Pré-leitura do livro ‘ O Enigma do Jano Caboclo’ , de DIATAHY BEZERRA DE MENEZES – por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Eduardo Diathahy Bezerra de Menezes é cearense de Fortaleza, nascido em 1935. Graduado em Ciências Neolatinas e em Pedagogia, Especialista em Pesquisas Educacionais, Doutor em Sociologia do Conhecimento, Pós-Doutor em História Antropológica. Publicou cinco livros, colaborou em mais de setenta outros e escreveu mais de 360 artigos para diversos periódicos. É professor da Universidade Estadual do Ceará e da Universidade Federal do Ceará.

A PUBLICAÇÃO

O livro ‘ O Enigma do Jano Caboclo: para uma leitura antropossemiológica da narrativa popular em verso’, de autoria de Eduardo Diathahy Bezerra de Menezes, foi publicado em 2012, pelo programa Coleção Nossa Cultura, da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, com 313 páginas, prefácio de Martine Kunz.

CIRCNSTÂNCIAS

Já nas primeiras páginas do livro, o autor revela a origem do seu interesse e estudo da cultura popular: “uma infância banhada em muita narrativa que me vinha do carinho de uma tia paterna, quase cega, e de uma jovem cozinheira sertaneja, na casa de meus pais”. O Enigma do Jano Caboclo foi a tese com que Diathahy se apresentou no Concurso de Professor Titular de Sociologia da UFC, em 1980, obtendo o primeiro lugar.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Embora haja inúmeras publicações, estudos e pesquisas sobre a cultura de um modo geral e sobre a cultura popular, especificamente, o trabalho do professor Diathahy é único na abordagem, no estilo, na profundidade, e formula e defende uma tese original.

Transcrevemos pequeno trecho de Martine Kunz no prefácio que diz bem da conexão livro-autor: “…Diathahy, professor doutor, pós-doutor e acadêmico, pula a cerca de todas as certezas e nos oferece uma reflexão plena, madura, em que hesitações, indagações, digressões, hipóteses lançadas não corroem a força coesa de sua perquirição, mas parceiros e testemunhas da sutileza de seu aproche e da minúcia de sua investigação. É uma reflexão viva e indomável…”

O LIVRO

Cultura e literatura, cada uma com todos os seus vieses (clássica, moderna, erudita e dita popular, central e periférica…) são o objeto.

O próprio autor explica a ideia central de sua pesquisa: “…essa literatura (Narrativa Popular em Versos), assim como outros setores das manifestações culturais das classes subalternas e, sobretudo, das sertanejas, é algo que se define em sua totalidade por caracteres polarizados, por atributos aparentemente contraditórios, visto que ela se apresenta simultaneamente como conservadora e inovadora, resignada e rebelde, transhistórica e engajada no tempo etc. ..”. Noutro trecho segue o autor: “…ocorreu-me exprimir esse universo por meio de um modelo simbólico: utilizo, para tanto a estética ou alegoria mitológica do deus Jano…essa divindade bifronte do panteão romano, com uma fece voltada para frente e a outra, para trás …”.

Ao final do livro, a Bibliografia se estende por 73 páginas (incluindo artigos e capítulos de livros). Registre-se que a evidente erudição do autor é habilidosamente usada para tornar a leitura agradável e acessível.

INSIGHTS (Curtas)

“…minha condição profissional me impõe o viés crítico segundo o qual sou propenso a revelar os aspectos indesejáveis da existência humana e da realidade social, a desvendar ocultações ideológicas e apontar o frequente embuste de nossa consciência por meio de obras e atos coletivos.”

“…a ilusão de uma cultura universal proporcionada pela racionalidade científica e tecnológica, reforçada pela difusão de padrões internacionais através dos mass-media, tende a cortar o camponîes, o artesão e o operário das fontes de sua própria cultura.”

