PRÉ-LEITURA DO LIVRO “O CAMINHO DA SERVIDÃO”, DE FRIEDRICH HAYEK

O AUTOR

Friedrich Hayek, economista austríaco (1899-1992), Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 1974. Lutou na Primeira Guerra e viveu também na Alemanha, Inglaterra e EUA. Membro de relevo da Escola Austríaca de pensamento econômico, era defensor do liberalismo como concebido no século XIX. Amigo de Karl Popper a vida inteira. Confrontou as ideias de John Maynard Keynes, e foi respondido no mesmo tom.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Caminho para a servidão”, de Friedrich Hayek, foi lançado em 1944, na Inglaterra, com 522 páginas, com prefácio do autor, que fez um segundo e um terceiro prefácios nas reedições de 1956 e 1974. Recebido inicialmente com frieza, o livro foi crescendo em leitores e prestígio. É best-seller.

CIRCUNSTÂNCIAS

O livro foi escrito durante a Segunda Guerra. Hayek observa o que acontece com a Alemanha durante quatro décadas (aproximadamente de 1890 a 1930) e faz o mesmo em relação à Inglaterra. Conclui que a Alemanha se aproxima do socialismo e a Inglaterra se afasta do liberalismo, influenciada pelo modelo alemão. E ambos corriam o risco de se tornarem regimes autoritários. Hayek cita como indutores desse processo duas ações: o planejamento econômico central e a intervenção do Estado. É (ou seria) o caminho da servidão, o autoritarismo.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Nos dias atuais, entre economistas do mundo inteiro há uma discussão sobre a validade efetiva das práticas neoliberais e ultraliberais. O debate foi mal posto: colocaram o mercado e o Estado como excludentes. Não são, cada um tem seu papel e seus interesses. Não se discute se o Estado e o mercado devem ser mínimos ou máximos. É simples: os dois não são excludentes, são complementares, e quanto ao tamanho devem ter o tamanho adequado, necessário.

O livro de Hayek, apesar do título, joga luz sobre a questão. Mesmo tendo sido escrito há oito décadas.

O LIVRO

O próprio autor diz que escreveu o livro pensando na Inglaterra, que sempre teve forte tradição liberal. E percebe que naqueles tempos, a Alemanha tinha desempenho econômico superior e impressionava outros países. E caiu no nazismo hitlerista. Este risco da Inglaterra ceder a ideias coletivistas ou socialistas (contra seu tradicional individualismo) é o fio que une todos os quinze capítulos.

Ao longo do texto há interessantes abordagens: uma delas discute qual é o monopólio menos perigoso — estatal ou privado; outra é a propaganda dos regimes que querem caminhar para o autoritarismo (nada mais atual) e há a simplória explicação para não usar a Rússia como argumento (comunista, mais “coletivista” que a Alemanha, sem dúvida), entre outras.

Friedrich Hayek é um liberal convicto. Seu pensamento tem base no liberalismo clássico (John Locke, Adam Smith, David Ricardo…), sem o fanatismo dos ultraliberais. Sua argumentação é elegante e moderada. Mas sua tese é difícil de provar. Custa crer que a Inglaterra pudesse se tornar uma nação totalitária.

O livro é um sucesso — depois de uma recepção inicial fria, foi conquistando aos poucos o mercado e a crítica. Primeiro na Inglaterra, depois nos EUA. Depois no mundo inteiro.

INSIGHTS

“… é mais importante remover os obstáculos com que a insensatez humana obstruiu nosso caminho e liberar a energia criadora dos indivíduos, do que inventar novos mecanismos para “guiá-los” ou “dirigi-los” — criar condições favoráveis ao progresso, em vez de “planejar o progresso”.

“…se fracassarmos na tentativa de criar um mundo de homens livres, devemos tentar novamente. O princípio orientador — o de que uma politica de liberdade para o indivíduo é a única politica que, de fato, conduz ao progresso — permanece tão verdadeiro hoje como o foi no século XIX.

“…a história desses países nos anos anteriores ao surgimento do sistema totalitário apresentava poucos aspectos estranhos à nossa…

“…a maioria dos elementos humanitários da nossa moral — o respeito pela vida humana, pelos fracos e pelo indivíduo em geral — tenderá a desaparecer.

