Pré-leitura do livro “Memorial de Maria Moura”, de Rachel de Queiroz

A AUTORA  

Rachel de Queiroz (1910-2002), escritora, jornalista e tradutora, primeira mulher na Academia Brasileira de Letras, teve seu brilho reconhecido por prêmios (Prêmio Jabuti, Prêmio Machado de Assis, Prêmio Camões, entre tantos) e alguma popularidade, por ter sua obra levada ao grande público através do cinema, da televisão e da sua atuação na imprensa.

A PUBLICAÇÃO 

O livro “Memorial de Maria Moura”, de autoria de Rachel de Queiroz, foi publicado em 1992, pela editora José Olympio, com 503 páginas, teve sucessivas reedições e virou uma mini-série na televisão. 

CIRCUNSTÂNCIAS 

Em livro anterior (Dora, Doralina, de 1975), Rachel de Queiroz já abordara o desafio da emancipação da mulher em sociedades atrasadas, preconceituosas. Dora abandona o sertão, enfrenta suas dores e seus limites e faz o seu próprio caminho. 

Maria Moura é personagem ainda  mais densa, e a autora compõe uma trama de aventura e um jogo de emoções. Maria quer mais do que evitar ser esmagada (por um ambiente em tudo hostil) ou apenas conquistar a liberdade no mundo dos homens. Ela quer mandar neles todos, controlar tudo. 

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO 

Rachel estreou em 1930 (aos 20 anos) com O Quinze — livro sobre a miséria e a tragédia da seca nordestina. O território de Maria Moura é o mesmo, mas a natureza não se apresenta como uma adversidade invencível. A violência tem outra fonte. As lutas são outras. Os monstros são em parte invisíveis, ou se disfarçam nas estruturas sociais, nas instituições e nas figuras de autoridade. 

Memorial de Maria Moura é Rachel de Queiroz no auge da sua potência criativa e da sua força literária. A partir das relações de uma família, ela descreve a trajetória impensável para uma mulher daquele tempo, daquele lugar, naquele contexto. 

O LIVRO 

Os eventos se passam em alguns pontos do sertão nordestino. Acontecem há cento e cinquenta anos, mais ou menos. Subdesenvolvimento e atraso. Prevalece a lei do mais forte. Tempos de cangaço e de coronéis mandões. Disputas de terra e soluções na bala. Os negócios se fazem com a plantação, com a criação e com as armas. O governo é distante, a igreja é presente. A religiosidade invade a vida. Parece que nada muda, o tempo anda devagar, ou de lado. 

Maria Moura enfrenta tudo e todos, com medo e com coragem. Impõe-se aos homens e às mulheres. Registre-se: o livro apresenta diferentes tipos femininos e o leitor vai se dividir entre Jove, Rubina, Firma, Marialva e ela. Há os homens também, mas quase todos se perdem no caminho, ou vão ficando menores, sendo exceção o personagem religioso, o Beato Romano, se assim quiser o leitor. 

Para quem acredita (e quer conferir) que Maria Moura foi totalmente inspirada em uma conhecida cearense de carne e osso, recomenda-se o livro “Fideralina Augusto”, de Dimas Macedo (Armazém da Cultura, 2018). 

CURTAS 

“No que toca à minha vida — minha vida particular – só me resta ser eu mesma o meu pai e a minha mãe. E quem sabe o meu marido. 

“Mulher largada do marido, o melhor que faz é fechar a porta, diz o povo. 

“Eu pensava que já sabia tudo do que se passa entre homem e mulher. Mas não sabia era de nada. Meu Deus…

“O único lugar que mulher pode frequentar sozinha é mesmo a igreja.

“O fato é que, comigo, quando se tratasse de homem, tinha que ser sempre eu quem dava o sinal.  

“Vocês atiram, mas sou eu quem diz a hora de puxar o gatilho. 

BONS MOMENTOS

“A ideia de um marido não era ruim — pelo menos no que tocava a satisfazer o coração. Mas que marido? O homem que eu pensava não devia existir no mundo. Pelo menos eu não conheci nenhum. E quem iria me procurar, naquela vila velha da Vargem da Cruz? Algum daqueles bichos brutos,bigodudos, dente falhado, cheirando a cachaça, como o Tonho? O Irineu era meu pretendente eterno. E quem sabe eu acabava me dando a ele, afinal era o meu sangue…

“A minha ideia era ir levando os cabras a se acostumarem na luta, porque da luta é que ia sair o nosso pão de cada dia. Tinha muito com quem se brigar nesse mundo afora: porque eu já estava convencida de que, nesta vida, quem não briga pelo que quer, se acaba. Eu queria ter força. Eu queria ter fama. Eu queria me vingar. Eu queria que muita gente soubesse quem era Maria Moura. Sentia que, dentro da mulher que eu era hoje, não havia mais lugar para a menina sem maldade, que só fazia o que a mãe mandasse, o que o pai permitisse. 

“O homem feliz é o que não tem passado. O maior dos castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. Lembrança que vem de repente e ataca como uma pontada debaixo das costelas, ali onde se diz que fica o coração. Alguém pode ter tudo, mocidade, dinheiro no bolso, um bom cavalo debaixo das pernas, o mundo todo a seu dispor. Mas não pode usufruir nada disso, por quê? Porque tem as lembranças perturbando. O passado te persegue como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças. 

“Os crimes mais comuns entre os homens da vila são os atentados contra a vida; mata-se muito em todo este sertão. A vida, aqui, é muito barata e a morte parece que resolve tudo. A morte cala a boca de quem fala demais, de quem repete o que não deve, ou de quem trai um segredo. Tira do caminho os inimigos; só com a morte se resolve uma pendenga grave. E há ainda muitas mortes por motivo de honra: bater em cara de homem, insultar um homem de certos nomes. Ou desvio de donzela, traição de mulher! Honra só se lava com sangue.E eles lavam a honra e a desonra; é um direito do homem ofendido. Mais até do que um direito, é uma obrigação. Por isso os valentes matam e os covardes mandam matar. 

“Felizmente, mesmo nesses delírios de fraqueza, uma coisa me dizia: ele não me quer a mim, eu não sou bonita, não sou nova, nem ao menos me visto de mulher, ou tenho jeito de mulher. O que ele quer em mim é a Moura, a calça de homem, o chicote, a força! Ele é atrevido, mas é fraco, acho que gosta de mim — ao seu modo — mas só vai continuar gostando enquanto eu for o que sou. Aquela Moura capaz de enfrentar outros homens, sem medo. Até pelo contrário, dando medo a eles…

“Um homem assim, bonito, mulherengo, dengoso, mulher não resiste a ele; eu via até com as cunhãs da casa. Mas eu me iludia que, com as outras, era só brincadeira; a mim ele me pagava paixão com paixão…E eu adorar um desgraçado desses, abrir pra ele o meu quarto, a minha cama, o meu corpo. Foi humilhação demais.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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