“…certos usos supostamente universalistas, nas Ciências Humanas, do conceito de cultura tendem a conotá-lo como recobrindo uma realidade harmoniosa e holística, passando assim por alto ou mesmo dissimulando oposições de classe que se dão no interior de sua elaboração…”

“…as relações de antagonismo e de aproximação entre a chamada cultura erudita, sapiente, letrada ou “superior” (que chamei de ELITLORE, por simetria e isonomia) e a cultura dita vulgar, popular, subalterna ou “inferior” (comumente chamada FOLCLORE) têm atravessado um processo histórico acidentado…”

“Posto que fazendo parte da mesma família, o mítico, o onírico e o literário são discursos distintos por ocuparem posições diferenciadas, embora relacionadas no amplo território da re-presentação…”

“ …a Narrativa Popular em Versos estaria situada a meio-caminho entre o discurso mítico e o discurso literário “culto”, porém, por força das diferenças de classe como lugares de sua produção, muito mais ligado àquele do que a este.”

IDEIAS CENTRAIS (Bons Momentos)

“…A partir das reflexões que venho desenvolvendo mediante o estudo dessa forma de narrativa popular – na perspectiva que me é peculiar como pesquisador situado a meio caminho entre a Estética, as Letras e as Ciências Humanas – ocorreu-me exprimir esse universo por meio de um modelo simbólico: utilizo para tanto a metáfora ou alegoria mitológica do deus Jano. Com efeito, essa divindade bifronte do panteão romano, com uma face voltada para frente e a outra, para trás, dotada por Saturno da “dupla ciência” do passado e do futuro, possuidora de numerosos outros atributos, é a expressão mais significativa da ambivalência do pensamento humano e divino, assim como a tendência maniqueista de toda religião…”

“No seu aparente alheamento – visto que as representações da sociedade são nela geralmente reduzidos a gestos, atitudes e atos dramatizados individualmente, assim como os grupos sociais e os antagonismos de classes, como tais, mui raramente mostram a sua verdadeira face ou chegam a ser efetivamente identificados – a nossa Narrativa Popular em Versos, bem como outras produções simbólicas do povo sertanejo, constituem no entanto um sistema de impugnação da cultura das classes dominantes por sua própria existência diversa, por seu teor resultante em grande parte de uma reação aos processos de excludência, pela acentuação dos contrastes entre os pólos da produção cultural, e, enfim e sobretudo, por seus silêncios fortemente carregados de significação…”

“… o protesto do poeta do povo não chega a formular a sua contestação abrangente; tende a centrar-se nos efeitos mais evidentes (a fome, a carestia, os impostos, as injustiças manifestas, os costumes etc) e a assumir a forma de uma lamentação impotente. Desse modo, a crítica social e a sátira são quase sempre fragmentárias, localizadas e parciais. Produto de uma análise imediatista das situações ou acontecimentos, elas revelam aparentemente uma consciência ingênua ou dependente; em suma, uma consciência “colonizada”…”

“…Por um lado, o sistema tradicional de valores e crenças quase nunca é claramente posto em questão. O controle exercido pelos impulsos provenientes do ‘ sagrado’ em geral e da religião em particular, na visão do catolicismo sertanejo (de velha estirpe ibérica e colonial, reforçada posteriormente por missionários italianos, franceses e nacionais) desempenha aí um papel importante. Suas narrativas estão povoadas pela presença constante do divino, da Virgem Maria, de santos e beatos, de milagres, de aparições ou visagens, profecias, exemplos e maldições etc. O elemento demoníaco, por sua quotidianidade, deve ser incluido dialeticamente nessa categoria: o Diabo ocupa espaço relevante nessa literatura e constitui o polo contrário da tensão ético-religiosa da consciência coletiva e do imaginário social de nossas populações sertanejas e tradicionais…”

“…o campo cultural da Narrativa Popular em Versos instaura-se num espaço onde predomina o discurso masculino e seu consequente olhar. Existe uma ausência quase absoluta da mulher como agente como agente de sua produção. Além disso, ela aparece idealizada nos ‘ romances’ tradicionais e estereotipada negativamente em folhetos diversos, mas, sobretudo, naqueles chamados “de gracejo” pelos poetas populares…”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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