PRÉ-LEITURA DO LIVRO “NILTO MACIEL”, DE RAYMUNDO NETTO

O AUTOR

Raymundo Netto é jornalista, escritor, editor, quadrinista e produtor cultural. Teve romance e contos vencedores em editais e premiados, foi finalista do Prêmio Jabuti 2016. Recebeu a Medalha Boticário Ferreira. Mantém o blog AlmanaCULtURA. 

A PUBLICAÇÃO 

O livro “Nilto Maciel”, de autoria de Raymundo Netto, é publicação da Coleção Terra Bárbara, Edições Demócrito Rocha, de 2017, com 80 páginas. 

CIRCUNSTÂNCIAS 

Raymundo Neto tinha relações de amizade com o escritor Nilto Maciel. Conhecia boa parte dos seus escritos e acompanhou a evolução de sua carreira literária. Através de um amigo comum, chegou a ser sondado para escrever a sua biografia.

Assim, quando a editora resolveu colocar o perfil biográfico de Nilto Maciel na coleção Terra Bárbara, o nome de Raymundo Netto foi a escolha óbvia, natural.

O texto, pela aproximação de Raymundo Netto com a literatura e por consequência de sua afinidade com Nilto Maciel, tem uma fluidez excepcional. Trata-se de um documento consistente e sensível. Literatura de qualidade em tom de conversa amena. 

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO 

Nilto Maciel foi uma absoluta vocação e um enorme talento para a literatura. Mas, não apenas. Foi um escritor especialmente dedicado a levar sua obra aos leitores, num empenho excepcional de exposição. Assumiu integralmente a busca do reconhecimento, queria fixar uma marca forte perante a crítica e o público. 

Esta publicação oferece a quem a lê uma honesta e estimulante informação sobre o ser humano e sobre o artesão de literatura que foi Nilto Maciel. 

O LIVRO 

Raymundo Netto descreve em poucos e breves capítulos o essencial da vida pessoal de Nilto Maciel e seu vínculo especial com o mundo das palavras. Mostra a conexão estreita entre o homem e o escritor. 

A linguagem de Netto é direta e acessível. Leia a seguir algumas amostras (que poderiam estar cem por cento aspeadas) da viva e rica descrição que ele faz de Maciel. 

Nilto Maciel é, certamente, um dos mais fecundos, criativos e enigmáticos escritores que o Brasil já produziu. Publicou 8 romances, 8 coletâneas de contos, 8 novelas, 1 seleção de poemas, 3 de crônicas, 2 de artigos, resenhas e notas literárias e 2 de ensaios, além da colaboração em diversas revistas, jornais sites, blogs e antologias, inclusive no exterior, traduzidas para o espanhol, italiano, francês e esperanto. 

Trabalhou na Câmara, no Supremo Tribunal Federal e em alguns fóruns… 

A maior parte dos amigos em comum o amavam e odiavam na mesma proporção. 

Que ele vivia para (e na) literatura não havia dúvida. Era um obsessivo. Lia o tempo inteiro. Acreditava que “ler e imaginar são exercícios irmãos, muito próximos. Ler repensar, futricar o pensamento, o sentimento, a imaginação. Para se aproximar da possibilidade de criação literária, basta um passo curto“. 

Guardava de um tudo, quase um acumulador de si mesmo. Tinha a crença de que morreria pobre, assim como nascera. Passou boa parte de sua vida estorvado por apuros financeiro. 

Tinha pavor da velhice e de morrer sem deixar legado. Apavorava-lhe a escuridão do esquecimento, o não interesse pela leitura de sua obra na posteridade. Receava sua opção de entrega de vida à literatura não ter valido a pena. 

