Pré-leitura do livro ´O Ópio dos Intelectuais´, de Raymond Aron – por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Raymond Aron (1905-1983) foi um intelectual francês, professor de prestigiosas universidades e editor do jornal France Libre (ligado à Resistência) e da revista Les Temps Modernes (com Jean Paul Sartre e Merleau-Ponty). Tinha presença marcante no debate político assinando artigos em grandes jornais espalhados pelo mundo, como pensador liberal e anticomunista (entretanto, Aron condenou a derrubada de Salvador Allende e negou-se a apoiar a ditadura de Augusto Pinochet, no Chile).

A PUBLICAÇÃO

O livro ´O Ópio dos Intelectuais´, de autoria de Raymond Aron, foi lançado originalmente na França, no ano de 1955. Uma das edições brasileiras mais recentes foi feita no ano de 2016, pela editora Três Estrelas, com 350 páginas, tradução de Jorge Bastos.

CIRCUNSTÂNCIAS

Terminada a Segunda Grande Guerra Mundial, o mundo se dividiu em dois, um sob a influência dos Estados Unidos, o outro sob a influência da União Soviética, um capitalista, outro comunista, direita e esquerda, como preferirem. Havia uma disputa política entre os dois pela hegemonia, que se desdobrava na diplomacia, na corrida armamentista e no campo das ideias. Os intelectuais, em sua maioria, tomaram uma posição a favor de um dos lados.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Raymond Aron se destacou no combate às ideias da esquerda, realizando uma crítica substantiva e inteligente. Ombreando-se na sua dimensão intelectual a outros grandes intelectuais franceses, como Albert Camus, Merlau-Ponty e Jean Paul Sartre, Aron ia fundo na análise dos pontos fortes e dos pontos fracos dos dois lados do debate, mas sempre se posicionava de maneira clara. O título do livro é revelador do espírito do autor e da obra, sem lhe retirar a qualidade. Karl Marx disse que a religião era o ópio do povo. Simone Weil disse que o marxismo é a religião dos intelectuais.

O LIVRO

Raymond Aron foge das paixões e estabelece na história a base do livro. Ele toma a trajetória da França, cheia de revoluções e traumas, desde a Revolução Francesa (quando afloram os conceitos de esquerda e direita), para traçar o perfil de seus intelectuais. Também toma a Inglaterra, que avançou tanto ou mais que a França, sem necessitar de solavancos no poder, realizando reformas leves, mas contínuas, sem recuos. Aron também comenta a política nos Estados Unidos da América, onde não há praticamente um pensamento e um partido de esquerda. Evidentemente, a Guerra Fria (termo que teria sido cunhado por ele) é o pano de fundo de todo o livro (pode considerar que a obra é um conjunto de textos escritos quando Stálin ainda mandava na União Soviética).

O livro está estruturado em três partes. A primeira trata do que o autor chama de mitos políticos (a esquerda, a revolução e o proletariado) e do otimismo. Na segunda, a religião e a história são a pauta central. Na terceira, o intelectual é quem fica na berlinda.

INSIGHTS

“As liberdades reais, graças ao socialismo, se acrescentam às liberdades formais, fabricadas pela burguesia.”

“A esquerda se esforça para libertar o indivíduo das amarras das servidões imediatas, mas pode acabar levando-o à servidão – distante em teoria, mas onipresente na prática – da administração pública.”

“Tocqueville demonstrou aonde nos levaria o impuslo irresistível da democracia caso as instituições representativas fossem arrastadas pela impaciência das massas, caso o sentido de liberdade, aristocrático na origem, se apagasse.”

“A pobreza aflige de tal maneira centenas de milhões de seres humanos que uma doutrina prometendo a abundância precisará, por séculos ainda, contar com o monopólio das informações para cobrir o fosso entre o mito e a realidade.”

“A tentação para o sacrifício das liberdades políticas em nome do vigor da ação não morreu com Hitler e Mussolini.”

“Nem o otimista que idealiza a fraternidade que advirá da abundância nem o pessimista que imagina a tirania perfeita dominando as consciências graças aos instrumentos de comunicação e de tortura podem ser refutados pela experiência do século XX.”

IDEIAS CENTRAIS

“É fácil dizer que o totalitarismo hitlerista é de direita e o totalitarismo stalinista de esquerda, a pretexto de que um se remete ao romantismo contrarrevolucionário e o outro, ao racionalismo revolucionário; um pretende-se essencialmente particular, nacional, ou racial, e o outro, universal, a partir de uma classe eleita pela história. Mas, 35 anos depois da Revolução Soviética, o totalitarismo pretensamente de esquerda exalta a Grande Rússia, denuncia o cosmopolitismo e mantém os rigores da polícia e da ortodoxia, ou seja, continua a negar os valores liberais e individuais que o movimento do Iluminismo tentava promover contra a arbitrariedade dos poderes e o obscurantismo da Igreja.”

“Os programas sociais, que a esquerda aplaude e quase toda a opinião pública aprova, desde já implicam um passivo e não poderiam ser indefinidamente expandidos sem comprometer outros interesses, igualmente legítimos. As alocações familiares financiadas por um imposto aplicado aos salários, como na França, favorecem os pais de família e os idosos à custa dos jovens e dos solteiros, ou seja, à custa dos mais produtivos. A esquerda deve se preocupar mais em evitar o sofrimento do que em acelerar o desenvolvimento?”

“Os trabalhistas alcançaram, em 1945, uma vitória cuja dimensão os surpreendeu. Por cinco anos tiveram liberdade de legislar à vontade e se serviram amplamente desse direito. A Inglaterra de 1950, com certeza, se diferencia profundamente daquela de 1900 ou de 1850. A desigualdade de renda, que há meio século era maior do que a de qualquer outro país do Ocidente, se tornou hoje menor do que a da Europa continental. A pátria da iniciativa privada agora oferece o  modelo quase completo da legislação social… Um setor da indústria está nacionalizado, os mercados agrícolas estão organizados. Quaisquer que sejam, entretanto, os méritos da obra social realizada, ainda se pode reconhecer a antiga Inglaterra. As condições de vida e de trabalho do proletariado melhoraram, mas não mudaram fundamentalmente.”

“Nos países ocidentais, os diversos sentidos da oposição direita/esquerda – que distinguimos por necessidade de análise – estão presentes, em maior ou menor grau. Em toda parte a esquerda conserva alguns traços característicos da luta contra o Antigo Regime; em toda parte ela é marcada pela preocupação com programas sociais, com o pleno emprego, com a nacionalização dos meios de produção. Em toda parte ela aparece comprometida com os rigores do totalitarismo stalinista… em toda parte a lentidão da ação parlamentar e a impaciência das massas trazem o risco de dissociação entre valores políticos e valores sociais.”

“No capitalismo, o sistema tributário constitui um dos instrumentos para reduzir a distância entre ricos e pobres. É um instrumento que não deixa de ter a sua eficácia, desde que os impostos sejam corretamente coletados e repartidos… é preciso aceitar certa dose de desigualdade, inseparável do próprio princípio da concorrência. É preciso aceitar que o imposto sobre heranças acelera a dispersão das grandes fortunas, sem destruí-las radicalmente. Não se progride indefinidamente na direção da igualdade de renda.”

“Tanto quanto a dominação sobre pessoas de outra raça ou de outra língua, as desigualdades extremas de condições pareceiam estar em contradição com o espírito dos novos tempos. Os milagres da ciência conferiram à miséria um aspecto escandaloso. Não havia dúvida de que a indústria em breve eliminaria os restos da pobreza milenar. O desacordo se dava apenas com relação à escolha dos meios.”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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