“…a técnica mais eficiente é continuar a usar as velhas palavras, alterando-lhes, porém, o sentido…nesse contexto a palavra mais deturpada é, evidentemente, liberdade.

“…A doutrina liberal é a favor do emprego mais efetivo das forças da concorrência como um meio de coordenar os esforços humanos e não de deixar as coisas como estão.

“… O funcionamento da concorrência não apenas requer a organização adequada de certas instituições como a moeda, os mercados e os canais de informação. Algumas delas nunca poderão ser convenientemente geridas pela iniciativa privada…

“… Para proporcionar resultados iguais para pessoas diferentes, é necessário tratá-las de maneira diferente…

“… Em princípios do século XX, o trabalhador do mundo ocidental havia havia alcançado um grau de conforto material, segurança e independência que pareceria impossível um século antes.

“… Os princípios do liberalismo não contêm nenhum elemento que o faça um credo estacionário, nenhuma regra fixa e imutável.

IDEIAS CENTRAIS

“… Por volta de 1870, as ideias liberais haviam alcançado 
provavelmente seu ponto máximo de expansão para leste. Daí por diante, porém, começaram a retroceder, e um ideário diferente, que não era novo, mas na realidade muito antigo, passou a avançar de leste para oeste. A Inglaterra perdeu a liderança intelectual na esfera social e política e passou a importar ideias. Nos sessenta anos seguintes, a Alemanha converteu-se no centro de onde as ideias destinadas a governar o mundo no século XX se propagaram para leste e oeste.  

“… Como consequência da decisão de Bismarck em 1879, a Alemanha assumiu um papel revolucionário, isto é, o papel de um Estado que ocupava, em relação ao resto do mundo, a posição de representante de um sistema econômico superior e mais avançado. Tendo compreendido isso, deveríamos perceber que, na presente revolução mundial, a Alemanha representa o lado revolucionário, e sua grande antagonista, a Inglaterra, o lado contrarrevolucionário. 

“… Foi a união das forças anticapitalistas da esquerda e da direita, a fusão do socialismo radical e do socialismo conservador, que destruiu na Alemanha tudo quanto ali havia de liberal. Foi estreita, desde o início, a relação entre o socialismo e o nacionalismo naquele país…de 1914 em diante, das fileiras do socialismo marxista foram surgindo doutrinadores que arrebanharam para o nacional-socialismo, não os conservadores e os reacionários, mas os trabalhadores e a juventude idealista…transformando-se em pouco tempo na doutrina hitlerista. 

“…Se o sentimento de opressão nos países totalitários mostra-se, em geral, bem menos agudo do que muitos imaginam nos países liberais, é porque os governos totalitários conseguem, em grande parte, fazer o povo pensar como eles querem…isso é realizado pelas várias formas de propaganda…todos os instrumentos de propaganda são coordenados de modo a conduzir os indivíduos na mesma direção…elas destroem todas as regras morais, porque minam um dos fundamentos da ética… o senso de verdade e o respeito a ela…esse processo de criação de “mitos” para justificar os atos do líder totalitário nem sempre é consciente. 

“…Quando o escrevi, socialismo significava, inequivocamente, a estatização dos meios de produção e o planejamento econômico central que ela tornava possível e necessário. Nesse sentido, por exemplo, a Suécia está hoje muito mais distante do socialismo em matéria de organização do que a Grã-Bretanha e a Áustria. No entanto, a Suécia é tida, em geral, como mais bem socializada. Isso se deve ao fato de que o socialismo passou a significar, sobretudo, a redistribuição extensiva da renda por meio da tributação e das instituições do Estado do Bem-Estar social (welfare state). (Prefácio do autor, 1976).

“…Poucos estão prontos a admitir que a ascensão do nazismo e do fascismo não foi uma reação contra contra as tendências socialistas do período precedente, mas o resultado necessário dessas mesmas tendências. Esta é uma verdade que a maioria das pessoas reluta em aceitar, mesmo quando as semelhanças entre muitos aspectos detestáveis dos regimes internos da Rússia comunista e da Alemanha nacional-socialista são amplamente reconhecidas.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.