Mas também é um Deus bifronte, isto é, congermina o mistério da vida e o da morte. Visto dessa maneira, Dionísio tanto perturbaria como restauraria a paz.
“… Causa estranheza o fato de alguns setores da intelectualidade brasileira afirmarem, à primeira leitura de alguns textos políticos de Fernando Pessoa, a natureza reacionária desses textos, e proclamarem o fascismo do poeta. Julgo ser apressada essa classificação. Fernando Pessoa, um poeta fascista? Nem fascista, nem antifascista.
“… De retorno à Pátria, numa parada em Moçambique, Camões é visto por Diogo do Couto. Disso nos fala o cronista, que ajudou o poeta, carente de recursos materiais. O seu desembarque em Lisboa é narrado por Garrett no poema homônimo. O episódio é romântico. Tocam os sinos à funeral, Camões percebe que a sua amada Natércia vai ser enterrada, e desmaia. Morre 10 anos depois, à míngua, assistido pela escravo Jau…
“… Os generais, os presidentes, os reis, estes estão sempre à salvo. Aparecem na televisão bem-vestidos, limpos, escanhoadas, engravatados, trajando reluzentes uniformes; graves às vezes, risonhos por circunstância. Atrás deles, subjugados à sua hipocrisia, estão os soldados, sem outra opção senão morrer por Alá ou pelo controle do petróleo.