Pré-leitura do livro ‘Mulheres Fantásticas’, de CLAUDER ARCANJO – por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Clauder Arcanjo é cereanse de Santana do Acaraú, nascido em 1963. Poeta, contista e romancista, já publicou dez livros e é membro da Academia de Letras do Brasil, da Academia Norte-Riograndense de Letras e da Academia Mossoroense de Letras.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Mulheres Fantásticas”, de Clauder Arcanjo, foi lançado em 2019, pelas editoras Poetaria e Sarau das Letras, com 155 páginas, prefácio de Dimas Macedo, orelha de Kalliane Amorim, comentário de Maria Valéria Rezende, projeto gráfico de Geraldo Jesuíno e ilustrações de Raissa Christina.

CIRCUNSTÂNCIAS

Clauder Arcanjo, este jovem, completo e maduro escritor cearense, construiu uma trajetória impecável de obras literárias de extradordinário valor, com romances, contos e versos. Criou uma cidade para ambientar suas histórias e compor o cenário de seus personagens (às vezes, até ele próprio aparece na trama, como Hitchcock e Shayamalan fizeram nas telonas). Ele já escrevera um livro de contos com um único tema, separações. Agora, traz um livro sobre mulheres, e elas são mágicas, literalmente fantásticas.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Os leitores que experimentam uma vez Clauder Arcanjo se encantam, e repetem, e já aguardam e cobram o próximo livro. E a expectativa sobre a criatividade, a beleza e a qualidade da próxima obra só aumenta. E ele não decepciona. Ao contrário, supera a expectativa, supera-se. É o caso deste livro. Críticos como Dimas Macedo e Alder Teixeira colocam ‘Mulheres Fantásticas’ no mais alto patamar da literatura fantástica.

O LIVRO

O livro ‘Mulheres Fantásticas’, de Clauder Arcanjo, é composto por 18 contos, todos eles tendo como figura central uma mulher de comportamento e de habilidades únicas, absolutamente incomuns, levando-as a agir como elementos da natureza, como objetos, como animais, tudo se desenrolando com leveza, com doçura, até com bom humor, por maior que seja o drama. Como espelho dessas poderosas senhoras, o autor coloca figuras masculinas que terminam por se revelar ora frágeis, ora gentis, apaixonados por elas, mas incapazes de realmente compreendê-las em toda a sua sensibilidade. .

CURTAS

“Ao coração de certas mulheres somente se chega através de palavras. No caso de minha Matilde, de longas e românticas missivas.”

“Quando o dia era ruim, os homens iam à casa dela”.

“Cuidado com o coração! Dizem que quem se cale e se tranca, o coração se atravanca.”

“E quem somos nós? Haverá alguma pura entre nós?”

“Fungo uma tristeza miúda, e fico quieto.”

“Helena sofre desse drama desde que viajamos para a Amazônia e, chegando lá, fez pouco de uma velha benzedeira que se disse casada com uma maçaranduba, A praga da porta.”

 

BONS MOMENTOS

 

“…E haja malquerença sobre mim, palavrões, achincalhes, sem falar nas surras. Com cabo de vassoura, com a tranca da porta, com a bolsa. Enfim, com tudo que ela vê nas mãos. Minha vida não tem sido fácil…não, não tem sido…Silêncio, ela vem vindo da feira.”

“ – Ela, de noite, se deita, faz um ninho na cama. Antes me bota para fora do quarto. Vou dormir na sala. Todas as noites. Quando o dia amanhece, compadre Cícero, lá está ele, entre os nossos lençóis: redondo, branco…um ovo.

  • Mas, compadre, um ovo? – inquietou-se Cícero.
  • Eu, nas primeiras vezes, pensava que fosse alguma mania dela. Sei lá, dormir com um entre os lençóis. Depois, Cícero, dei pra perceber que não. Toda manhã era um ovo novo. E o pior, depois de um certo tempo, a danada da mulher ficou choca…”

 

“Pouco depois, Hermínio entrava de mar adentro, a cavalgar o pesqueiro nas ondas ariscas; mar revolto, horizonte assanhado, chuva. As poucas jangadas na risca logo voltaram. Destemido, Hermínio resolveu esticar a sua permanência. Quando sentiu que a pescaria nada mais lhe daria, recolheu âncora. O mar se encrespou, e o barco sofria para manter o rumo de volta. O convés banhado pelas ondas, o rangido do madeiramento, o resfolegar das forças da natureza…” .

 

“Tudo aquilo se dera há exatas duas semanas. Conhecera Florípedes numa quermesse e logo gostara daqueles olhos agateados. A cintura fina e seu jeitinho travesso cativaram o quarentão. Foi amor ligeiro e arrochado. Menos de mês, eles estavam juntos. De casa montada, no Alto da Liberdade. Construção nova, de dois quartos, alpendrada, de frente para o nascente. Gaudêncio, apaixonado, fizera todos os gostos da companheira: móveis, artigos de mesa, cama e cozinha, sem mencionar a decoração. E agora ele não podia entender aquele sumiço…”

 

“Desde o início percebi que era uma mulher repleta de saudade. A cada sábado, relatava-me a mesma história. No entanto, uma narração sempre entremeada de novos detalhes, como se, a cada vez que ela me contasse, novas lembranças fossem brotando, como a se revelarem na sua mente pontos outros, que se enxertavam com perfeição no núcleo base daquele enredo. Ao final, o choro.”

 

“Voltei debaixo de um sereno fino. Melhor, vaguei pelas ruas desertas de Licânia. Quando entrei em casa, o tempo não sarava o meu choro na noite. A madrugada a se derramar em lágrimas numa chuva fina e renitente. Eu, as horas em claro, acompanhando a goteira; os pingos caindo dentro do balde posto no meio do quarto. Maldito gotejado!…”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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