A princípio, dizia sentir “ojeriza por tudo quanto cheirasse a mato, sertão, interior”. Por isso a aversão inicial por Rachel de Queiroz, José Américo e José Lins do Rego. Queria algo “universal “. De forma geral, os autores brasileiros não o inspiravam, nem Machado, nem Alencar, nem Veríssimo ou Jorge Amado. Entretanto, indo residir em Brasília, em 1977, talvez “por nostalgia “ — e por influência do escritor Carlos Emílio Correia Lima —, passou a ler esses autores, descobrindo Graciliano Ramos, mudando a sua forma de vê-los e até destacando-os em suas próprias obras ficcionais, assim como em artigos de crítica e ensaios posteriores….”. 

Certamente, este livro é um estímulo e um aperitivo eficazes para conduzir à leitura da obra extraordinária de Nilto Maciel. 

(As citações a seguir em CURTAS e em BONS MOMENTOS são de autoria de Nilto Maciel, selecionadas nas páginas de Raymundo Netto.)

CURTAS 

“… escrever é ato recatado. Exige silêncio e solidão. É como sonhar…

“… com medo de avião. Não quero morrer no ar. Não quero morrer na terra. Não quero morrer na água…

“… não sou um homem realizado…Ora, se me realizar, terei chegado ao topo do Everest, ao fundo do abismo, ao fim da picada…

“…não há nada mais asqueroso do que a direita. Dá nojo… É o pior da moral, do espírito, do pensamento humano. 

“…menos vivi do que fiei palavras…

“… preciso editar meus papiros. Os editores não engolem prejuízos. Não sou vendável…

BONS MOMENTOS 

“… Ninguém me conhece, ninguém me lê. Sou marginal da literatura. Há muito deixei de sonhar com glórias e famas. Tudo isso é passageiro. O que é bom fica, permanece. Sem precisar de muletas, fanfarras, galardões, medalhas. Sou apenas um escritor de poemas, contos e romances.

“… De longe  (“Além, muito além daquela terra, que ainda azula no horizonte”) eu a desejava (Fortaleza, a cidade) adolescentemente, de dia e de noite. Considerava-a deitada à beira do mar. Esparramada no vasto e morno leito de areia. Passava horas e horas a mirar fotografias de jornais e livros: a Praça do Ferreira, o Cine Diogo, o Excelsior Hotel. Como era o mar? E as ruas, as avenidas, as alamedas, os bulevares? Teria carroças, charretes, automóveis? Ou tudo não passava de mentira de fotografias? Punha à vista nas cartas mirradas e sonolentas as avenidas da minha cidade e cochilava.

“… A riqueza poderia me socorrer. Viagens e outros prazeres materiais me libertariam das ansiedades. Porém, a riqueza não me conhece. E é quase impossível nos conhecermos, pois não há desejo e não a busco, e ela, certamente, por não saber de mim, anda atrás de seus adoradores.

“… Sou quase um animal doméstico. Pouco saio de casa. Espécie de cão sem dono, trancafiado numa casinha de madeira, quase sempre com a coleira atada à argola do muro. Minha missão, porém, não é rosnar e afugentar ladrões ou intrusos. É escrever meu epitáfio, dia e noite, no escreve-apaga sem fim, no chão, no muro, na baba, no céu, na cabeça.

“… Preciso falar com minha mãe e dar-lhe alento para enfrentar as doenças e a velhice. Preciso cuidar de minhas quatro filhas. Preciso amar minha mulher. Preciso ver uns filmes no vídeocassete. Preciso ler uns alfarrábios e uns jornais. Preciso viajar, tirar férias, conhecer outras cidades. Preciso cuidar de mim mesmo. Preciso de casa. Preciso de carro mais novo. Preciso ver tanto que nem sei se vai dar tempo.

“… Primeiro: o conto necessita de fato, mesmo insignificante. Como a barata na cabeça de Hitler. Segundo: requer cadeia de reações dos personagens, tanto do herói como dos outros. Terceiro: a reação do herói há de ser conforme seu caráter, sua personalidade. Assim, Hitler age com violência inusitada, animal, absurda.

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